quinta-feira, 11 de agosto de 2016

A EDUCAÇÃO COMEÇA NO BERÇO

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        Uma das notícias emitidas na manhã de 10 de Agosto de 2016 referia uma constatação extraordinária mas, quanto a nós, nada surpreendente: “existe um número crescente de unidades hoteleiras, em Portugal, que rejeitam admitir crianças nas suas instalações”. Se conseguirmos penetrar na real e total dimensão de toda esta problemática, sem discutir a ilegalidade de tal interdição, rapidamente perceberemos as reticências ou até mesmo a intransigência que move os proprietários dos hotéis, cujos investimentos possam eventualmente ser postos em causa pelos azougados pivetes em roda livre, quando não em deplorável modo anárquico.

            Será que é disto que se trata, afinal!?...

            Ainda há dias, um conhecido psicólogo da nossa praça mediática (televisiva) aludia à importância do “não”, do saber e ser capaz de dizer “não” às criancinhas, aliás, tão necessitadas de normas, balizas e padrões comportamentais, como de pão para a boca. E é de pequenino, no seio da família, que se torce o pepino, caso contrário, o natural estado selvagem em que se nasce não será moldado nunca. É importante que todas as crianças e cada uma vão adquirindo, gradualmente, equlibradas capacidades de socialização, na família, na escola e na sociedade, través do respeito por si próprias e pelos outros, bem entendido, se os pais fores conscientes e responsáveis.

            A constelação familiar constitui a teia dinâmica fulcral ao desenvolvimento psíquico da criança, de acordo com toda a diversificada caracterologia daquela, onde têm maior relevo as condutas dos progenitores, dos irmãos e de eventuais educadores. Curiosamente, sobre esta matéria, Adler não deu importância à hereditariedade de factores psicológicos, apontando antes as influências do meio ambiente, isto é, a família em primeiro lugar, encontrando-se a mãe à frente dos restantes elementos. Na obra “O Sentido da Vida”, a dado passo, este autor escreve: “É, provavelmente, ao sentimento de contacto materno que devemos agradecer a maior parte do sentimento humano, de solidariedade e também a existência essencial da cultura”.

            Um outro grande cientista – António Damásio, ainda vivo e actuante, ensina-nos que “o cérebro retém uma memória daquilo que aconteceu durante uma interacção, e a interacção inclui de forma relevante o nosso próprio passado, e muitas vezes o passado da nossa espécie biológica e da nossa cultura” (Damásio, 2010: p. 171).


E porque da educação de crianças se trata, concluiremos com uma nova achega deste mesmo neurologista, quando aponta a morosa extensão temporal da infância e da adolescência humanas e a prolongada e lenta necessidade de educação dos processos não-conscientes do nosso cérebro, visando criar aí, nesse mesmo espaço, algo que possa vir a funcionar, de forma “controlada e fiável”, em função de “intenções e objectivos conscientes” (Damásio, 2010: p. 332). E acrescenta, reiterando o ponto de vista da neurofilósofa Patricia Churchland: “Podemos descrever esta educação lenta como um processo de transferência de parte do controlo consciente para um “server” não-consciente, e não a cedência do controlo consciente às forças inconscientes que podem provocar o caos no comportamento humano” (Damásio, 2010: p. 332).

domingo, 7 de agosto de 2016

RELENDO EÇA DE QUEIRÓS


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       Reservámos a segunda quinzena do passado mês de Agosto, a par de um conjunto de actividades de cariz recreativo-desportivo, para reler, entre outros autores, o nosso genial Eça de Queirós, nomeadamente o volume III – Obras Completas, de uma das várias edições colocadas à disposição dos amantes da boa literatura. Alves & C.ª, O Conde D'Abranhos, O Mandarim e, por último, O Crime do Padre Amaro, são os títulos reunidos neste terceiro volume.

            Ler ou reler Eça é sempre refrescante, divertido, elucidativo, pedagógico, logo, formativo, pelo que nos deixa a pensar, a reflectir sobre a realidade dos nossos dias, no que diz respeito à complexa teia das interacções familiares, sociais, políticas e religiosas, entre outros aspectos, naturalmente presentes nos enredos que este autor tão bem soube tecer. É que nada mudou, meus caros amigos, entre tudo quanto se passava nos idos das décadas de 1800 e aquilo que se tem vindo a verificar nos parcos dezasseis anos deste novo século XXI...

