sexta-feira, 17 de maio de 2019

SE DE VOAR PUDESSE...


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Se de voar pudesse ser contigo
tão perto dos inventados instantes
não seria ninguém em quanto digo
desdizendo das sortes mais distantes

Às voltas sem regresso nem abrigo
vais soltando os cabelos como dantes
como se fossem searas de trigo
vergadas ao desejo dos amantes

Será que já levaste de vencida
sem contar os segredos mais vazios
os ganhos e perdas de quem olvida

as imagens das velas sem pavios
ou preferes fingir que só na vida
é melhor divagar sem desvarios


quinta-feira, 16 de maio de 2019

O ANÚNCIO



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Juvenal Garatuja
Coimbra Sul
Telefone: 0000000

Ao Jornal de Notícias
Rua de Santo Ildefonso (?!)
PORTO

Assunto: Anúncio de 31/01/1970, com carta ao JN ao n.º 000


Ex.mª Menina

Em resposta ao anúncio em epígrafe, começo por lhe dar parte dos seguintes dados:

-- Nasci na década de 50 do século XX;
-- Vivo com a família;
-- Sou universitário, com cultura, provavelmente, acima da média;
-- Sou dotado de personalidade forte e salomónica;
-- Gozo de uma vida estável, "autónoma" e "independente";
-- Pratico desporto assiduamente;
-- Leio, estudo e escrevo diariamente;
-- Adoro o mar em particular e a natureza em geral;
-- Não enfermo de qualquer tipo de vícios;
-- Sou profundamente romântico;
-- Ajo com natural pragmatismo;
-- Pretendo um namoro prévio para mútuo conhecimento, com vista a um relacionamento sério e saudável.

Nota 1: Junto foto (Verão 1969), para melhor documentar a presente resposta.
Nota 2: Caso decida ligar-me, sugiro que o faça entre as 18 e as 19 horas; já estou em casa e o meu pai ainda não.

De momento, é tudo. Fico na expectativa da decisão que possa vir a tomar.
Os meus respeitosos cumprimentos,


_______________

Juvenal Garatuja

terça-feira, 14 de maio de 2019

A AGRESSIVIDADE ANIQUILA


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   Os afectos de aversão (Adler) traduzem-se, em termos dinâmicos (motores), na agressividade, na agressão, na perseguição, assumindo o rosto da ira, da cólera e da hostilidade. Os afectos dependem da carga energética ligada à representação, para o bem ou para o mal, segundo Freud, e são úteis para a sobrevivência do Homem, dentro de determinados parâmetros. Como se compreende, quando comparada à mulher, a constituição física do homem (regra geral) potencia, no âmbito da agressividade, maiores estragos, quer em termos dinâmicos, quer económicos.

   Essa consciência afectiva (sentimento emocional), que Freud designou de “quantum de afecto” (energia pulsional) que investe as representações é: qualitativa, de acordo com a oposição dinâmica de forças) e quantitativa (intensidade energética – economia). “Cultura e suas Desvantagens” (1930) é a obra onde este mestre qualifica a agressividade como “um impulso nato e autónomo do homem”. Assim, em sociedade ou na família, quanto mais fraco é o próximo, maior é a tentação de o agredir e perseguir (bullying, violência no namoro ou doméstica, abuso de poder, assédio moral e prepotência laboral), dizemos nós. Mas há mais:

  Como se trata de um sentimento primitivo (irracional/reptílico) de inimizade e confrontação, torna-se tanto mais destrutivo e aniquilador, quanto mais avança o progresso técnico e cultural, uma vez que este é uma faca de dois gumes, capaz de reactivar (redimensionar/ampliar) a idiossincrasia do homem e de o dotar, também, de instrumentos auxiliares de destruição maciça e massiva, ameaçando, permanentemente, de ruína, a família, a sociedade e a sua única casa planetária (Konrad Lorenz, 1903-1989).

   Freud defendia ainda que, perante tamanha carga emocional, o superego remete-a para o ego onde se despoleta a agressividade e a autodestruição, isto é, a neurose e a psicose. É assim, ainda hoje, com as personalidades psicopáticas, nas crises hipomaníacas e na demência aterosclerótica; nas depressões e na esquizofrenia, com excepção das violentas birras típicas das crianças de dois anos.

NOTA 1: Os cientistas actuais apontam o mesencéfalo do homem, na zona média cerebral, com diencéfalo (tálamo e hipotálamo) – cérebro reptílico, regulador das funções vitais básicas, como nos répteis –; e córtex cingulado no topo envolvente – sistema límbico, onde se alocam os sentimentos ou afectos primários dos primeiros mamíferos.

NOTA 2: “Recentemente” constituiu-se o neo-córtex – sede das funções cognitivo-afectivas superiores complexas, capazes de pensamento e linguagem e de diferenciar emoções. Contudo, o cérebro reptílico continua actuante.

NOTA 3: Bibliografia revisitada:

Damásio, A. (2013). O Sentimento de Si – Corpo, Emoção E Consciência. Temas e Debates. Círculo de Leitores. Lisboa.
Goleman, D. (2006). Inteligência Emocional. Revista Sábado. Espanha.
Hell D. (2009). Depressão – Que sentido faz? Sete Caminhos. Lisboa.
Mlodinow L. (2014). Subliminar – Como o Inconsciente Controla o Nosso Comportamento. Marcador Editora. Lisboa
Sempé, Jean-Caude et al (1969). A Psicanálise. Edições 70. Lisboa
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sexta-feira, 10 de maio de 2019

DÉJÀ-VU?!... NEM SEMPRE


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   Há muito quem confunda o conceito de Déjà-vu com a renovada constatação actual de vivências já experienciadas no passado. O senso-comum generalizado, e a falta de formação e critério de que enfermam certas criaturas dos mass-media, têm atraiçoado o seu devido papel pedagógico-didáctico. Assim, ao invés de se apoiarem na informação correcta e ponderada, têm seguido pelos ínvios caminhos da já habitual, mas impertinente, ignorância e ingenuidade.

