quarta-feira, 3 de outubro de 2018

NATURALIDADE GRUPAL PRÉ-ESCOLAR

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             É notável o pioneirismo de Fiedrich Fröbel, ao reconhecer, ainda na primeira metade do século XIX, que a criança através da actividade lúdica se identifica vivencialmente como pessoa. De resto, foi Fröbel quem, em 1840, criou o primeiro Kindergarten (jardim-de-infância), na Turíngia. Recordamos, aqui e agora, este extraordinário facto histórico, depois de termos relido um breve ensaio nosso – Atitudes Pedagógicas Concretas –, publicado na revista portuguesa Cartilha, de 2 de Fevereiro de 1990. Modéstia à parte, esta publicação, de inestimável valor e alcance didáctico-pedagógico, deve a sua génese e alma à concepção e implementação de um projecto por nós gizado, e que a Associação Nacional de Professores apadrinhou, depois de termos, no ano de 1987, encetado negociações, de patrocínio e edição, bem sucedidas, com Américo Areal, ao tempo, proprietário das Edições ASA.

            Contudo, voltemos a Fröbel e aos jardins-de-infânia... O ambiente nesta nova realidade vivencial infantil deve decalcar, o mais possível, o domus familiar, no sentido de atenuar a redução das relações maternais, e propiciar a abertura a novos contactos com os pares da criança; é que surgem agora novos objectos externos e um novo tipo de actividades comuns, depois da conjugalidade saudável do pai e da mãe ter iniciado o devido entretecimento de um projecto identitário para o filho (P. Aulagnier). Neste contexto, a educadora-de-infância deve estar preparada para se dedicar, pessoalmente, a cada uma das crianças, sem perder de vista, portanto, a heterogeneidade do grupo em presença, mas procurando envolvê-lo sempre na difícil simultaneidade das indispensáveis acções colectivas.

            O ritmo da vida familiar deve ser respeitado no jardim-de-infância, sob pena de o Sistema Educativo, por manifesta ignorância, impreparação e inconsequente irresponsabilidade, não criar condições que garantam os ciclos vitais de actividade, de repouso e de sono. No jardim de infância a criança deve integrar os trabalhos domésticos da sala, transformada em casa com divisórias e nichos devidamente decorados e mobilados; tais tarefas, que o adulto supervisiona e acompanha, permite-lhe a saudável oscilação da dependência para a autonomia, da recusa para a aceitação, da responsabilidade para a distensão. Assim, com maior ou menor dificuldade, a criança vai percorrendo a senda da adaptação ao jardim de infância que, apesar de todos estes cuidados, não é o lar a que aquela estava habituada (Marianne Günzel-Haubold, 1959, 2.ª Ed., pp. 250 e 251).

            Relativamente às reacções de espontaneidade grupal infantil, em contexto de jardim-de-infância, o que de imediato se nos oferece dizer prende-se com aquela constatação clássica de que, nesta fase etária, as crianças não brincam umas com as outras, mas, isso sim, brincam apenas na presença umas das outras. E, claro, as coisas devem ser mantidas assim, sem forçar a nota; tudo evoluirá a seu tempo. Mas, atenção: pode verificar-se que um mais velhinho assuma a liderança do jogo ou, até, que o jogo fomente a natural distribuição de papéis diferenciados. Nestas idades a criança não se encontra mentalmente preparada nem amadurecida para interiorizar regras objectivas, nem para cumprir papéis sociais colectivos. Aqui, cada um joga para si próprio e por si só, ou então em resultado de uma qualquer acção grupal genuína.

            Esboçam-se, nesta fase, também, certas acções de liderança dos mais velhinhos, curiosamente, para apoiar os mais novos, podendo ainda fazê-lo, para, pura e simplesmente, tirar partido da sua superioridade global e assim os poderem dominar. Nestas idades, rapazes e raparigas também não combinam. Mas isto é espontaneidade reaccional-grupal, o que contribui para naturalizar o convívio relacional e optimizar a elaboração desta segunda fase de tensão micro-social – a anterior, no seio da família, constitui o modelo inicial de relação afectiva e de vínculos que esboça já uma imagem social de comunidade. Sendo assim, só neste quadro é possível, no âmbito do relacionamento objectal, simbiótico, a penetrabilidade emocional do continente grupal e a receptividade gradual pelo  objecto. Nada de rotinas de habituação viciante, contrárias à natureza sociopsicológica da criança e às suas necessidades pedagógicas de metodologia grupal.

