domingo, 4 de agosto de 2013

INDELÉVEL

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Mesmo que nada digas    ouvir-te-ei
ainda que não compareças    sentir-te-ei
mesmo que te recuses    beber-te-ei
ainda que te afastes    ver-te-ei
mesmo que te dissipes    respirar-te-ei

M.B.S.  - 1998 - in "O Rumo e o Sonho", 
                         Fólio Edições - 2001

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

A INTROJECÇÃO


      É já impressionante o rol de queixas que os cidadãos portugueses vão tendo dos governantes, dos partidos, e das instituições criadas por uns e por outros, por se permitirem agir, nem sempre através de processos suficientemente transparentes. Quando se trata de auditar todos eles, raras são as vezes em que não vêm a lume um ou outro quid pro quo resultante de erros de avaliação (por omissão ou distorção) das múltiplas situações em presença (a imperfeição é a essência do ser humano), a exigir, portanto, a preocupação de comportamentos e protagonismos eivados de bom senso e pragmatismo actuante.
       
     Mas o mesmo se passa no âmbito da União Europeia (zona Euro ou a 28), depois do eixo franco-alemão ter chegado à conclusão que a bacia carbonífera do Rühr, deixaria de ser pomo de discórdia (tinha motivado as 1.ª e 2.ª Grandes Guerras Mundiais), para, em 1950, passar a ser ponto de partida de interesses comuns – mudam-se os tempos... Assim, tanto a França como a Alemanha, passaram a gerir em conjunto o mercado do carvão e do aço através de uma Alta Autoridade. Foi desta maneira que, um ano depois, surgiu a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (CECA), que vigoraria a partir de 1952, instituída pelo Tratado de Paris. 
      
      E por aí fora, invocando sempre acordos e implementando tratados que, a pretexto do bem da união, mais não fazem do que ir debilitando, paulatinamente, os países do Sul da Europa em proveito de interesses hegemónicos de domínio inconcebível. Logo, mais lamúrias, decepções, choro e ranger de dentes.
      
      E podia falar ainda de outros países, por esse mundo fora, mas vou apenas tocar ao de leve a tese que hoje me traz aqui e concluir rapidamente sobre as disfunções comportamentais dos cidadãos nacionais.
      
    Face à complexidade factual mal percepcionada de um quotidiano redutor, anacrónico e demencial, uma vez que vai sendo urdido pela incompetente mediocridade dos “heróis” nacionais ungidos pelo voto popular, o povo, incrédulo, mas sempre reincidente, já só sabe chorar as suas mágoas, convencido de que a responsabilidade é só dos outros, numa demonstração aflitiva de sintomas neuróticos introjectados, tal como nos descreve Sandor Ferenczi (contemporâneo e amigo de Freud), quando adianta que a histeria colectiva força a líbido a desinvestir o objecto, por desprazer, numa transferência incompleta tendente a diluir responsabilidades nos outros, enfim.


     
     No entanto, como todos fazemos exactamento o mesmo, levados por um atavismo arreigado de larguíssimas dezenas de anos... centenas, se dermos ouvidos a Roberto de Mattei, quando este refere os tratados de Westfalia de 1648, enquanto vírus que irá minar a coesão Europeia por rejeição a qualquer referência transcendente. Bom, de volta a Portugal, recordo o nosso filósofo José Gil: “o queixume delirante constitui também um modo de justificar todo o pragmatismo de sobrevivência, o não-cumprimento da lei, a irresponsabilidade, o “desenrasque” , a esperteza na acção” – saloia, tal como fazem os governos, onde se vão encontrando, cada vez mais, autênticos sucedâneos do chico-espertismo, valorizado desde há muito pelo povo que somos.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

A SEDUTORA OUSADIA DA LEITURA


      
Os mais recentes executivos (última meia dúzia de anos) têm deixado transparecer a ideia de que se encontram empenhados na implementação de políticas que incrementem a sensibilização actuante das pessoas, no sentido do desenvolvimento de práticas efectivas de leitura, a começar pelos mais novos, ao nível dos primeiros anos de escolaridade. É de louvar.

       Um dos programas que se encontra em marcha (lenta) é o designado Plano Nacional de Leitura que, como não podia deixar de ser, na linha da musculada politização do sistema educativo, tem sido orientado de acordo com um feroz e inapelável centralismo burocrático, que a ninguém tem permitido um mínimo de discernimento intelectual, na busca de caminhos e soluções que possam visar objectivos claros e atinentes.

