segunda-feira, 13 de julho de 2020

UM GRITO SURDO DE PANDEMIA




 Bruscos leves os gritos suturados
                              pela febril placidez dos caminhos
                              escancaram medos inacabados
                              afectos sem pontes nem pergaminhos

                              Furtam-se agonizantes e cansados
                              colhidos no torpor de passarinhos
                              não voam mas marcham como soldados
                              para lá das trincheiras de seus ninhos

                              Na volta da tal estrada pandémica
                              só pula desordeira a propaganda
     Céus e Terra fervilham de polémica

                              patética censura desvairada
                              selecção delirante e sem demanda
                              omissão já sem tempo já sem nada


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domingo, 5 de julho de 2020

O INCESTO MAIS INSÓLITO

     


     No dia 3 de Julho de 2020, nos canais televisivos da nossa rectangularidade europeia, veio a lume a notícia de teor espectacular, especular, escandaloso, demencial, do incesto perpetrado, a meio da noite, por um sujeito alcoolizado, na pessoa de sua mãe, de sessenta e tais anos de idade, tendo o acto configurado, alegadamente, a violação consumada. Só devido a este aspecto particular, o filho terá de responder perante a Lei, uma vez que o incesto consensual (+ 18 anos) não constitui um ilícito criminal, de acordo com a lei portuguesa, de resto, como acontece na Natureza.

    Segundo os entendidos na matéria, trata-se de uma ligação entre familiares, de cariz sexual, mais vulgar do que seria de esperar, sendo, aquela a que se alude no primeiro parágrafo do texto, a de mais rara concretização, tal como ocorreu entre Édipo e Jocasta, na tragédia Édipo Rei, de Sófocles. Não tão raro mas, ainda assim invulgar é o incesto praticado por irmãos, e aqui recordamos o amor de CarlOS da MAIA(S) e Maria Eduarda, (re)criado por Eça de Queirós. Já o mais usual – releiam o conto A Princesa Pele-de-Burro –, mesmo que, aqui e ali movido de forma inconsciente, condensada, avessa, compulsiva e mórbida, é o incesto entre o pai frouxo, imaturo e a filha que é levada, a contra-gosto, a ocupar o lugar da mãe, como acontece no romance de M. Bragança dos Santos, “As Cores da Alma”, com as personagens Marcelo e Agripina.

   Contudo, no caso dos irmãos, acontecem, por norma, as   curiosidades sexuais-pré-genitais, os esboços lúdicos (passageiros) de reciprocidade proto-erótica, não devendo estes descambar em viciação-fixação. Estas manifestações de sexualidade pré-pubertária, com a idade, evoluem, rapidamente, depois das pulsões parciais infantis terem dado lugar à genitalidade normal, definitivamente configurada, maturada, no âmbito da relação objectal, onde tem de prevalecer a sensualidade, que o desejo sonda, fora do corpo do próprio.


   Caso contrário, se, no devir cronológico da adolescência, o sujeito mantiver uma fixação às pulsões parciais, manter-se-á estagnado, sem resolução edipiana nem ganhos super-egóicos, no domínio da perversão auto-erótica, na pré-genitalidade, não sendo capaz de crescer afectiva e emocionalmente, não conseguindo nunca lidar com o real do sexo, nem com os outros. Assim, comprometerá a sua identidade, individuação, afirmação, autonomia, inserção e pertença. Conforme Lacan afirmou nos primeiros anos de 1960, o sujeito deve, a um tempo, sentir a necessidade de inclusão e separação, para ser quem é; não permitindo que o ego seja joguete das exigências do id ou das cedências do superego; furtando-se a cavar a infelicidade daqueles com quem se relaciona doentiamente, como no incesto noticiado no dia 03 de Julho de 2020.