            Nota: Fora de questão está, antes dos sete anos, a leccionação formal de Matemática ou de Língua Portuguesa... Muito menos a de uma língua estrangeira. Revejam as teses de Jean Piaget – neste mesmo Blogue – “Legados Conceptuais de Piaget” e “As Descobertas de Piaget”... Mais ainda “A Toleima do Inglês” e “A Alegria de Aprender Inglês”.
           

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

DO AMOR E DO ÓDIO



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        Em uma das nossas publicações poéticas (Lágrimas – 1997), a autora do prefácio, a dado passo, cita Émile Durkheim (1858-1917) para fundamentar a ideia de que ninguém consegue viver sem amor... “o homem que vive isolado ou é Deus ou é uma besta, mas não é nunca um ser humano”. E nós acrescentamos: tal criatura encontra-se já enredada nas teias da loucura, pois não é possível viver sem amor. No  entanto, tenhamos sempre presente que, quer o amor quer o ódio são faces contíguas da mesma moeda relacional – afectos de atracção e afectos de aversão, como teorizou Alfred Adler (1870-1937).

            Curiosamente, se conceptualizarmos, aqui e agora, dicotomicamente, a representação mental sobre a qual discernimos no presente escrito (o amor e o ódio), dado que algo existe apenas em função do seu contrário, somos levados a recordar Empédocles (+ ou – 492-432 a. C.) por ter sido este filósofo o primeiro a considerar, em sentido cósmico-metafísico, o amor (Philia) como princípio de união dos elementos constituintes do universo, e o ódio (Neikos) como fautor de separação.

            Platão (428-348 a. C.) viria depois a dedicar uma renovada atenção à problemática do amor, revestindo-a de uma nova centralidade. Este filósofo chegou a comparar o amor a uma forma de caça; ou então, a uma espécie de loucura; no escrito Fedro, o amor é visto como um deus poderoso. Depois, este pensador da Grécia antiga, divide-o no amor do corpo, no da alma e no de ambos; podendo ainda ser mau e ilegítimo ou bom e legítimo – o do primeiro tipo seria aquele que não está iluminado pela alma e que despreza a irradiação das ideias, logo, o corpo deve amar, sim, mas por amor da alma, para se enquadrar no do segundo tipo.

            Quem não ouviu falar já do amor platónico?!... Este amor queda-se pela sua própria essência, permanecendo arquétipo de si mesmo na sensualidade acessória dos corpos transfigurados pelos resplendores ofuscantes da luz da alma; e é esta luminosidade invisível que apaixona os amantes e gera a beleza magnética da atracção mútua, do recompletamento e fusão meteórica dos corpos e das almas. Mas a posse é periclitante, efémera, pendular, metafísica, enquanto reflexo transitório, participado, do amor à beleza absoluta, “que é ideia do Belo em si”, como refere Platão, no Banquete.

            Com o dealbar do cristianismo, o conceito de amor expande-se a novas representações, mais ou menos divinizadas, conforme os seus arautos, através de uma óptica, por vezes, redutora, como aconteceu com São Clemente, para quem amor deveria ser todo o ser e perfeição. Ainda hoje esta doutrina faz escola através de um eclectismo teosófico que parte da gnose esotérica estribada na transmissão pacífica do conhecimento tradicional pan-religioso.

            Um outro Doutor da Igreja, Santo Agostinho, estende o amor à caridade, conseguindo ainda ver o amor não só como mal se se aliar a este, mas também como bem se se ligar ao bem, sendo que, o amor a Deus é sempre um bem, mas, torna-se um mal se se “basear numa inclinação puramente humana”... Santo Agostinho dixit! Nos dias conturbados de hoje, de constantes e graves conflitos, o amor deve ser compreensão, empatia e altruísmo filantrópico, num quadro de ponderada, sensata e equilibrada autotranscendência relacional.

quinta-feira, 5 de julho de 2018

SONETO ANTIDEPRESSIVO






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                  Nessas tão duras pedras do caminho
                  moram forças ocultas de razão
                  a ditar sem saberes o desalinho
                  da vida temperada de ilusão

                  É melhor que não penses no mesquinho
                  do futuro com tiques de ladrão
                  e não sintas a dor do tal espinho
                  que te tolhe na praça da sezão

                  Segue pois por veredas e vielas
                  por colinas erguidas em altura
                  não cedas nos desertos mais musgados

                  Reforça a dinâmica das bielas
                  e no brilho da luz que sempre dura
                  vai fundo como fazem os arados



IDEIAS E IDEAIS



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            Tolstoy (1828-1910), Neill (1883-1973) e Dewey (1859-1952) – dizia-nos um interlocutor de circunstância que já não têm voto na matéria, por terem morrido há um número considerável de anos (?!!!) – defenderam ao longo das suas vidas um conjunto de ideias revolucionárias para a época, na óptica da implementação de ideais nobres, mormente no que à escola dizia respeito: ao invés de a mesma ser vista como um complemento circunstancial de lugar onde se depositam crianças, aquela deveria passar a ser olhada como um enquadramento formativo, de âmbito relacional. Aqui, a intersubjectividade das pessoas em presença (docentes, discentes e pessoal coadjuvante) ganharia consistência na consideração da importância, fundamentalmente, da vida escolar do quotidiano, isto é, não tanto com os olhos postos no futuro nem com a obsessão de educar no sentido restrito do acto.