    Embora as coisas tenham enveredado pelo caminho da redutibilidade, que deixa qualquer ser pensante magoado e perplexo, ainda para mais porque dois anos após a sua génese não nos tinha chegado ainda às mãos nenhum dos livros requisitados, teimámos em usar o cérebro, para discernir um pouco sobre a temática vigente, tendo em conta também os repetidos estudos que têm sido feitos sobre Portugal, no campo da (i)literacia, do analfabetismo, do tipo de livros vendidos, do abandono e do insucesso escolares, entre outros. A este respeito, ficamos sempre escalonados nos piores lugares, comparativamente com outros países, onde assuntos desta importância têm sido sempre devidamente acautelados.

     Evidentemente que nada disto acontece por acaso e, ou se começa a remar no sentido das marés, aproveitando o capital intelectual e humano, principalmente dos docentes deste país, já que cada vez mais vão engrossando os sectores populacionais de gente em ruptura iminente, ou então não será nunca possível fazer face à lastimável e, de certo modo, condicionada negligência da generalidade dos portugueses para tudo o que implique algum esforço físico e/ou intelectual.

   É vergonhoso que tal estado de coisas prevaleça. Não podemos manter indefinidamente tais níveis de atraso estrutural, civilizacional e até, aparentemente, mental, em relação aos demais países europeus. É assim que eles nos olham.

     Esta breve introdução surge na sequência de tudo quanto no nosso país se tem verificado relativamente à matéria hoje em apreço. No trabalho que ora preparámos para os presentes, tentaremos realçar a necessidade imperiosa de se encarar a leitura como algo manifestamente importante, fulcral mesmo. Ler deverá passar a fazer parte dos hábitos diários de todos nós. Quem lê, para além de demonstrar curiosidade intelectual, abre a mente a novas ideias e conceitos, satisfazendo de forma saudável e marcadamente abrangente o seu desejo natural de saber mais, na longa e estruturante caminhada que redimensiona e enriquece a sua inteligência.

      É claro que tudo deve ser cultivado na pessoa desde o berço e, ler, como é óbvio, não foge à regra. Aos bebés devem ser facultados, desde a mais tenra idade, livros adequados à fase etária em que os mesmos se encontram: livros coloridos, com texturas úteis ao tacto das crianças, naturalmente inócuos, para que elas os possam manusear, observar, cheirar, abocanhar. É este o princípio, por muito que possamos ficar surpreendidos.

    Aos pais, às amas, aos educadores e aos professores deve ser exigida a tarefa gratificante de dedicarem às crianças toda a atenção possível, sem esquecer a importância da leitura, no âmbito da educação dessas mesmas crianças. Fundamental mesmo é perceber, por parte dos pais, encarregados de educação, educadores, professores e população em geral, o interesse em serem criados contextos, enquadramentos vivenciais domiciliários e escolares, nos quais as crianças possam usufruir da sã aprendizagem da vida com sentido. É este o cerne da questão: as gerações de hoje precisam, já hoje, de preparar o futuro, sentindo que a vida vale a pena ser vivida, pelo que compete aos adultos responsáveis, a inculcação de valores imbuídos de forte significado estruturante, edificante, de elevação e eleição.

      A resposta a esta questão de fundo encontra-se na leitura e nos seus efeitos, ao qual se alia o extraordinário prazer que dela retiramos, grandes e pequenos. Uns e outros, só através da leitura conseguirão dar asas à imaginação, sem espartilhos nem grilhetas, diferentemente, de pessoa para pessoa. Numa sala de cinema ou junto de um aparelho de televisão, pelo contrário, as pessoas vêem e seguem apenas as imagens que lhes são dadas observar e nada mais, de forma directa e monolítica. E este é só um exemplo.

      De pequenino se torce o pepino, isto é, os hábitos mais saudáveis, como é o caso da leitura; por isso mesmo devem ser cultivados desde a mais tenra idade, em toda e qualquer pessoa.

     E porque de crianças se trata, no caso particular da leitura, torna-se imprescindível adiantar desde já a excelência nunca ultrapassada dos contos tradicionais, das histórias infantis, importando, sobretudo, tanto quanto o “statu quo” institucional nos permite, fazer um esforço tendente a atenuar a ainda deveras perceptível bipolarização posicional, ao nível das salas (mal) adaptadas a jardins de infância que, portanto, coloca as crianças e os educadores, em posição antagónica, ainda que de forma perfeitamente alheia às vontades, quer de uns, quer de outros.