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segunda-feira, 29 de junho de 2020

A COEXISTÊNCIA PACÍFICA






      O ser humano – qualquer ser humano – tem necessidade absoluta de sentir que vive uma existência pautada pela autenticidade, a saber, quando esta diz respeito ao próprio, sem desvios nem distorções, e, portanto, eivada de verdade e sinceridade autoral. Contudo, o quadro não estaria completo se, por acaso, faltasse uma outra componente indispensável ao comportamento humano saudável: trata-se da espontaneidade – qualidade que leva o sujeito a agir de forma natural e voluntária, isto é, de moto-próprio, em função dos seus interesses pessoais, mas sem prejuízo de ninguém. Por último, e para que a vida não deixe nunca de fazer sentido, importa que o indivíduo – que é um ser social – saiba assumir o seu papel criativo face aos demais, privilegiando atitudes, interacções, idiomatizações construtivas, edificantes, convenientemente diferenciadas e originais, sempre que se lhe deparem situações novas no devir do quotidiano.

            Não obstante tudo isto, é precisamente no dia-a-dia das comunidades que mais se constatam atropelos à liberdade do outro, devido à complexa teia de interesses em confronto, à total ignorância de referências éticas e morais, à recusa de reflexão sobre a realidade histórico-filosófica que constitui o entorno onde se plasmam tais sistemas de intersubjectividade relacional. Ora, a percepção que temos do outro é-nos dada não só pelas sensações imediatas, mas também pelo capital de aprendizagem que vamos acumulando ao longo da existência, sabendo ser e estar através dum constructo com referências atinentes ao espaço e ao tempo, onde caiba o sujeito (soma e espírito), capaz de se afirmar livremente, sem prescindir da legitimidade do seu próprio projecto de vida.

            Contra tudo e contra todos, cada vez mais difícil tem sido suportar os cantos de sereia que vão ecoando por todo o lado, a torto e a direito, sem dó nem piedade, e que vão transtornando as cabecinhas de quem dá mais importância  à alienação digital e às dependências várias, em detrimento dos livros, da leitura, da Escola – isso, com “E” maiúsculo –, do desporto, recorrente e racional quanto baste para ser salutar, das conversas mental e afectivamente revitalizadores, claro, frente-a frente, face-a-face (vade retro, on-line), dos serões em família, para que os filhos possam ser merecidos e saibam aprender a merecer os pais.

            Claro, tudo isto tem a ver com as relações humanas, mas não caiam no absurdo e no ridículo de esgrimirem lutas balofas, espectacularmente decadentes, esquizofrénicas, onde tudo se confunde para melhor confundir os incautos, utilizando a lixiviação da palavra escrita, banindo-a, simplesmente, abastardando-a, mutilando-a ou negando-lhe a sua própria história, a sua etimologia, como se tudo fosse à vontade do freguês bacoco e ignorantão. Sim, a referência é, também, àquela empresa francesa que deixou de escrever nos seus produtos de limpeza a palavra “branquear”, para não ser vista como racista (?!!!). Acham que deva eliminar a palavra “claro”, no início deste parágrafo?!


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domingo, 21 de junho de 2020

ESTAÇÃO COVID-19


             
                                             

             Num momento tão sensível e ambíguo como o actual (1.ª metade de 2020), em que um vírus invisível (novo Corona-Vírus) ameaça a sobrevivência da espécie humana, a nível planetário, não pode haver lugar ao desdobramento das subjectividades tão típicas da diversidade conceptual cultivada pelos indivíduos ou grupos; às suas idealizações narcisistas, egocêntricas ou auto-eróticas; às interpretações divergentes; ao individualismo; às acções isoladas; ao erguer patético de uma Babel dessignificada.

            O novo Corona-Vírus não é um ser vivo, mas se lhe for facilitado um ambiente propício, leia-se as vias respiratórias dos seres humanos, aquele poderá potenciar uma forma de vida rudimentar, parasitária, algo no limiar da molécula e da vida, mantendo-se incapaz, contudo, de pertencer a qualquer estrutura biológica, pois não transformará nunca a energia autonomamente, ceifando, portanto, as vidas dos incautos hospedeiros.

