quarta-feira, 1 de maio de 2019

A RAPARIGA DOS RUBROS SILÊNCIOS



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No campo respira-se o ar lavado dos grandes espaços abertos; escuta-se a imperceptível musicalidade do vento, o som melódico dos regatos, o coro dos passarinhos, a subtil leveza das colinas; no campo sente-se a envolvência aveludada dos prados e o sedoso toque da brisa

No campo ainda há quem fale com a terra e oiça, com espanto, o silêncio dos frutos. No campo vive Laurinda, a rapariga de todos os encantos e desejos. Ela viaja pelo sonho, sob o sol do seu coração ardente, como fazem os rios sem margens

Toda a aldeia está lá, no prado das cerejeiras vergadas pelo ímpeto dos frutos carnudos e vermelhos. A colheita é sôfrega, sensual, extenuante. Os gigos enchem-se em torno dos troncos. Laurinda já não sonha, e refugia-se no silêncio, respondendo, triste, magoada mas decidida, pela incumbência da natureza. Vai dividindo a atenção, também, com um outro gigo colocado muito próximo de si. No seu interior, embrulhada numa manta fresca e limpa, dorme, inocente, a filha

Desde a última colheita que Martinho não mais procurou Laurinda. Esta, vive de coração apertado e chora às escondidas. Contudo, não dá a face, enfrenta a adversidade. Doce, bela e jovem, só através dos seus grandes olhos verdes deixa transparecer a angústia que lhe dilacera a alma. Faz hoje dezoito anos, mas ninguém se lembra do seu aniversário

Pelo lusco-fusco, são estendidas séries de lâmpadas entre as cerejeiras e a ramada lateral; não faltam os petiscos habituais e o vinho regional... e a música tocada de improviso. No centro, sob o brilho prateado das estrelas, os pares rodopiam ao som da concertina; no círculo dos mais velhos as crianças buscam o aconchego das mães

De repente, Laurinda ergue-se com o bebé ao colo; discreta, entra na roda, e ensaia uns passos de dança. Todos lhe sorriem e lançam gracinhas à criança. Agora, a concertina rasga a noite com o seu gemido pungente e nostálgico

Martinho, então, aproxima-se resoluto, entra na roda, envolve a rapariga e a filha num abraço largo e sentido, beijando a jovem com carinho.

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segunda-feira, 29 de abril de 2019

O TEU SORRISO



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Não penses no poeta distraído
nem tentes descobrir o seu condão
tão ausente do rumo contraído
tão no centro do foco da sezão

Não penses no poema sugerido
nas suas amplas asas de falcão
abertas e cerradas ao sentido
do transe que nos toma de tensão

Vem daí fechar os olhos e vê
como vogam os barcos a compasso
na desordem do peito de quem lê

a plácida tortura que desfaço...
Caso sintas haver um-não-sei-quê
compõe lá esse teu sorriso baço

sexta-feira, 26 de abril de 2019

ANGOLA, DE MEMÓRIA



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Quero guardar o cheiro a savana no teu corpo
sentir o subtil afago do capim pela manhã
beber o orvalho na folhagem dos teus gestos
vibral no tropel dos corações em delírio

Por entre acácias verdejando
na densidade das fendas ressequidas
pelo sol crepuscular dos batuques
tão presas ainda ao chão dos sentidos
quero guardar o cheiro a savana no teu corpo

Plácida terra que sempre soube de cor
envolve-me no hálito fresco do teu ventre
                                perfumado
na latência cerrada do teu bosque
nos tons e sons da tua seiva
que bebo insaciável
à boca da madrugada
e vem amanhecer
na manta morta do meu corpo


In “O Rumo e o Sonho”, 2001 – Fólio Edições

Manuel Bragança dos Santos

quinta-feira, 25 de abril de 2019

45 ANOS DE ABRIL


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Rasga-se-me o pensamento nos sulcos do poema
mas não sei se nasce aqui o tal caminho
nem sei tão pouco se sou senhor deste destino
ao sentir a pulsão do desejo que se move                                        descontínuo
vergado sob o peso de ancoragens divididas


