segunda-feira, 5 de outubro de 2015

A PECHA DAS MULTITURMAS

       
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       Lutámos, desde sempre, pela excelência da Educação; pela assunção prioritária de um Sistema Educativo de eleição, capaz de preparar para a vida cidadãos conscientes, informados, livres e autónomos. Pugnámos, desde a primeira hora, por uma escola essencial onde os interesses da criança fossem colocados acima de tudo o resto.

       Pois, foi nesta conformidade que, no limiar do 2.º milénio, fomos assaltados pelo pavor que a descontracção do Ministério da Educação nos provocou ao impor e validar a constituição de multiturmas, a que errada e despudoradamente deu o nome de turmas mistas (?!!!). Turmas mistas, como facilmente se percebe, são turmas que integram crianças de ambos os sexos. Multiturmas, como o próprio conceito torna claro, são várias turma numa só, isto é, uma turma, ao cuidado de um só professor, onde coabitam simultaneamente vários alunos, repetentes ou não, matriculados, respectivamente, em dois, três, ou mesmo nos 1.º, 2.º, 3.º e 4.º anos de escolaridade. Isto é de cortar à faca, e significa o total desprezo a que tem estado votado o 1.º Ciclo do ensino obrigatório, dito gratuito.

      Antes de mais, convém esclarecer algumas das vertentes essenciais da problemática educacional, chamando fudamentalmente a atenção para o facto de que se deve partir do âmago real de toda esta questão, se na verdade se quiser analisar conscientemente a situação da educação em Portugal; compreender com lucidez as disfuncionalidades do sistema; solucionar com inteligência e desembaraço apenas o que está errado, sem beliscar sequer aquilo que é positivo.

           É que o desconchavo das multiturmas constitui uma das chagas mais perniciosas e pestilentas a que os sucessivos governos têm recorrido, como se a Educação Básica mais não fosse do que um simples e vulgar jogo sem importância, no escalonamento jurídico do conjunto de leis perniciosas que têm sido despejadas sobre a comunidade educativa, numa mal disfarçada atitude de comodismo ou de incompetência, ignorância e descontrolo.

        Pelo menos, e ao contrário do que se passava antes, os pais das crianças lesadas parecem estar agora realmente preocupados com o problema. Lutemos, então, contra tamanha irracionalidade, contra a disruptiva hecatombe das multiturmas.

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

A PRAGA DAS SONDAGENS


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        Ao nível dos conceitos, tendo em conta a representação simbólica que subjaz à essência propriamente dita da coisa que se pretende objectivar, enquanto significado que não deixa de evoluir com o decurso dos anos, devemos estar atentos à consideração dos sinais concretos que a prática de uma observação dos factos sempre nos permite.
           
        Pois, mas em relação às sondagens de opinião, sempre que um novo acto eleitoral se avizinha, tudo se torna mais intenso e obnubilado, sem deixar de ser menos convergente e pedagógico. Como escreveu Feuerbach (1804-1872), no prefácio à segunda edição (2009) de “A Essência do Cristianismo”: “(...) o nosso tempo prefere a imagem à coisa, a cópia ao original, a representação à realidade, a aparência ao ser (...)”.

          No próximo dia 04 de Outubro de 2015 os portugueses votarão (ou não), na sequência de mais uma campanha eleitoral (?!!!) repleta de sondagens. Siderados, atordoados, perplexos, confusos ou atónitos, mas, seguramente, desinformados, os portugueses deslocar-se-ão às câmaras de voto (ou não).

            Reparem que, a respeito de sondagens, já no dia 25 de Maio de 2011, depois da hecatombe das políticas que levaram Portugal a mais uma bancarrota, escrevemos o seguinte: “(...) vamos, isso sim, conversar um pouco sobre certos fenómenos que têm ocorrido nesta campanha eleitoral e que, aparentemente, distorcem a realidade, não sabemos se por mero acaso, se por força de concertadas estratégias desviantes, a par daquilo que se passa, também, no âmbito da diarreica profusão de sondagens, claramente penalizadoras da nossa tão maltratada democracia.