            Nesta conformidade, se o valor da vida humana não for tido em conta como o primeiro e o mais importante, então, toda a saga civilizacional, ainda que considerando todas as suas oscilações mais ou menos demenciais, terá chegado ao seu ponto de oclusão. No âmbito realista da interpretação do mundo, tal como ele se nos apresenta, devemos tentar compreender, aceitar, apoiar e validar o esforço hercúleo da ciência médica e social, no sentido da tentativa de percepção, interiorização, harmonização, correcção e inversão deste surpreendente ataque à manutenção da vida.

            Sob o ponto de vista da investigação teórica e da sua consequente metodologia programática e pragmática, o paradigma deve assentar na arquitectura da racionalidade científica, através da convalidação do empirismo evolutivo (método científico), isto é, sempre ancorado em resultados práticos verificáveis. Estes, contudo, devem afirmar-se por meio de modelos analíticos qualitativa e quantitativamente aceites, capazes de satisfazer os valores da vida social saudável e as necessidades legítimas do colectivo.

           Neste quadro, têm de ficar fora de questão os conflitos sociais, a subjectividade particular ou grupal, a ambição, a ganância e as tensões de poder, para que seja possível a ordem, a uniformização dos valores fundamentais (universais) e a reposição das condições de manutenção da vida. Sendo assim, o foco é apenas um, precisamente porque tanto serve ao indivíduo em particular como à sociedade em geral.

            Como escreveu Emmanuel Lévinas (1980), estamos primordialmente vinculados ao outro, mesmo que essa experiência tenha ocorrido para uma consciência pré-reflexiva. O vínculo ao outro é estrutural e estruturante para o sujeito; matar o outro é cometer suicídio. Continua, afinal, a estar tudo nas mãos do Homem!


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sexta-feira, 13 de março de 2020

TU NÃO SABES QUEM SOU




                   Tu não sabes quem sou nessa tal hora
                    nem quem és sabes ser devastação
                    se vir a ser soubesses só por ora
                    não serias de mim por pro-cisão

                    Quem sabe se na vida se deplora
                    a queda na difusa prolação
                    ou se se teme ser pela demora
                    outorgando verdades que não são

                    Estranha diversidade de ser
                    o Outro que também nos constitui
                    no pasmo que refuto por saber

                    projectar a recusa que reflui
                    na sombra especular de suster
                    o pouco mais ou menos que se intui

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domingo, 8 de março de 2020

UM ESBOÇO DE PAIXÕES


    (...) o seminarista Maurício, de novo em férias, dirigiu-se à Fonte e Lavadouro do Olho D´Água, para abraçar a mãe e a madrinha Juliana e a prima Rosália, e cumprimentar, timidamente, as restantes mulheres, naquele espaço mágico onde a água brota da Terra para vivificar as almas e os corpos, e as raparigas se orgulham das suas bilhas redondas, virtualmente capazes de matar a sede ao mais sequioso desejo (...)
    (...) -- Hoje precisas de descansar
    hoje sim, mas para o dia seguinte, Maurício ficava já convidado pela madrinha para almoçar em casa desta, no Lugar do Caneiro, onde não havia lugar a rejeições, nem a distanciamentos, nem a defesas egóicas, porque o espaço era aquecido pela consistência dos suportes identitários, que se estribam nos afectos estruturados pelos objectos reganhados, que atenuam a fragmentação do Self e acautelam a deterioração da ferida narcísica
    -- Vamos almoçar no alpendre
    com o Sol a aquecer os corações, a mesa foi posta debaixo daquela cobertura típica, e esperou-se pela chegada do tio Duarte, e foi aliviado o mecanismo projectivo mais arcaico dos presentes, porque os egos dos comensais dispensavam agora defesas, tendo sido tacitamente aceite a reciprocidade das identidades similares e fraternas, o que fazia erguer uma barreira indestrutível entre o Self e o não-Self dos componentes desta família ideal
    -- Vai fritar os jaquinzinhos* Zalinha
    e era tudo o que faltava fazer, para que fossem servidos bem frescos e estaladiços, e as férias assim tinham outro gosto e a prima Rosália estava no ponto da sensualidade, cujo apelo erótico impregnava, com o seu impacto vital, visual, viral, demolidor, o coração dos jovens da Planura, na procura do desejo que (cor)responda ao seu desejo, no âmbito da relação com o outro e não porque as necessidades, meramente instintivas, devam ser satisfeitas, na incrustação do real puro e duro
    -- Esta-se tão bem aqui
    os objectos internos encontravam-se perfeitamente apaziguados e os externos contribuíam para o equilíbrio desta intermitência no contexto de maior perigo potencial na vida do seminarista, não sendo necessárias projecções compensadoras de recalcamentos frustrados, e o Self podia respirar tranquilidade e assunção plena, libertando o sujeito
    -- Já viste como a tua prima está linda?
    -- Sim está bonita
    Maurício parecia não reagir à veemência fetichista das formas proeminentes, apelativas, magnéticas de Rosália, à materialidade do seu corpo, a esse apelo ensurdecedor e enigmático da Natureza, à convergência genital, através da pulsão do desejo vivo e hesitante, (...)