            Ou melhor, actualmente, o progresso e a sua faca de dois gumes – leia-se, as novas tecnologias de informação e comunicação, principalmente – vão conseguindo potenciar, efectivar e agilizar, para o bem, entre outros aspectos da questão: o conhecimento do mundo, a situação das economias, as descobertas da ciência, a interacção profícua dos homens de Boa-vontade... E, para o mal: , o compadrio, o tráfico de influências, a corrupção, a concretização de estratégias de guerra... É curioso como a seguir à palavra guerra associámos, automaticamente, a palavra audiências! É que estas, no século XIX, não existiam, embora os trabalhadores fossem, do mesmo modo, formatados a partir do berço, como refere Eça, “pela força da religião e pelo chicote da polícia”.
           
            Mas, porque de Eça de Queirós se trata, particularizemos um pouco a temática contida na diegese de duas das suas obras, quando não a ideologia funesta, repressiva, mórbida e cruel, reflectida pelos valores da sociedade de então e, diga-nos o leitor em que é que mudou o enquadramento e a substância sócio-culturais dos dias que correm! Tal como no Primo Basílio, no âmbito do qual a protagonista Luísa acaba por pagar com a própria vida um deslize de amor, durante a ausência prolongada e insuportável do marido, também em O Crime do Padre Amaro, a bela Ameliazinha, de 23 anos, solteira, seduzida pelo Padre Amaro, morre, agonizante, depois de um parto atribulado, quando constata, no dia seguinte, que o filho lhe foi subtraído, ainda que desconheça que o nacituro foi assassinado pela ama (“tecedeira de anjos”) no mesmo dia em que recebeu o pagamento de um ano pelos serviços de amamentação.

       Pois é! A violência doméstica continua em alta e, tanto mulheres como crianças, continuam a morrer às mãos de machos-primitivos-actuais... Ah! Mas tínhamos pedido que fosse o leitor a nos dizer em que é que mudou o enquadramento e a substância sócio-culturais dos dias que correm!

ESTADO NOVO E RESISTÊNCIA - Capítulo VIII - SALAZAR – O CANTO DO CISNE


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        Salazar deveria ter percebido, no início dos anos 50, que os ventos da História começavam então a soprar de outros quadrantes. A Resistência, pelo seu lado, continuava activa, através da acção do “Avante”; este jornal continuava a ser impresso clandestinamente, em tipografias muito bem disfarçadas no interior de casas de aspecto vulgaríssimo. É neste contexto que o governo tende a exercer uma pressão cada vez mais forte sobre as massas populares e sobre a resistência organizada, colocando a PIDE em campo; esta prende, tortura, maltrata e mata o responsável pela tipografia clandestina do jornal do Partido Comunista Português, “Avante”, em 1950, sem que o operário vidreiro, José Moreira, contudo, tivesse falado.

            Logo após a morte de Óscar Fragoso Carmona, em 1951, realizam-se novas eleições, aproveitando a Oposição o facto para apresentar o candidato Quintão Meireles e o professor Rui Luís Gomes que, acusado este de ser comunista, vê a sua candidatura rejeitada pelo Supremo Tribunal de Justiça. É assim que a Oposição se retira, deixando o caminho livre à eleição de Craveiro Lopes, proposto pela União Nacional.

            Entretanto as greves continuam a ser reprimidas a tiro, quer no rectângulo da Metrópole, quer nos territórios africanos onde os homens são tratados como animais de trabalho. Esta incapacidade de ver as coisas como elas na realidade eram, provocava fortíssimas críticas por parte de certos países estrangeiros. Em 1954 foi, finalmente, decretado o “Estatuto do Indígena”.

            Na extensa e tórrida planície Alentejana, sempre que os camponeses reivindicam salários com os quais possam fazer face à carestia da vida, são atacados pelas forças da Guarda Nacional Republicana que, na pessoa de Carrajola, fere de morte a trabalhadora agrícola Catarina Eufémia.

            Em 1955 Portugal integra o cômputo das Nações Unidas. Em 1956 o governo estende as “medidas de segurança” às colónias africanas, tentando dar resposta ao aparecimento dos movimentos nacionalistas, ironicamente liderados por recém-diplomados em Universidades do Portugal Europeu.

            Em 1958 volta a haver eleições: Américo Tomás concorre pelo estafado partido único do regime; pela Oposição apresentam-se Humberto Delgado e Arlindo Vicente, vindo este a desistir em favor daquele. Delgado, massivamente apoiado pela população, afirma com coragem e determinação: “caso vença, demitirei Salazar!”