            É que, ao invés de se formar e informar o povo, de acordo com aquilo que deviam ser as campanhas eleitorais, apresenta-se-lhe um mal urdido conjunto de cortejos delirantes, incompreensivelmente ofensivos, onde perpassam as mais ridículas baboseiras, que as televisões cobrem exaustivamente, numa clara opção pelo interessante, em detrimento do importante, facultanto às audiências o que elas querem ver, e não o que deve ser visto – tudo isto calculadamente entremeado, como se disse, por um autêntico cataclismo de sondagens”.

        Sondar radica no verbo latino subundāre”, que significa: mergulhar, afundar. Ora, estes sinónimos podem também indiciar afogamento ou eventuais dificuldades com o lodo das profundezas. Uma democracia madura deve ser capaz de fazer o seu próprio acto de contrição.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

O CORPO DO POEMA



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Um poema é sempre uma mulher
                                   adormecida
entregue ao repouso inquieto 
e sedutor de uma lascívia indefinida
sob a seda vibrante de um manto 
                          pré-semiológico 

Um poema pode ser uma mulher
                                empedernida
esculpida tendencialmente pelo signo 
no sentido da luz das coisas 
brilhando de voluptuosidade
na ausência do erro 
que a sua nudez proclama 

Na essencialidade semântica do poema
a desordem aparente dos signos 
fixa a sensualidade do seu corpo transcendente 
e do ventre incandescente do silêncio 
brota o desejo de harmonia e comunhão

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

TRIBUTO A ESTEVES DOS SANTOS

   
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        Na comemoração dos noventa e dois anos (14/09) deste autor de inúmeras realizações ao longo da sua vida, fica aqui a nossa homenagem na letra de um seu escrito, com mais de vinte anos, seguramente. Nesta conformidade, passamos a recordar as suas “VELHAS MEMÓRIAS ESCOLARES”:

            “Ao ler, agora, a primeira obra de Leão Tolstoi, “INFÂNCIA”, ocorreram-me, espontaneamente, passos da minha própria infância, na minha aldeia natal, já lá vão sessenta anos.
         Pardilhó, no concelho de Estarreja, já tinha emigrantes na América, França e Brasil; outros imigravam, sobretudo, para a região de Lisboa e de Setúbal; os que permaneciam fiéis ao torrão natal dedicavam-se à construção civil e à naval; mas havia os anfíbios: cultivavam a agricultura e lavravam a ria. A igreja paroquial era, principalmente, nos dias festivos, a casa comum. Mas a primeira missa, a missa da alva, celebrava-a o Senhor Padre Joaquim, na capela da Senhora dos Remédios.
            Estradas empedradas a macadame, só a que ligava Avanca à Murtosa e a que vinha da sede do concelho.
            Escolas, havia várias: na Rua, a da D.ª Luciana (mais tarde também a do Sr. Reis); na Igreja, a Escola das Senhoras; e em edifício pertencente ao Sr. Ramos – as escolas dos Senhores Godinho, Cirne e Pitarma.
      A nível pré-primário, as “Mestras”, obreiras humildes, esquecidas, a quem tantas gerações de pardilhoenses devem tanta gratidão.
        Havia as mestras do Corgo, a mestra Rilha e as mestras do Outeiro, se bem me lembro.
        Às mestras do Outeiro, que me ensinaram as primeiras letras e as primeiras orações, aqui deixo a minha saudosa recordação.
            Lembro a mestra Emília, asseada, bonita, de sorriso angélico; a mestra Luz, organista, depois, da igreja paroquial; e a mestra Ana, disciplinadora, sempre atenta às traquinices das meninas e dos meninos, pronta a manejar a cana, sua fiel companheira. Mas não me recordo que tenha magoado alguém.
       Rigorosa no ensino do Catecismo, descrevia, com pormenores de artista plástica, o inferno mitológico: as ígneas labaredas alterosas, o diabo ornado de cornos e de cauda, manejando um tridente com que atiçava o fogo sulfuroso por toda a eternidade. Descrição dantesca, mesmo na ausência do famoso Cérbero. Mas compensava a visão terrífica, pondo-nos a passear nos maravilhosos e babilónicos jardins do Paraíso, com anjos de rubicundas faces, gozando todas as delícias”.