Sou de novo trucidado pela chibata do cifrão
por isso busco a sagração do infinito
a essência transbordante deste povo
a súbita expressão do lirismo cintilante
rente ao uno simbólico mais prosaico
num assomo de carácter parcial e fraccionário


Nesta Babel sincrética de labirintos e desvios
a palavra é o gesto que toca a reunir
esboço de signos a rebate sem recato nem pudor
na persistência do desejo que esgrime a                                         Liberdade


Depois de Abril ter passado na ausência                                        da memória
de tudo quanto nele se apagou por ter                                         lá estado
resta a urgência da verdade de que falo
de novo Abril – uno verdadeiro autenticado

quarta-feira, 24 de abril de 2019

A INCÓGNITA


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   Não raro, os seres humanos alimentam paixões controversas, que eles próprios, as mais das vezes, mal conseguem explicar; movem-se pela força dos desejos, legítimos ou não; perseguem sonhos, iluminam aspirações, e é na alma de cada um deles, enquanto alicerce estruturante da consciência e da vontade, que tudo se harmoniza e ganha sentido... ou não.

   A vida, portanto, deve ser vivida sem que se perca de vista o, mais ou menos, distante farol da esperança, em liberdade, até porque o futuro se apresenta invariavelmente obscuro, incerto e imprevisível. Seja como for, a felicidade é sempre o mais almejado objectivo a ter em mente. A felicidade é sempre a incógnita que o sonho entretém e fantasia, através dos ritos do quotidiano.

  Devemos sonhar, sim, todos nós, porque sonhar não está vedado a ninguém. Porquê perder a capacidade de sonhar, seja com o que for ou com quem for? Enquanto não se concretizam os desejos, vontades e necessidades que cada pessoa alimenta, agarrem-se os sonhos que mais se acalentam, pois desesperar ou desanimar deve ser descartado.

 Face ao exposto, será possível, agora, descortinar a incógnita na seguinte equação?!

   Narciso é amigo de Beto e irmão de Berta que é amiga de Romi – estejam atentos! –; os dois irmãos aproximaram Beto e Romi que, aos poucos, foram convivendo e sonhando, tornaram-se mais atentos na Faculdade, procuraram-se no café, conversaram nos tempos livres, construiram ou descobriram identidades, convergiram nos afectos, desejaram-se na magnética envolvência dos impulsos mutuados.

    Beto e Romi acabaram por ficar juntos (por acaso, até casaram), e a felicidade de ambos durou, mais ou menos, o tempo que costuma durar a felicidade dos conjuges que casam por amor. Pois, também acho; permanece a incógnita, mas mais não lhes sei dizer; contudo, "escutem" o Fernando.

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domingo, 21 de abril de 2019

PRESENÇA AUSENTE


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Do que fica passado no presente
só de reter daí o movimento
faz sentir na ferrugem dissidente
embalos de fantasmas a contento

O sol sem se mover é ponto assente
faz-nos perder a noção de relento
tão tonta circular que não desmente
fechar-se para se abrir ao intento

de inovar fantasias sem formato
já que perras voláteis e vazias
persistem na nudez do desbarato

Contudo dir-te-ei por ser tão cedo
que há quem entretenha os seus dias
dormindo à sombra do arvoredo

quinta-feira, 18 de abril de 2019

NAS VEIAS DO POEMA


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Todo o sentido sabe sem saber
como fluir pelas veias dos versos
nas palavras vívidas do viver
reunindo os tais espinhos dispersos

Todo o dilema procura prever
dos rumos o melhor dos mais preversos
já longe dos abismos por rever
mais perto de certos sinais imersos

Mas na fuga cismada dos caminhos
fechados em redor do pensamento
ao pensar soletrar um alter ego

só lemos em espelho os desalinhos
que nos cindem no furto do momento
na razão virtual de quem é cego*


NOTA: * De cegueira psicológica, de embotamento, de anestesia moral - denegação.


     NOTA 2: Uma Santa e cordata Páscoa para todos os leitores.