            Depois de tudo isto, e, feitas as “contas”, Delgado consegue apenas 0,25 por cento dos votos. Havia fortes suspeitas de viciação. Durante a campanha, a PIDE foi desenvolvendo a sua acção, prendendo manifestantes e perseguindo políticos. Entre os presos contam-se António Sérgio, Jaime Cortesão, Mário Azevedo Gomes e Vieira de Almeida. Delgado é demitido e os seus partidários são presos.

            Ainda no ano de 1959 as eleições para a presidência passam a ser feitas por um colégio eleitoral constituído principalmente pela Assembleia Nacional e pela Câmara Corporativa. Em 1960, Álvaro Cunhal e outros opositores do regime conseguem evadir-se do forte de Peniche. Também no ano anterior Henrique Galvão tinha tido êxito na sua fuga de um hospital de Lisboa.

            Salazar não transige no que diz respeito às colónias e o caso de Goa vai ao Tribunal de Haia. Em África, os movimentos ditos de libertação tentam, em vão, negociar, encetando a rebelião armada através de processos de intimidação bárbara contra fazendeiros e trabalhadores negros, mulheres, crianças e animais, às ordens de Holden Roberto, nos primeiros meses de 1961, em Angola. Esta estratégia foi, na altura, sistematicamente reprovada pelo Dr. Agostinho Neto. Na Guiné, o conflito estala em 1963 e em 1964 Moçambique é palco também dos primeiros confrontos. Numa chamada de atenção ao mundo, Henrique Galvão assalta o paquete “Santa Maria”, ao qual chama “Santa Liberdade”.

            A guerra colonial acaba por trazer nova consistência e unidade nacionais ao regime e ao país respectivamente e, enquanto a guerrilha prossegue, os investidores nacionais e estrangeiros apostam nas matérias-primas das colónias, proporcionando um crescimento ímpar, em pouco tempo, nos territórios sob administração portuguesa. Na prática quem mais lucrou foi o capital e os interesses estrangeiros; Portugal, incompreensivelmente, pouco “comeu do bolo” e, quanto aos povos autóctones, salvo alguns casos isolados de pessoas bem posicionadas, nada puderam comungar ou usufruir. Era o crescimento sem desenvolvimento…

            Em 1961, as crises académicas são de carácter fundamentalmente político, embora a estrutura do ensino fosse também contestada. Salazar manda a polícia reprimir os estudantes, o que leva à demissão de Marcelo Caetano do cargo de reitor, afirmando violação da autonomia universitária. O 1.º de Maio é dia de luta e a polícia encontra-se vigilante

Em 1965 há eleições sendo reeleito Américo Tomás. A oposição vê os seus intentos sistematicamente frustrados, pois Salazar não desarma e, quando vem defender uma solução política e não militar para o conflito africano, não consegue convencer o presidente do Conselho de Ministros.

Em 1967 forma-se a LUAR; em 1970 a ARA; em 1971 as Brigadas Revolucionárias, tudo organizações que se colocam ao lado dos trabalhadores.

Depois da morte de António de Oliveira Salazar, em 1968, Tomás chama Caetano para chefe do Governo. Logo aqui surge no espírito de todos uma nova esperança de democratização que a prática desmente. Marcelo limita-se a mudar o nome às coisas: “Estado Social” em vez de “Estado Novo”, prosseguindo, no entanto, o incremento capitalista e o estado corporativo. Nas colónias continua a guerrilha sem contornos claramente definidos e, na Metrópole, Caetano vai organizar as primeiras eleições.

Em quase todos os círculos a oposição concorre através das organizações “CDE” e “CEUD”. A contagem dos votos é, uma vez mais, defraudada e a oposição contesta, sem êxito. Só há lugar para a União Nacional. A PIDE muda também de nome, passando a exibir a designação de DGS – Direcção Geral de Segurança, não mudando, contudo, a sua hedionda acção contra todos aqueles que tentam de alguma forma resistir.