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

NEURO-PEDO-PROBLEMÁTICA

    

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          As coisas são como são, sempre, e não como a nossa visão subjectiva as representa na nossa mente e as faz veicular aos outros, distorcendo o tal ponto acrescentado de quem conta um conto. Pois bem, no âmbito da aprendizagem, e, para que tudo possa funcionar a contento com cada um dos estudantes, importa a observância de condições mínimas essenciais, ao nível da psico-motricidade, da percepção das "portadas sensoriais" (Damásio, 2010: pp. 122/246); do esquema corporal, a saber: lateralidade, orientação espacial, orientação temporal; acuidade auditiva, vocabulário e facilidade de expressão; memória e motivação intelectual, “sem perda da experiência natural”, como afirmou Ludwig Binswanger (1871-1976).

       É claro que, por vezes, nem tudo corre da melhor maneira, e, os objectivos pretendidos não são plenamente visados, embora se espere que o docente tudo resolva e ultrapasse.  Acontece, porém, que o surgimento de condicionalismos e entraves de cariz neuro-pedagógico colocam o professor num beco sem saída, devido à sua difícil ou mesmo impossível abordagem.

         Por exemplo: é imprescindível que o aluno goze de um perfeito sentido da visão (capacidade óptica) para a aprendizagem da leitura, da escrita, do cálculo mental e das situações problemáticas, já que uma visão deficiente ou deficitária pode impedir a cabal interiorização das letras, dos sinais de pontuação e de todo o código semântico e simbólico, que possibilita a leitura correcta e significativa de um texto. Mas há mais: podem mesmo ocorrer disfuncionalidades ao nível da dislexia e da disortografia, por força de uma incorrecta percepção visual.

      Outro exemplo, considerando agora o esquema corporal: Henri Wallon (1879-1962) refere-se-lhe assim: “representação relativamente global, científica e diferenciada que a criança tem do seu próprio corpo” (1968), dando-nos a perceber a maneira como se vai construindo a personalidade infantil. Uma criança perfeitamente integrada face ao seu próprio corpo e respectivos membros, saberá sempre situar-se perante os vários objectos à sua volta, em relação às outras pessoas e, até, conseguirá o registo correcto dos factos ocorridos relativamente à sua pessoa e, ainda, no âmbito da relativização dos factos em si, entre si, enquanto tais. Isto é, se se encontra intacta a faculdade de diferenciação e de constituição correlativa de si e dos outros. Um esquema corporal bem definido e estruturado dá à criança uma consciência plena do seu eu e do espaço onde se move (continuidade e temporalidade).

    Com o passar do tempo, processa-se o normal desenvolvimento de qualquer criança saudável e, enquanto isso, um dos hemisférios cerebrais irá determinar a chamada dominância lateral, ou seja, um deles impor-se-á mais forte, mais preciso e ágil, em detrimento do seu oponível. Se for o direito, determinará um esquerdino; se for o esquerdo, o infante será dextra. A criança não deverá ser contrariada nunca nesta sua naturalíssima forma de crescimento.

     Sempre que a lateralização se apresentar indefinida ou cruzada, os problemas, aí sim, agravam-se, sendo melhor consultar o clínico competente para o efeito. Evidentemente que daria imenso jeito a existência de equipas multidisciplinares (médico incluído) nos nossos tão descaracterizados e massivos agrupamentos escolares...

domingo, 6 de setembro de 2015

VACUIDADE


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Deserto escaldante e inóspito 
folha branca de vagar e ausência 
palavra articulada no seio da razão 
porque o poeta desconhece o não-dito
e se por-dizer se recalca a fantasia 
nada mais volta a ser o não-seio 
histeria de conversão vale de lágrimas  

Só o poeta diz o que pensa sem pensar 

unidade síntese coesão
só o seu dissimulado pensamento se revela
na nudez manifesta da distância 
no instante sensível de uma claridade 
                                                   lunar   

Deserto longínquo o da palavra

a esgrimir o desejo convergente 
encoberto pela caótica ruína do Fado
ou oásis próximo o da palavra 
no horizonte simbólico de uma luz
pátria transcendental desconexa. 

