domingo, 21 de junho de 2020

ESTAÇÃO COVID-19


             
                                             

             Num momento tão sensível e ambíguo como o actual (1.ª metade de 2020), em que um vírus invisível (novo Corona-Vírus) ameaça a sobrevivência da espécie humana, a nível planetário, não pode haver lugar ao desdobramento das subjectividades tão típicas da diversidade conceptual cultivada pelos indivíduos ou grupos; às suas idealizações narcisistas, egocêntricas ou auto-eróticas; às interpretações divergentes; ao individualismo; às acções isoladas; ao erguer patético de uma Babel dessignificada.

            O novo Corona-Vírus não é um ser vivo, mas se lhe for facilitado um ambiente propício, leia-se as vias respiratórias dos seres humanos, aquele poderá potenciar uma forma de vida rudimentar, parasitária, algo no limiar da molécula e da vida, mantendo-se incapaz, contudo, de pertencer a qualquer estrutura biológica, pois não transformará nunca a energia autonomamente, ceifando, portanto, as vidas dos incautos hospedeiros.

            Nesta conformidade, se o valor da vida humana não for tido em conta como o primeiro e o mais importante, então, toda a saga civilizacional, ainda que considerando todas as suas oscilações mais ou menos demenciais, terá chegado ao seu ponto de oclusão. No âmbito realista da interpretação do mundo, tal como ele se nos apresenta, devemos tentar compreender, aceitar, apoiar e validar o esforço hercúleo da ciência médica e social, no sentido da tentativa de percepção, interiorização, harmonização, correcção e inversão deste surpreendente ataque à manutenção da vida.

            Sob o ponto de vista da investigação teórica e da sua consequente metodologia programática e pragmática, o paradigma deve assentar na arquitectura da racionalidade científica, através da convalidação do empirismo evolutivo (método científico), isto é, sempre ancorado em resultados práticos verificáveis. Estes, contudo, devem afirmar-se por meio de modelos analíticos qualitativa e quantitativamente aceites, capazes de satisfazer os valores da vida social saudável e as necessidades legítimas do colectivo.

           Neste quadro, têm de ficar fora de questão os conflitos sociais, a subjectividade particular ou grupal, a ambição, a ganância e as tensões de poder, para que seja possível a ordem, a uniformização dos valores fundamentais (universais) e a reposição das condições de manutenção da vida. Sendo assim, o foco é apenas um, precisamente porque tanto serve ao indivíduo em particular como à sociedade em geral.

            Como escreveu Emmanuel Lévinas (1980), estamos primordialmente vinculados ao outro, mesmo que essa experiência tenha ocorrido para uma consciência pré-reflexiva. O vínculo ao outro é estrutural e estruturante para o sujeito; matar o outro é cometer suicídio. Continua, afinal, a estar tudo nas mãos do Homem!


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sexta-feira, 13 de março de 2020

TU NÃO SABES QUEM SOU




                   Tu não sabes quem sou nessa tal hora
                    nem quem és sabes ser devastação
                    se vir a ser soubesses só por ora
                    não serias de mim por pro-cisão

                    Quem sabe se na vida se deplora
                    a queda na difusa prolação
                    ou se se teme ser pela demora
                    outorgando verdades que não são

                    Estranha diversidade de ser
                    o Outro que também nos constitui
                    no pasmo que refuto por saber

                    projectar a recusa que reflui
                    na sombra especular de suster
                    o pouco mais ou menos que se intui

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domingo, 8 de março de 2020

UM ESBOÇO DE PAIXÕES


    (...) o seminarista Maurício, de novo em férias, dirigiu-se à Fonte e Lavadouro do Olho D´Água, para abraçar a mãe e a madrinha Juliana e a prima Rosália, e cumprimentar, timidamente, as restantes mulheres, naquele espaço mágico onde a água brota da Terra para vivificar as almas e os corpos, e as raparigas se orgulham das suas bilhas redondas, virtualmente capazes de matar a sede ao mais sequioso desejo (...)
    (...) -- Hoje precisas de descansar
    hoje sim, mas para o dia seguinte, Maurício ficava já convidado pela madrinha para almoçar em casa desta, no Lugar do Caneiro, onde não havia lugar a rejeições, nem a distanciamentos, nem a defesas egóicas, porque o espaço era aquecido pela consistência dos suportes identitários, que se estribam nos afectos estruturados pelos objectos reganhados, que atenuam a fragmentação do Self e acautelam a deterioração da ferida narcísica
    -- Vamos almoçar no alpendre
    com o Sol a aquecer os corações, a mesa foi posta debaixo daquela cobertura típica, e esperou-se pela chegada do tio Duarte, e foi aliviado o mecanismo projectivo mais arcaico dos presentes, porque os egos dos comensais dispensavam agora defesas, tendo sido tacitamente aceite a reciprocidade das identidades similares e fraternas, o que fazia erguer uma barreira indestrutível entre o Self e o não-Self dos componentes desta família ideal
    -- Vai fritar os jaquinzinhos* Zalinha
    e era tudo o que faltava fazer, para que fossem servidos bem frescos e estaladiços, e as férias assim tinham outro gosto e a prima Rosália estava no ponto da sensualidade, cujo apelo erótico impregnava, com o seu impacto vital, visual, viral, demolidor, o coração dos jovens da Planura, na procura do desejo que (cor)responda ao seu desejo, no âmbito da relação com o outro e não porque as necessidades, meramente instintivas, devam ser satisfeitas, na incrustação do real puro e duro
    -- Esta-se tão bem aqui
    os objectos internos encontravam-se perfeitamente apaziguados e os externos contribuíam para o equilíbrio desta intermitência no contexto de maior perigo potencial na vida do seminarista, não sendo necessárias projecções compensadoras de recalcamentos frustrados, e o Self podia respirar tranquilidade e assunção plena, libertando o sujeito
    -- Já viste como a tua prima está linda?
    -- Sim está bonita
    Maurício parecia não reagir à veemência fetichista das formas proeminentes, apelativas, magnéticas de Rosália, à materialidade do seu corpo, a esse apelo ensurdecedor e enigmático da Natureza, à convergência genital, através da pulsão do desejo vivo e hesitante, (...)