Até 1974 Caetano continua a “liberalizar” à sua maneira, chamando à União Nacional, Acção Nacional Popular (1970). Em 1973 alguns deputados (Francisco Sá Carneiro, por exemplo) renunciam aos seus mandatos por discordarem da acção do regime que persiste no autoritarismo monolítico das suas principais estruturas. A censura chama-se agora “exame prévio”; as colónias, que depois de terem sido designadas de províncias, são agora rebaptizadas de Estados, sem que a guerra se resolva. Aumentam as contradições do regime, assim como a sua dependência económica em relação ao estrangeiro; aumenta também a inflação e a vida torna-se cada vez mais difícil para quem trabalha. Nesta medida, os trabalhadores reivindicam aumento de salário, direito à greve, liberdade sindical, entre outras coisas. A pressão exercida sobre o regime começa a tornar-se insuportável.

Em 1973 a Direita esclarecida tinha em mente preparar um golpe de estado em Portugal, através das diligências que, para o efeito, Kaulza de Arriaga se propunha desenvolver. Nada ocorre, no entanto. Em Luanda, na mesmo ano e, da mesma forma, preparava-se o MPLA para a implementação de acções de luta, prontamente aniquiladas pela atenta vigilância da Direcção Geral de Segurança.

Em 1973 é criado o Movimento das Forças Armadas. Na madrugada do dia 25 de Abril de 1974 o MFA derruba airosamente o regime político vigente e, depois de inúmeras peripécias, encetam-se os primeiros passos (com avanços e recuos) no sentido da construção da democracia em Portugal.


Nota: Por motivos alheios à nossa vontade, só hoje (07/08/2016) é possível concluir a série de publicações sobre a temática.

sábado, 16 de julho de 2016

PENSAMENTO E CONSCIÊNCIA

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          Relativamente aos conceitos em epígrafe, julgamos não ser de desprezar a constatação fácil de que ambos evoluem, com o tempo, no âmbito da sua capacidade de encarar e compreender o real envolvente. De resto, tudo se terá passado, desde os primórdios da humanidade, um pouco como o que se verifica com a criança, ontem como hoje, através das fases estudadas pela Psicologia do Desenvolvimento. Senão, vejamos:

            O paralelismo a que nos referimos, tinha já sido objecto de estudo, por parte de Freud, na sua obra Totem e Tabu, ao longo da qual este famoso médico neurologista pretendeu demonstrar que o pensamento e a consciência dos homens são dinâmicos e não estáticos e, portanto, possuem carácter evolutivo, no sentido da redimensionação das concepções humanas da vida e do mundo. Sendo assim, quer o pensamento, quer a consciência percorreram já três estádios de desenvolvimento progressivos, que passamos a citar:

            Tal como acontece com a criança, também a humanidade começou por olhar o mundo, por meio de uma leitura animista, atribuindo-se a si própria o poder infinito e a tudo quanto a rodeava uma alma idêntica à alma humana. A esta fase animista, por isso, continua a corresponder, desde sempre, o narcisismo, por força da crença em si mesmo, que o homem vai alimentando, para seu próprio gáudio, como se o poder dos homens fosse infinito e tal configuração das coisas fosse compatível com a realidade.

            Seguidamente, na fase religiosa, o poder infinito é cedido aos deuses... não totalmente, porque o homem não cessa nunca de julgar e influenciar os deuses, levando-os sempre a agir de acordo com os seus próprios desejos, vontades e expectativas, como se de uma identificação projectiva se tratasse. Em termos de correspondência, a fase religiosa equivale ao estádio da escolha objectal, isto é, à fixação da líbido aos pais. Enquanto a mãe, a partir do seu próprio corpo, outorga um corpo à criança, o alimenta e protege, o pai garante a construção do respectivo psiquismo. 


    Por último, surge a fase científica só tornada possível devido ao actual estado adulto (?!) da humanidade e consubstanciada pelo princípio da realidade e pelas exigências de um altruísmo actuante. No entanto, se a concepção científica do mundo é objectivação rigorosa, observação e constatação, como fica, então, o poder ilimitado do homem? A humanidade tem mesmo de reconhecer e aceitar a sua pequenez, insegurança, fragilidade e finitude, não sendo capaz, portanto, de se furtar à morte, pelo que, não é possível encarar a ciência, em termos definitivos, como algo infalível ou imutável, muito menos absolutamente exacto e objectivo.

ESTADO NOVO E RESISTÊNCIA - Capítulo VII - A Década de 19(40)


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         Conforme ficou já escrito, a religião católica foi aquela pela qual Salazar optou, não só para si próprio mas também para todo o Império. Nesta conformidade, e também segundo a Concordata, quem casasse pela Igreja fá-lo-ia uma só vez na vida, não podendo portanto divorciar-se.