     Esta observação colhe, pensamos nós, na medida em que não é possível urdir, em contexto de sala de aula, a melhor e mais proveitosa teia da motivação infantil, de forma atabalhoada ou de improviso, visando retirar efeitos cabais do maravilhoso, quando pretendemos alimentar uma espécie de manutenção interactiva do mesmo face ao imaginário infantil. Tiremos partido então, na medida do possível, da sempre actual receptividade das crianças aos contos de fadas.

    Tanto os contos de fadas como os contos tradicionais, veiculados pelo educador, em ambiente propício, preferencialmente contados (não lidos), com os gestos, a entoação e a mímica adequados, contribuem para acicatar a imaginação, alterar as mentalidades, promover a criatividade e, acima de tudo, transportam as crianças para esse mundo maravilhoso, para lá da mais elementar lógica racionalista, que condiciona e traumatiza os seres infantis, a braços com o doloroso processo de maturação.

     As crianças têm necessidade absoluta de viajar constantemente pelo mundo fantástico das bruxas, das fadas, dos príncipes encantados, dos duendes, dos gigantes, no sentido de melhor estruturarem o caos interior das terríveis emoções contraditórias que lhes perturbam o espírito. Mais ainda: a quantas das nossas crianças foi já frustrada a oportunidade ímpar de acreditar no Menino Jesus ou no Pai Natal? Deixem que o formidável brilho das estrelas do seu imaginário continue a incidir sobre elas, através da inocência do Capuchinho Vermelho, da fantástica paixão da Bela pelo Monstro (aqui se plasma a descoberta da sexualidade), da extraordinária lição de moral veiculada pelos Três Porquinhos (o bom senso e a ponderação, como opção de vida), etc.. Facultem-lhes a formidável envolvência da mágica abóbada de um convívio sem barreiras nem interdições, para que elas possam educar o gosto, apurar a sua sensibilidade, preencher o seu espírito de liberdade e aventura.

     Hoje, reduzida que ficou a família alargada de há décadas, sem os avós (que até vivem mais anos, dizem – estarão todos em lares?!) para contar as fantásticas histórias da tradição popular, as lenga-lengas, as trava-línguas, as charadas e adivinhas, cabe aos educadores e professores esse desempenho insubstituível, na senda da inculcação de um conjunto de valores de eleição, como há pouco referimos, em nome do redimensionamento humano, pessoal e social, contra as mais absurdas e deploráveis formas de alienação consumista.

   Por último, deixamos à reflexão dos presentes a questão colocada por Kant: quem somos? De onde vimos? Para onde vamos? O presente prepara o futuro ainda e sempre na inevitável inexorabilidade do devir, mas, se não retivermos a memória do passado, não poderemos nunca garantir a nossa própria origem. A geração actual não possui memória, ou corre esse risco, logo não consegue estender as raízes que não detém; pode, pois, estar condenada a não ter futuro.

  Cabe ao Jardim-de-infância e à Escola (do 1. º Ciclo do Ensino Básico, fundamentalmente), preencher este vazio, na tentativa de resolução dos inúmeros problemas de ordem existencial que assolam as crianças e as suas personalidades em construção, conferindo-lhes estabilidade emocional e equilíbrio afectivo, acautelando uma maturação o mais possível desprovida de traumas.

     Nos contos tradicionais a criança liga-se ao herói e vai percebendo que o bem deve vencer, deve sobrepor-se ao mal, àquilo que está errado. Para isso, o herói passa por imensas peripécias e dificuldades; tal como na vida, tudo deve ser ultrapassado sem dramas nem recuos, viajando pela mesma, numa caminhada entre o possível e o desejável.

     Nesta conformidade, aprendamos a conjugar o verbo contar, no tempo e no modo da exequibilidade, múltipla e variada, da ponte que pretendemos lançar entre o maravilhosos e o imaginário das crianças, alimentando em todas elas o natural, legítimo e imprescindível direito ao subtil, doce e mágico embalo do sonho, investindo no riquíssimo capital da sua imensa sede de atenção, amor, conhecimento e descoberta, visando uma sociedade mais justa, equilibrada e desenvolvida. Pois bem! Depois de percorridos estes passos e consubstanciada a consolidação dos seus efeitos práticos, ler tornar-se-á tão natural e profícuo como beber um copo de água.

