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(Os
homens e os regimes; os regimes e os homens)
Em
termos gerais, sempre que olhamos para a sociedade, podemos dizer que
se trata de um organismo vivo, a exemplo do que se passa com o corpo
humano, e que as pessoas são o sangue que gira nas veias desse
mesmo organismo.
Como em qualquer corpo
vivo, para que as coisas possam correr, consigam funcionar, sejam
capazes de se desenvolver, é fundamental que haja saúde.
Para que haja saúde devem ser tomados os devidos cuidados, sem
os quais o organismo vivo – a sociedade, para utilizarmos aqui o
paralelismo inicial – não conseguirá nunca
equilibrar-se e avançar, segundo o rumo traçado,
visando atingir objectivos de paz democrática, de
desenvolvimento e de melhor qualidade de vida.
Evidentemente que,
sempre que em determinado organismo existe uma dada doença,
mais ou menos grave, mas ainda assim não terminal, esse corpo
social pode, da mesma forma evoluir com maiores ou menores
dificuldades, fazendo sofrer os hospedeiros que o habitam mas,
tentando sempre progredir. É o que nos parece que acontece com
a sociedade portuguesa.
Em
Portugal, no dia 25
de Abril de 1974,
rompeu-se com o regime profundamente conservador e tacanho que
vigorava até então e institucionalizou-se um novo
regime, de feição democrática, com liberdade de
expressão, de imprensa, de voto, de feição
pluripartidária.
É
a partir daqui, e com o decorrer dos anos – das décadas
(estamos
prestes a comemorar os 50 anos da Revolução) –,
que as coisas avançaram, não só porque teriam
mesmo de evoluir, segundo o ritmo natural das mesmas, mas também
porque, alicerçados numa sociedade dotada de novas
característica estruturais, formais e substanciais, tudo, ou
melhor, quase tudo foi ou deveria ter sido feito para que os vários
sistemas inseridos na nossa sociedade – o político-ideológico,
o sistema de justiça, o
sistema de saúde,
o sistema educativo, o sistema económico-financeiro, o sistema
de segurança social, etc., etc., etc., pudessem melhorar e
contribuir para o avanço do nosso desenvolvimento pessoal e
social, assim como para a melhoria da qualidade de vida de cada um de
nós, em particular, e de todo o tecido social e de toda a
teia institucional, em geral.
De lá para cá,
nem tudo foram rosas... quer dizer: nem tudo foram cravos, mas,
justiça seja feita, e não obstante as múltiplas
contradições a que a democracia nos tem sujeitado, o
balanço, que desejamos todos olhar como sendo positivio,
registou a massificação do ensino, com o qual os vários
ministérios da Educação não souberam
convenientemente lidar; contou com o alargamento do acesso à
habitação social por parte de certas franjas da
população em vias de indigência (velha e nova
pobreza); contemplou o “boom” das novas tecnologias (não
referiremos aqui os seus aspectos nocivos), do qual beneficiam
principalmente os mais jovens que as bebem desde o berço e
que, portanto, as tratam por tu; beneficiou das aturadas e constantes
vitórias da ciência, nomeadamente da medicina curativa
(novos e surprendentes tratamentos do cancro, dos problemas
cardio-vasculares, das doenças infecto-contagiosas, das
doenças respiratórias, do aparelho digestivo, etc.,
etc.... e... fomos torpedeados pelo cornona-vírus.
Com tudo isto, ganhámos
muita coisa e perdemos alguma coisa também. A vida é
hoje mais trepidande, mais cansativa. Continuamos a correr cada vez
mais, não sabemos muito bem atrás de quê. Existem
nuvens negras e intrigantes a pairar sobre a própria economia
e já nem os especialistas conseguem descortinar exactamente o
que se passa. Como exemplo apontaremos apenas a renitente intenção
da banca, de aumentar um sem número de taxas e taxinhas, como
quem dispõe dos proventos dos depositantes; um dos executivo
cortou em 2 (dois) pontos percentuais a taxa que pagava aos
portugueses pela venda de dívida pública (prémio
de permanência), o que pode ser interpretado como uma cedência
aos mercados secundários; a bolha imobiliária (em
finais de 2016) voltou a desembestar, impante... Os empreiteiros e os
especuladores não aprendem, mesmo. Decidida e definitivamente,
o sacrifício e as correrias, para além de assumirem
aspectos bizarros, não são, realmente, para todos.
Perdemos também a
segurança e a estabilidade do emprego. Tanto o patronato como
os governos tentam impôr-nos mais horas de trabalho e salários
mais baixos ou congelados (o aumento do salário mínimo
de 2017, pasme-se, recorreu ao mealheiro da Segurança Social),
enquanto que o grande capital continua a inchar de lucros, mormente
os especulativos. Em 2020, o ordenado mínimo mantém um
mínimo miserável. As taxas verdes escondem negras
motivações, já que a energia que a Europa
importa é produzida por centrais a carvão, logo, os
carros eléctricos são uma falácia.
Sem incorrer em
pessimismos, a verdade é que a Europa tem permitido a
incompreensível invasão de produtos estrangeiros,
desprovidos de qualidade e resultado de mão-de-obra infantil,
bem próxima da escravatura, o que é contrário
aos mais elementares princípios dos Direitos Humanos que a
Europa diz defender, e torna vulneráveis as nossas empresas e
a nossa política laboral, deitando por terra todo o conjunto
de conquistas sociais tão dificilmente conseguidas ao longo
desta nossa democracia. Já para não falar no que tem
estado a acontecer, em resultado do proteccionismo redutor do
presidente dos Estados Unidos da América. Falta abrir os
olhos, ganhar coragem e bater o pé. A Europa tem de se afirmar
de novo.
NOTA: Neste Verão
de 2021, o preço dos combustíveis constitui já
um aviltante saque institucionalizado.