            Nas colónias passa a vigorar o chamado “Acordo Missionário”, que passaria a regular as relações entre a Igreja e o Estado, ficando o ensino dos indígenas confinado aos missionários. É curioso que estes acordos são firmados, não obstante a negação da existência de uma religião oficial do Estado, expressa na letra da Constituição de 1933.

            Assinale-se também o seguinte facto marcante da política e estratégia Salazarista: em 1940, depois de ter gerido ao longo de doze anos a pasta das Finanças, deixou finalmente o cargo.

            Com o prosseguimento da Segunda Guerra Mundial, as dificuldades que se iam deparando ao regime, e principalmente às massas populares, agravavam-se de dia para dia, quer através da fome, cada vez mais generalizada, por força da escassez de víveres e mantimentos, quer ainda, e por consequência directa de tal estado de coisas, devido aos altíssimos preços que chegavam a atingir os bens de consumo alimentar no mercado negro, face à insignificância dos salários de miséria auferidos pelos portugueses que detinham emprego. A partir desta realidade, os trabalhadores enveredam por acções de luta, nomeadamente organizando marchas de fome, imediatamente reprimidas.

            A muitos dos opositores do regime, aguardava-os um destino cruel e distante, no campo de concentração do Tarrafal. Eles eram cada vez mais. No decurso do ano de 1941, o dirigente sindicalista Mário Castelhano e o operário do Arsenal da Marinha, de Lisboa, Bento Gonçalves, também secretário-geral do Partido Comunista Português, desde 1928, chegam ao fim dos seus dias no fatídico campo do Tarrafal.

            Enquanto a Segunda Grande Guerra Mundial vai prosseguindo a sua senda destruidora, Salazar, até 1944, aproveita para ir exportando volfrâmio para a Alemanha, para a máquina de guerra do ditador nazi.

            Nos anos de 1942, 1943, 1944 verificam-se novas greves que chegam a mobilizar milhares e milhares de operários da cintura industrial de Lisboa e do Ribatejo. Perante tal movimentação de trabalhadores, o Governo responde com as forças policiais, procedendo, uma vez mais, a um sem número de prisões e ao encerramento de algumas fábricas durante meses, atulhando as cadeias e as praças de touros de Lisboa e de Vila Franca de Xira. Finalmente, com a derrota de Hitler e do nazismo, o regime intitula-se de “democracia orgânica”, não deixando de decretar, no entanto, luto pela alegada morte do ditador.

            Recuemos ainda ao ano de 1943, para lembrar a criação do Movimento da Unidade Antifascista (MUNAF), liderado por esse político, de rara visão para a época, que foi o general Norton de Matos. Também ele tentaria avançar com uma revolta militar, logo após o termo da Guerra, mas tal intento nunca se viria a concretizar.

            Em seguida Salazar dissolve a “Assembleia Nacional”, marca eleições para deputados, dando assim hipóteses, após vinte anos, à Oposição de participar de forma legitimada e legal na vida política do país. Forma-se, então, o “MUD” ( Movimento de Unidade Democrática) que tem a adesão de milhares de democratas. Através de medidas de sabotagem ordenadas pelo ditador, as eleições acabam por se transformar numa lamentável farsa, sendo a oposição obrigada a desistir. Na sequência de tudo isto voltam a encher-se as prisões, a intensificar-se a censura, a organizar-se a “PIDE” segundo métodos nazis.

            Em 1946 forma-se o “MUD juvenil”. As reivindicações operárias aumentam levando o Governo a reagir através da intensificação da repressão. Na cidade do Porto estala uma revolta militar. Henrique Galvão apresenta um relatório sobre o problema colonial, denunciando a exploração do negro e a estagnação dos territórios africanos sob administração portuguesa… É preso.

            Em 1949 verifica-se a realização de eleições e o “MUD” propõe, pela Oposição, Norton de Matos, de resto profundo conhecedor de Angola onde introduzira inovações administrativas de monta. Devido a dificuldades impostas pelo regime, acaba por retirar a sua candidatura. Nesta conformidade, uma vez mais, Carmona é eleito Presidente da República.

            Portugal ingressa no conjunto dos países da “OTAN” e passa a permitir a instalação de bases estrangeiras no seu território. Com o fim do conflito mundial, o nosso país viria a beneficiar de uma indemnização de guerra no valor de 51,3 milhões de dólares.