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

SENSIBILIDADE E COMPETÊNCIA RELACIONAL

   
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    Logo após o desfecho catastrófico da Segunda Grande Guerra Mundial (1939-1945), que viria a pôr fim às hostilidades, os países envolvidos trataram de olhar em frente e dedicaram-se à reconstrução: tratava-se agora de renascer das cinzas. Para o efeito, só à Alemanha Federal foi concedido 70% do Plano Marshall. Sopravam, finalmente, novos ventos na Europa. Portugal recebeu também uma indemnização de guerra no valor de 51,3 milhões de dólares. Todo este clima de renovação e esperança propiciou o chamado “baby-boom”, pelo menos nos países do bloco Ocidental. Mas as crianças teriam agora de ser olhadas e educadas a partir de uma outra perspectiva.

            Exactamente, uma nova consciência surgiria, alicerçada na importância da educação dos afectos, logo da sensibilidade e das competências relacionais, estruturadas de forma a propiciar à criança o usufruto optimizado das suas capacidades físicas e intelectuais. Conforme temos referido, são os problemas afectivos com origem na família que têm determinado as perturbações comportamentais e a inadaptação à escola, a que se junta o insucesso estudantil; nascendo o novo ser da aliança mais imbricada e complexa que é possível dois seres humanos protagonizar, repleta da mais íntima sensibilidade física e psicológica, terá aquela de percorrer um longo e árduo caminho elaborado pelas mais ou menos amadurecidas acções e reacções afectivas dos progenitores.

            A relação conjugal, a que atrás aludimos, nem sempre corre bem, devido à influência dos fantasmas inconscientes dos adultos, quando estes trocam as voltas à própria sensibilidade consciente; quantas mães não “sufocam” os filhos através de cuidados obsessivos, no fundo, a camuflar uma agressividade irrepremível e doentia? Quantos pais não exercem sobre os rebentos um autoritarismo tristemente balofo, na tentativa inconsciente de compensar a ansiedade e a insegurança de si mesmos? Quantas crianças não desobedecem, teimam ou fazem birras, apenas para mendigar para si alguma atenção e ternura? Claro, a sensibilidade inconsciente é sempre mais forte e exigente do que a consciente, porque se encontra à mercê dos instintos primários. Georges Mauco (1899-1988), considera que “essa violência instintual se mantém enquanto não tiver sofrido, por intermédio da relação com o outro e pela mediação da palavra, o freio da realidade exterior” (Mauco, 1967: p. 25).

            Pelo que fica dito, quer a sensibilidade, quer a competência relacional necessitam de terreno propício ao seu desenvolvimento, portanto, em casa, no âmbito da triangulação familiar afectiva, primeiro; depois, na escola, no seio dos meandros do sistema educativo, nem sempre conformes às necessidades de sucesso pessoal, intelectual e social das crianças.


             Refira-se, a talho de foice, o que ocorreu no ano de 2007, em termos regressivos face à consciência do pós-guerra, isto é a grosseira substituição de um promissor mas inacabado (muitos dos pontos fulcrais estavam ainda por regulamentar) “Estatuto Docente” - (Decreto-Lei n.º 139-A/90), por um novo e intragável documento ainda em vigor (Decreto-Lei n.º 15/2007 de 19/01). Reforçava-se aqui a descaracterização e o desgaste rápido da classe docente; e impunha-se, paralelamente, um rol de exigências absurdas: mais horas de trabalho; tarefas administrativas exaustivas e supérfluas; interdição de opinar em relação ao perfil psicológico dos alunos; mais, o docente tem sempre de descortinar soluções para os défices de aprendizagem das crianças, como se estas tivessem origem numa qualquer indústria de produção em série, pautada pelo estereótipo do pronto-a-parir.