Nota: * jaquinzinhos – carapauzinhos minúsculos

In “NÃO SEI SE DE MIM SABEREI ALGO”, 2020 – Romance de Manuel Bragança dos Santos (pág. 99).

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segunda-feira, 2 de março de 2020

ANSIEDADE E DESCRENÇA


     A propósito de um conteúdo fílmico de 2017, apresentado ontem (01 de Março de 2020), em horário tardio, pelo canal televisivo que a população do rectângulo financia coercivamente, diremos apenas que desligámos o receptor, não só profundamente decepcionados, mas também incontornavelmente incomodados. Perante algo tão sórdido, não conseguimos perceber de que serviço público fala o tal canal.

     O título da projecção aludia a “O Fim da Inocência” e apresentava um grupo de adolescentes, pertencente à classe abastada, em contexto do mais completo desnorte, vítimas do império dos sentidos, no âmbito da já estafada e degenerada triologia – sexo, drogas e rock`n`roll, tornada moda pela decadente sociedade do espectáculo, e, modernamente, a funcionar pela acção tenebrosa da omnipresente globalização.

     A globalização, ao contrário do que se possa pensar, significa isolamento multitudinário, porque anula a subjectitividade relacional de cada um; a globalização, por ser omnipresente, destrói também o tempo de estruturação e maturação dos corpos e das almas; a globalização, por se apresentar como a mensageira do pensamento único, impede a reflexibilidade e a consciência moral dos indivíduos, agora formatados pelo panegírico do colectivo.

     Cada vez mais, face ao descalabro social, político e económico do Ocidente, o fim da inocência voltou, porque não se aprendeu nada com os miseráveis factos ocorridos ao longo da Segunda Guerra Mundial; porque os governos escamoteiam deliberadamente o papel da Educação; o papel da família; a necessidade do Homem se transcender, já que não é um simples bicho que se rege tão-só pelos instintos.

     Vergadas sob o peso da ansiedade, as crianças são separadas prematuramente das mães, em nome do falso progresso, onde se confundem identidades, estatutos e papéis, com perdas regressivas e de dependência comportamental dos recém-nascidos, cada vez mais próximos do cão e do gato. As exigências laborais tornam as mães ainda mais ansiosas – omissas ou hiperprotectoras, remetendo os filhos para o fosso da carência emocional. A aversão, a fobia ou a inadaptação à escola vão fazendo escola.


     Está aberto, desde o berço, o caminho para a ansiedade neurótica na adolescência e na adultícia; está trabalhado o chão dos vários trantornos de personalidade psicotizada, marcados por inevitáveis surtos limítrofes de descrença pessoal, que a organização mental compensatória procurará suprir, de forma desviante e heterodoxa, como no enredo do deplorável filme a que (não) assistímos, em horário tardio, no canal oficial do rectângulo.

Nota: Sobre o mesmo filme, aceder à crónica:
https://maranduvaline.blogspot.com/2017/12/subsidios-para-debater-adolescencia.html

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

(...) SÓ TU NÃO DESCONHECES


Das razões que só tu não desconheces
                        diz uma que me possas revelar
                        aquela que te diz que já sem par
                        validas sem pesar todas as preces

                        Nas cisões mais sofridas enalteces
                        os ganhos passíveis de condensar
                        difusas perversões por regular
                        no lugar do tempo que já não teces

                        Olhar as andorinhas nos beirais
                        nos seus ninhos de barro conseguidos
                        é conceber desejos por demais

                        vivos nos mais gentis poemas lidos
                        na sensual música dos jograis
                        na procura dos laços já cerzidos

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domingo, 9 de fevereiro de 2020

ESCUTAR SEM QUERER


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                       Escutar sem querer o que me-ditas
                       nos ecos que me lanças na vontade
                       torna meus os nomes com que me fitas
                       na vil arquitectura da maldade

                       Tu não vês que me quebras com desditas
                       sem saber se dizer só da verdade
                       que cabe no desejo que suscitas
                       seria ver mentiras sem idade

                       Se controlar a mente que nos coube
                       já não cabe na nossa decisão
                       retira do fulgor de quem não soube

                       demitir-se do mito sem razão
                       pra seguir intenções de quem nos roube
                       o mais da mais oculta percepção

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terça-feira, 21 de janeiro de 2020

SÓ PARA TE OLHAR



                    Sentei-me apenas para te olhar
                    e fí-lo com os olhos de quem te quer e sonha
                    muito mais de que quem te vê a penas
                    por saber que não respondes ainda por ti

                    Escuto por isso na percepção do teu desejo
                    o caminho que se rasga no devir
                    embora a eternidade se plasme indiferente
                    às operações finitas
                    temporalmente adversas

                    Se te transcenderes serei feliz
                    na conjugação pacífica de ser e ter
                    a homeostase de nós
                    sem incorrer
                    na perversidade demoníaca
                    de dinâmicas ritualizadas
                    de economias disfuncionais
                    fantasmagóricas
                    povoadas de enigmáticos terrores
                    ainda que saiba que a própria metafísica
                    nos transcende por si só
                    sem dó nem piedade
                    num qualquer não-lugar 
                    enquanto sentença remissiva por sanar
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