            Anticonstitucionalmente, o regime promulga “medidas de segurança”, que se traduzem em prisão perpétua para certos opositores à política reinante.

domingo, 3 de julho de 2016

JUVENTUDE TRAÍDA



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         Dizer que a juventude de hoje será o futuro do Portugal de amanhã, não passa de um vulgar e tantas vezes repetido lugar comum. É assim mesmo, porque se trata de uma verdade impossível de desmentir, seja por quem for. Mas, porque é exactamente a partir desta realidade que as coisas deveriam funcionar, difícil se torna perceber as razões pelas quais tem sido a nossa juventude completamente desprezada, abandonada e, se quisermos, porque não dizê-lo, perseguida mesmo, numa linha que contextualiza a mais vil das traições perpetradas, por acção ou omissão, contra o sangue novo, que deve ser, contra ventos e marés, o mais precioso capital a investir, agora, visando acautelar a vida de todos e de cada um,  nas décadas mais próximas.


            Aquando da comemoração de mais um dos aniversários do elemento mais velho de uma família nossa conhecida, estiveram lá todos os filhos e netos. Estes, à volta de vinte almas, situam-se já, grosso modo, entre os quinze e os trinta e cinco anos de vida, o que, no caso vertente, significa que muitos deles se encontram a frequentar estudos universitários, havendo mesmo mais de metade com o curso já concluído.

            Um destes conta até com um mestrado conferido pela Universidade de Westminster, Londres, a que se seguiu um “IMT”, depois de ter frequentado, no Ensino Superior Privado, uma Licenciatura de cinco anos e ter conquistado os três diplomas com distinção. Na sequência do “IMT” recebeu até um galardão internacional, atribuído por um dos gigantes multinacionais da electrónica mundial.

            Para além do significado de tudo isto, covém reter que nada disto acontece sem o contributo de esforçados investimentos financeiros, isto é, a despesa incalculável que representa garantir, ainda que dentro dos limites de um certo equilíbrio, todos os pagamentos referentes a propinas, residência universitária, material didáctico, cama mesa e roupa lavada, num país onde a moeda (Libra) valia, nessa altura, mais 25% relativamente ao Euro.

            Todos estes indivíduos, como é óbvio, acalentam os seus sonhos, os seus projectos; manifestam as suas pertinentes ambições; falam das suas expectativas face ao futuro, ou não fossem, na prática, uma amostra viva e eloquente da juventude à qual nos referimos no escrito vertente.

            No entanto, do grupo dos que concluíram já os estudos, nenhum, praticamente, conseguiu ainda emprego: a Paulinha, advogada, tem andado a bater a todas as portas possíveis e imaginárias e nada; O Gonçalo, engenheiro, tem recorrido ao seu espírito prático e sujeita-se a servir cafés; a Ritinha, que venceu o mestrado em Ciências do Património, é recepcionista de uma clínica pediátrica; o Luís, regressado de Westminster, Londres, foi convidado para leccionar em determinada universidade do rectângulo – a mesma onde frequentara cinco anos de Licenciatura –, mas está furioso com o sistema fiscal, etc., etc., etc..

            Bom, eles que nem sonhem que temos estado a meter a foice em seara alheia, isto é, a falar das suas vidas, com nomes diversos, embora. O facto é que achamos este exemplo absolutamente flagrante e deveras ilustrativo daquilo que hoje pretendemos afirmar.

            Sendo assim, vamos arriscar adiantar alguns elementos mais sobre a nossa tese de hoje: o Luís está furioso com o sistema fiscal nacional, dissemos atrás e passamos a explicar agora. Vejamos: como é que acham que se pode sentir um jovem (agora com trinta e três anos de idade) que, depois de ter estudado ininterruptamente ao longo de toda a sua vida, com notas sempre elevadíssimas; depois de ter arrancado um mestrado com distinção em Westminster (seguido de “IMT”); depois de ter sido convidado, por mérito próprio, para leccionar no ensino universitário nacional, num estabelecimento de ensino de referência, recebe do fisco a informação/imposição de que terá de pagar 46% (quarenta e seis por cento) de impostos sobre o seu vencimento mensal?! Traduzindo isto para uma linguagem mais acessível e inteligível, poder-se-á dizer que o Luís só poderá contar com uma verba líquida, próxima daquela que  aufere o primo engenheiro, depois de um mês de cafés servidos.