Nota: * jaquinzinhos – carapauzinhos minúsculos

In “NÃO SEI SE DE MIM SABEREI ALGO”, 2020 – Romance de Manuel Bragança dos Santos (pág. 99).

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segunda-feira, 2 de março de 2020

ANSIEDADE E DESCRENÇA


     A propósito de um conteúdo fílmico de 2017, apresentado ontem (01 de Março de 2020), em horário tardio, pelo canal televisivo que a população do rectângulo financia coercivamente, diremos apenas que desligámos o receptor, não só profundamente decepcionados, mas também incontornavelmente incomodados. Perante algo tão sórdido, não conseguimos perceber de que serviço público fala o tal canal.

     O título da projecção aludia a “O Fim da Inocência” e apresentava um grupo de adolescentes, pertencente à classe abastada, em contexto do mais completo desnorte, vítimas do império dos sentidos, no âmbito da já estafada e degenerada triologia – sexo, drogas e rock`n`roll, tornada moda pela decadente sociedade do espectáculo, e, modernamente, a funcionar pela acção tenebrosa da omnipresente globalização.

     A globalização, ao contrário do que se possa pensar, significa isolamento multitudinário, porque anula a subjectitividade relacional de cada um; a globalização, por ser omnipresente, destrói também o tempo de estruturação e maturação dos corpos e das almas; a globalização, por se apresentar como a mensageira do pensamento único, impede a reflexibilidade e a consciência moral dos indivíduos, agora formatados pelo panegírico do colectivo.

     Cada vez mais, face ao descalabro social, político e económico do Ocidente, o fim da inocência voltou, porque não se aprendeu nada com os miseráveis factos ocorridos ao longo da Segunda Guerra Mundial; porque os governos escamoteiam deliberadamente o papel da Educação; o papel da família; a necessidade do Homem se transcender, já que não é um simples bicho que se rege tão-só pelos instintos.

     Vergadas sob o peso da ansiedade, as crianças são separadas prematuramente das mães, em nome do falso progresso, onde se confundem identidades, estatutos e papéis, com perdas regressivas e de dependência comportamental dos recém-nascidos, cada vez mais próximos do cão e do gato. As exigências laborais tornam as mães ainda mais ansiosas – omissas ou hiperprotectoras, remetendo os filhos para o fosso da carência emocional. A aversão, a fobia ou a inadaptação à escola vão fazendo escola.


     Está aberto, desde o berço, o caminho para a ansiedade neurótica na adolescência e na adultícia; está trabalhado o chão dos vários trantornos de personalidade psicotizada, marcados por inevitáveis surtos limítrofes de descrença pessoal, que a organização mental compensatória procurará suprir, de forma desviante e heterodoxa, como no enredo do deplorável filme a que (não) assistímos, em horário tardio, no canal oficial do rectângulo.

Nota: Sobre o mesmo filme, aceder à crónica:
https://maranduvaline.blogspot.com/2017/12/subsidios-para-debater-adolescencia.html