NOTAS: o FANTÁSTICO ocorre quando o seu realismo suscita a dúvida que a lógica não consegue explicar; a narrativa de carácter sobrenatural cria o efeito fantástico sempre que hesitamos entre causas naturais e sobrenaturais;

já o MARAVILHOSO nunca converge no sentido do real nem do seu contrário, sendo mesmo encarado naturalmente, como acontece na cultura judaico-cristã.

Em 23 de Junho de 2012
Manuel Bragança dos Santos

terça-feira, 30 de julho de 2013

STORM

A dark cloudy dream
Through my head fell,
Waking me up too soon
Shaking me like a bell!

Yet a light breeze came,
To cast me a spell
Putting me asleep again
I returned to that hell...

So clouds gone bigger
And with it came the rain
Something I figured
Was lost by the drain!

Now the clouds disappeared
And I can see a rainbow of light
Whose colours give me power
To wake up with might...!

Ricardo Santos, in "The Edge of Eternity: 3 years and a fallen angel" - 2002

sexta-feira, 26 de julho de 2013

A PROPÓSITO DOS AVÓS

     Os avós são os homens e as mulheres, pais e mães dos nossos progenitores. Sem me alongar muito e procedendo a uma análise diversa da habitual, sem deixar, no entanto, de apelar ao respeito e consideração que nos merecem os velhos, neste dia dos avós, direi que: o género masculino, muito mais trôpego e dependente, menos autónomo e frágil, apresenta, objectivamente, uma esperança de vida inferior à das mulheres, muito mais “gaiteiras” e mexidas, sempre entretidas com isto e aquilo (lavores, leitura, participação voluntária em iniciativas ligadas a projectos solidários, de preparação de festas, de exposições e de viagens, de passeios aqui e acolá). 
       Quantificando, podemos dizer existir uma diferença, em termos de esperança de vida entre homens e mulheres, de uns dez a quinze anos (?!), a favor do, ironicamente designado pela sociedade dos homens, sexo fraco. Elas estão para lavar e durar, chegando a atingir os oitenta, noventa e, por vezes, mais anos de idade, enquanto que, em contrapartida, os homens se ficam pelos sessenta, setenta e tal. 
      Evidentemente que há excepções que só vêm confirmar a regra. Por outro lado, conforme me adiantaram, sempre que um homem, num lar, adoece, rapidamente se degrada o seu estado de saúde e morre. Quando o estado de saúde das mulheres corre riscos, pelo contrário, reagem muito bem à medicação e aos tratamentos, e podem resistir anos a fio e até ultrapassar os problemas. 
      Vi com os meus próprios olhos, num quarto amplo de três camas, três senhoras, já na casa dos noventa, a soro, e que já estão assim há cerca de dez anos: fiquei estupefacto com tamanha capacidade de resistência.
      
       NOTA: Extracto de um artigo sobre a fragilidade masculina na idade sénior.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

WHAT COMMUNICATION IS...

         "(...) Nowadays, every communication sistems leads, probably, on an universal global way, in order to define the deepest wishes of Mankind, seeking a certain ubiquity and omniwisdom, at least, untouchable. This kind of distinguish marks of the human being are such an important part of its idiossincracy, that take the man, not only as a social being, as well as an ambitious, territorial and agressive, but also capable of sympathy and althruistic love, to use the tecnology, always upgrading perfection (mainly after the advent of cibernetics), to communicate with others, in search of social cohesion and citizenty, on a democratic context. (...)"

Inês Santos, in her graduate project "Digital Platforms - New Era Interviews

MISSÃO E SACERDÓCIO...

        Por missão, entende-se algo ligado a uma incumbência ou encargo, de duração variável, de maior ou menor importância ou responsabilidade, em sentido lato, claro. Cada indivíduo, no seu desempenho profissional, cumpre, necessariamente, todo um conjunto de missões diversificadas, particulares, que visam, no fundo, a satisfação cabal da tarefa geral, que lhe incumbe realizar.

     Por sacerdócio, e para que não restem dúvidas, entendem-se, estritamente, as funções atribuídas aos sacerdotes, como o exercício do poder espiritual, no quadro de uma qualquer prática religiosa, em local próprio, que não (n)a escola. Tal tarefa, como é sabido, tem estado apenas a cargo de homens que fizeram previamente voto de castidade, de celibato (condição imposta pelo Concílio de Trento - 1545), ordenados pela IGREJA...