            Depois de tanto trabalho, de tanta luta, de tanta empenho e entrega, que raio de oportunidades são estas?! E então em que é que se apoia, afinal, a mais recente propaganda dos últimos três executivos?! Para que estudam tanto os nossos jovens... aqueles que estudam! É que o que sobra, depois de deduzidos os impostos, paga a renda ou a prestação da casa e as restantes despesas inerentes à mesma. Se é que é suficiente?! E os transportes?! E vestir?! E comer?! E o lazer?! Se o dinheiro não chega para estas últimas necessidades inultrapassáveis, o que é que restará para que seja possível viver efectivamente?!!

            Sabem que mais?! O Luís já fala, desiludido e magoado com tudo isto, em debandar, de novo, para Londres. Nós dámos-lhe toda a razão.

            Nota 1: Uma vez concretizado o “Brexit”, perde acuidade a representação mental que terá, eventualmente, motivado, de uma forma ou de outra, os discursos, as moções e as políticas dos três últimos executivos (Sócrates, Passos e Costa), relativamente à emigração lusitana.

            Nota 2: O presente artigo foi escrito em Setembro de 2007 e revisto agora, em Junho de 2016. Nada mudou, afinal! Melhor dizendo: o Luís emigrou, há já cinco anos, para os Emirados!




ESTADO NOVO E RESISTÊNCIA - Capítulo VI - A Guerra Civil Espanhola


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      No âmbito do sangrento conflito que eclode em Espanha, entre a esquerda e a direita, cujo sentido conceptual (duma e doutra) cada vez se definia de forma mais exacta e precisa, Salazar não quis deixar de apoiar Franco na luta contra a Frente Popular, no país vizinho e, nesse sentido, faz seguir para o teatro de guerra uma força de legionários, a qual denominou de "Os Viriatos". A dureza dos combates haveria de provocar um elevado número de vítimas.

        Também em Portugal, A Guerra Civil Espanhola (1936-1939) acaba por determinar movimentações de oposição às intenções do Estado Novo, através da reunião de milhares de opositores do regime. A Organização Revolucionária da Armada (O.R.A.), fundada em 1935 por comunistas, por intermédio dos seus militantes, subleva-se em Lisboa, apoderando-se de dois navios de guerra depois de aprisionar os oficiais, visando apoiar, lado a lado, a luta dos republicanos espanhóis. Os navios são imediatamente bombardeados à saída do Tejo, sendo presos todos os revoltosos e deportados para o campo de concentração do Tarrafal, na ilha do Sal, no arquipélago de Cabo Verde, local para onde começam a ser enviados os primeiros presos políticos. Ultrapassava os 500 anos de prisão a soma das penas dos 30 marinheiros revoltosos.

            Entretanto, em Espanha, a Guerra Civil prossegue ao longo do ano de 1937. Enquanto os populares vão ajudando as tropas republicanas através da acção das recentemente formadas "Brigadas Internacionais", Mussolini, Salazar e Hitler apoiam Francisco Franco.

            No dia 4 de Julho desse ano, Salazar consegue escapar a um atentado à bomba. Esta deflagra por baixo do seu carro, quando se dirigia para "o santo sacrifício da missa", em pleno dia de Santa Isabel. O ditador, falando aos jornais, com raro sentido de oportunidade, refere o "milagre das rosas".

            Durante o ano de 1939, as tropas de Franco, depois de uma terrível luta fratricida, entram finalmente em Madrid, último reduto Republicano, vencem a Frente Popular e colocam ponto final à Guerra Civil Espanhola. Para a História dos homens ficam na memória apenas os números de mais uma catástrofe: 2 milhões de prisioneiros; 1 milhão de mortos; 500 mil exilados; 500 mil casas destruídas.

            Franco está agora em condições de se impor como chefe único, da mesma forma que impôs a “Falange” com partido único e a religião católica como a religião oficial de todo o Estado Espanhol.

            O bicho-homem não aprende nem sossega e, ainda no ano de 1939, estoura a Segunda Grande Guerra Mundial. Salazar "joga" com a habitual mestria face aos belicistas e vai sempre conseguindo pôr em prática a política da "neutralidade colaborante".

             Em 1940, a Santa Sé e Portugal reforçam as suas relações através da assinatura da Concordata e do Acordo Missionário. Pela Concordata, a Igreja Católica fica em posição de relevo relativamente às restantes religiões minoritárias, embora o Governo pudesse ratificar os nomes dos eclesiásticos que iriam ocupar os bispados do país.  (Continua)