            Neste aspecto particular, John Dewey mostrava-se intransigente e assertivo, tendo afirmado mesmo que os profissionais do ensino, enquanto móbil institucionalizado do poder, não possuíam nenhum tipo de competência didáctico-pedagógica, já que exerciam sem amor. É que a educação não pode nem deve ser confundida com práticas de condicionamento e doutrinamento das crianças, como vem acontecendo, também nos nossos dias, cada vez com mais eficácia e sistematicidade, visando a subreptícia exploração social e ideológica dos indivíduos que constituem, desde já, a matéria-prima (argamassa) do tecido sócio-comunitário.

            Nas décadas que se seguiram ao fim do segundo grande conflito mundial (1939-1945), muito boa gente tentou concretizar projectos educativos, repletos de inteligência, criatividade e sentido prático, embora raros tenham resistido ao cinismo ideológico das políticas que sempre cedem aos intentos dos mercados. Leila Berg (1971) – (1917-2012), na obra Children`s Rights, na qual colaborou, refere algo profundamente polémico, relatado pelo jornal Washington Post de 29 de Junho de 1970: às crianças (três a seis mil alunos) mais desfavorecidas e irrequietas da cidade de Omaha, para não incorrerem em problemas de indisciplina escolar, eram-lhes prescritos (escândalo dos escândalos) Ritalina, Dexedrina, Deaner, Aventyl e Trofanil (Berg, 1971: 66).

            Neste quase final de quartel do século XXI, este tipo de métodos, este género de estratégias aberrantes ter-se-ão alterado, quiçá modificado, reconvertido – julgamos nós –, até porque os objectivos que procuram alcançar, encontram um aliado de peso... exactamente, referimo-nos às novas tecnologias de informação e comunicação, sempre em tempo real e globalizadas. Estas vão pautando, não só o pensamento único, politicamente correcto, mas também a uniformização comportamental dos seus mansos seguidores, viciando, impedindo-os, imaginem, delas se desligarem, até mesmo, como temos testemunhado, à mesa de um qualquer restaurante. E eles aí estão: sentados à mesa com os pais e a sua complacência mórbida, apenas fisicamente, mas ausentes de contexto, auscultadores nos ouvidos, sempre sobre o carapuço ou boné (?!), ou sobre ambos (?!!!), um olho no tablet e o outro no bitoque. É trágico, sem deixar de ser caricato.

           

O FUNDAMENTO DA VIDA




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    Neste nosso mundinho tão divergente e contraditório, estamos todos condenados a suportar uma existência repleta de condicionalismos e alienações, caso enveredemos pelas mansas atitudes do seguidismo mimético, que vai tolhendo os últimos resquícios de autenticidade criativa do ser humano, numa espécie de atavismo redutor de acomodatícia restrição anestésica, impeditiva do mais legítimo direito de usufruto da saudável dinâmica de intersubjectidade relacional dos indivíduos, na rota da felicidade.

            Tendo em conta os factos do quotidiano, mil vezes repetidos e revistos, virtualmente, em tempo real, por cada vez mais criaturas globalizadas, urge adoptar uma postura filosófica face ao peso demolidor dos acontecimentos, e, mais ainda, em relação aos objectivos dilacerantes de um conjunto de contextos cujos conteúdos são ardilosamente orquestrados, no sentido de todos enfiar numa linha de actuação (auto)matizada pelas motivações mais primárias, logo, instintivas e animalescas, isto é, sem nenhum tipo de racionalização ponderada.

            Será que alguém se deteve já, para pensar, até que ponto não andaremos todos com a cabeça à razão de juros, ao invés de sondarmos as pricipais razões de fundo que possam, eventualmente, justificar... bem, se calhar ficar-nos-emos apenas pelo âmbito das explicações, tendentes a clarificar o nosso papel na família, na sociedade e a nível planetário. O planeta (do grego, planétes = errante) Terra é a nossa casa comum e deriva, errante, em torno do sol, qual montanha russa em delírio de vertigem sob a luz multicolor dos holofotes da feira existencial das angústias. Pois, mas a vida tem outras vertentes e é necessário que nos saibamos situar.