   O conceito de Déjà-vu refere-se apenas à complexa ilusão do já visto, sem que nada, de facto, tenha ocorrido no passado. Friedrish Doucet (séc. XX) refere tratar-se de recordações estranhas, no âmbito de uma fantasia inconsciente, de um estado onírico ou de um sonhar acordado, enquadrando pessoas, objectos e situações, afinal, inexistentes. Não, não são alucinações (percepções sem objecto), para as quais colaboram, neste caso, os sentidos.

   Outros autores falam em perturbações de memória (paramnésias); pressentimentos compulsivos e ilusórios de que algo, hoje, se repete – como no passado – e, claro, nos diz respeito, conseguindo accionar uma certa ansiedade, face à perplexidade que a sua novidade e surpresa causam.

   Clarificando um pouco a ideia de paramnésia, dá-se conta de que os entendidos apontam para uma desordem mnésica, onde a memória se apresenta desvirtuada, lacunar, confabulada, tecida ao sabor da compensação ilusória das frustrações pessoais dos afectados.

   Por último, importa aludir à ansiedade fóbica associada à perda da consciência identitária e circunstancial, pois estas são susceptíveis de indução de experiências de Déjà-vu, bem como as manifestações esquizofrénicas, tendencialmente passíveis de criar desorientação, ideias ilusórias (temporalidade desenquadrada) e sentido premonitório.

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https://www.youtube.com/watch?v=YCs6Tpd5sFQ



terça-feira, 7 de maio de 2019

A ANÁLISE TRANSACCIONAL

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   Falar de análise transaccional (não confundir com transicional – Winnicott) é recordar o psiquiatra canadiano Eric Berne (1910-1970), e a crença por si defendida de que o comportamento humano se tornaria mais claro e perceptível, ao invés da visão psicodinâmica de Freud. Berne, no âmbito da sua teoria da personalidade e da psicoterapia a ela inerente, considera, para tal, os três estádios presentes em cada ego: pai, adulto e criança. Estes, funcionariam como dados de um jogo simples de trocas sociais e familiares – The Games People Play, livro escrito em 1964.

    Berne via o sujeito como uma espécie de autómato, dotado de um inconsciente pouco significativo, reagindo no imediato, de forma previsível, sem problemas de maior. Assim, enquanto terapeuta, estabeleceu com os enfermos uma relação transaccional, acordada, conveniente e conivente, onde era possível reactivar a criança no adulto, pela força das palavras, eliminando os estádios ego conscientes.

  A indução deste pretenso autoconhecimento invocado resultaria pouco, provavelmente, por ser efémero e superficial, embora, alegadamente, procurasse perceber, em contexto de clínica contemporânea, a toxicidade das formas de pensar, os comportamentos intersubjectivos relacionais dos sujeitos, as suas concomitantes frustrações interaccionais, às quais se comprometia dar a resposta intuitiva cabal, seleccionando os conteúdos mentais saudáveis, adquiridos ao longo do tempo, pelo vivido emocional de cada um.

    Curiosamente, Bernie repete-se e repete Freud, Klein, Bion e Lacan, para não referir outros, quando preenche a personalidade do sujeito a partir de conteúdos já burilados por aqueles mestres. Vejamos: “O estado de ego pai”, “o estado de ego adulto” e “o estado de ego criança” não são mais do que o grande Outro de Lacan, a norma, a ordem, o sujeito obstruído de desejo; o superego, a representação dos interditos, a consciência moral de Freud; por último, recordem-se os ensinamentos de Klein e Bion – a identificação projectiva (negativa ou positiva), o apaziguamento interior, a interacção continente (mãe) - conteúdo (bebé) de Bion, a relação dinâmica entre as posições esquizo-paranóide e depressiva (Klein), visando o crescimento e a mudança.

Nota 1: Respira-se aqui, também, algo (para pior) de Jacob Levy Moreno (1889-1974) e das suas condutas terapêuticas de inserção.

Nota 2: De Khalil Gebran (1883-1931), lemos (2007) que “a base clara da Análise Transaccional - enquanto psicoterapia - é escassa e de baixa qualidade."



segunda-feira, 6 de maio de 2019

SUJEITO E OBJECTO



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Amar é para quem pode dispor 
de tantas e distendidas canseiras
aferidas exactas sem asneiras
finuras selectivas sem rubor

Nos poemas surgidos com ardor
arrefecem lirismos sobre as eiras
nos campos nas adegas nas esteiras
das ruínas que jazem sem fulgor

 Ser a coisa de tudo perceber
 de não saber ficar só por partir
 é só t(r)ocar o tempo já sem ver

 ser bem melhor pensar em assumir
 a sentida sombra por desprazer
 no lugar que nos tolhe de sorrir 

quinta-feira, 2 de maio de 2019

FADAS?!


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Por que são no seu leito de manhã
as palavras despidas de vontade
se não ousam quedar-se em terra chã
num vaivém desgarrado e sem idade

Se dispersa recuas tola e vã
regressas pelo menos à verdade
ausente na camisola de lã
mas refém dessa tua hostilidade

Contudo não me venhas com miragens
nem apagues o fogo das latadas
abertas e fechadas nas passagens

dos caminhos t(r)ocados pelas fadas
disfarçando mil brilhos e ramagens
se são elas que dormem acordadas