            Em primeiro lugar, vamos tentar perceber em que se fundamenta o sistema conceptual que é regido pelos códigos humanos de conduta (princípios, valores, códigos, normas, leis, crenças, cultos, ritos, assunções, etc.). Tem de haver razões, motivos, nexos de causalidade, todos eles plausíveis, bem entendido, que garantam a coexistência pacífica dos homens, a solidariedade, a cooperação e o altruísmo. Dizía-me um jovem adulto (29 anos), há dias: “ imagine que tudo funcionava dessa maneira!... Já se teria verificado o colapso habitacional do planeta e a extinção da humanidade!” Não conseguimos aduzir nenhuma resposta...

            Mas, então, que razão de fundo devemos encontrar para a vida e para o estado de coisas em que (e com que) a mesma se debate?! Fiquemo-nos, então, pela simples razão de fundo do tipo ideal, ainda que a vida seja algo palpável e maravilhoso; a mesma, se não assenta em nenhum princípio, razão ou origem cujo fundamento seja justificável, isto é, que possa ter um fundamento real – a tese do nosso jovem –, no mínimo, agarremo-nos aos fundamentos da racionalidade ideal, enquanto explicação que possa fundamentar a nossa razão de fundo.


            

AS REACÇÕES NEURÓTICAS




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        Enquanto seres humanos, somos todos dotados de um extraordinário e, praticamente, ainda que não absoluto, eficaz mecanismo de defesa que nos permite reagir às experiências emocionais mais agressivas e drásticas do quotidiano, através de comportamentos diferenciados do padrão tido como normal, linear, muito embora essas derivas se consubstanciem em termos muito mais quantitativos do que qualitativos, do ponto de vista caracterológico (etologia) – Stuart Mill (1806-1873) e Wilhelm Wundt (1832-1920).

            Esta óptica inicial de abordagem da problemática das reacções neuróticas, estudada pelos cientistas a que atrás se alude, inscreve-se na revolucionária (para a época) psicologia experimental, marcadamente empírica, que visava imprimir um carácter distintivo à investigação, até aí refém da especulação filosófica. Wundt, principalmente, preocupou-se com a consciência e com as representações sensoriais da mesma. Já John B. Watson (1878-1958) viria a defender a necessidade de pôr de lado o efeito das vivências interiorizadas, argumentando que a distorção provocada pela subjectivação da experiência, redundaria em inevitáveis equívocos. Assim, estes “behavioristas” ficar-se-iam pela simples observação e investigação do comportamento do indivíduo.

            Convém referir, de passagem, a diferença de fundo que existe entre as reacções do tipo neurótico e as que podem ser classificadas como sendo psicóticas: nas primeiras, e ao invés das segundas, o indivíduo regista na consciência a ocorrência vivenciada, não sofrendo de nenhum apagamento de facto ou de sentido (n)a sua relação com a realidade; nesta conformidade, a sua personalidade mantém-se intacta, assim como a sua estrutura concreta de pensamento formal e substancial, e , mais ainda, a manutenção do contacto com a realidade (orientação e lucidez).

            Tipificando, estas reacções neuróticas procuram compensar, combater ou atenuar uma ansiedade de cariz específico, trabalhando o efeito conflitual provocado pelo choque dos objectos internos ou externos, no sentido da preservação dos seus reflexos ansiosos, através da defesa do ego – fobia de deserção, cismas e actos repetitivos, transferência, recalcamento e posicionamento esquizo-paranóide-depressivo – este último, conforme o definiu Melanie Klein (1882-1960). Também Freud (1856-1939) se referiu ao assunto, ao invocar as fixações regressivas primárias (fases oral, anal e fálica), enquanto mecanismos de defesa mental (reacções neuróticas) na formação do sintoma – do grego, coincidência.

            É hoje possível afirmar, sem nenhum tipo de constrangimento ou pudor, de que a percentagem da população nacional a braços com esta sintomatologia (indícios de perturbação ou doença) é muito maior do que seria, à primeira vista, expectável. E tudo começa na infância com certas disfuncionalidades emocionais, como o sonambulismo, a enurese, a gaguez, a aversão fóbica à escola ou certos tiques difíceis de abandonar pela vida fora. Talvez não fosse má ideia, ainda assim, a intervenção de um clínico especializado. É que, embora se trate de mecanismos de defesa úteis, podem não resolver, de todo, o(s) problema(s).