sábado, 24 de abril de 2021

 SOLDADOS D'ALÉM - MAR

(1961-1974)


Como se não soubessem de que sorte

eram feitos os feitos dos seus dias

marcharam de mãos dadas com a morte

crianças fardadas de aleivosias


São meninos trajados de mau porte

dos berços roubados a mães e tias

tão inermes nas garras do mais forte

preterindo as mais belas fantasias


No mapa da saudade traçam rotas

muitas vezes sem volta nem lonjura

como se da vida tomassem notas


perdidos nos meandros da guerrilha

e sem cessar congraçam a loucura

colapso que nunca mais desfibrilha.


25 de abril de 2021


NOTA:

A revolução de 25 de abril de 1974 não se consumará nunca enquanto forem esquecidos os veteranos de guerra.

Exige-se reforma/aposentação por inteiro, independentemente da idade e do serviço prestado; impõe-se serviço medico-medicamentoso e apoio psicológico gratuitos.


MANUEL BRAGANÇA DOS SANTOS

segunda-feira, 8 de março de 2021

VALERÃO AS VERTIGENS?



                             Valerão as vertigens desse dia

                             a chama sensual tida fiança

                             porque de sol a sol o tempo dança

                             na rota dos sentidos em folia?


                              Inermes são na vala sem valia

                              reféns no lado de fora da hansa

                              vexados pelo fiel da balança

                              nas sortes do corpo que refulgia


                              O mais cruel triunfo das noitadas

                              é tão fugaz e vão à luz da lua

                              e cede de repente às madrugadas


                              de sede dessa tua pele nua

                              como se p`ra caminhar de mãos dadas

                              fosse mesmo preciso ter a rua


Nota: Imagem da net

 

sábado, 12 de dezembro de 2020

ROUPA-DE-FRANCESES*


Tu não és como roupa-de-franceses

porque já me pertences sevilhana

depois de teres dito algumas vezes

me gusta la pulsión lusitana


Diz trapos e farrapos dos soezes

sopros da tua boca mariana

fazer prazer sentido todos os meses

nos dias da loucura mais insana


Tu sabes que te quero à queima-roupa

no fogo de te sabre bem despida

pois nos beijos trocados ninguém poupa


Badiana meu anis-estrelado

aroma tão frutado suicida

serás sempre sem ser o outro lado.



Nota: Roupa-de-franceses - coisas que todos julgam poder utilizar sem licença do dono.



* imagem do Google

quinta-feira, 8 de outubro de 2020

OLHA BEM

 


Olha bem a nudez da Primavera

e a sua certeza decidida

o milagre mágico que supera

o torpor de toda a seiva devida


Das flores perfumadas quem me dera

ter uma só de pétalas despida

ao saber que no sonho prolifera

o germe da palavra colorida


O abismo fatal que se desenha

no fascinante papel abissal

pode ser mais ou menos a resenha


ou falha de jamais vir a ser dito

tudo o que no poema mais letal

se calou para poder ser descrito

 

HISTÓRIAS DA HISTÓRIA

 


NOTAS DE LEITURA

Sobre

ESCREVER NO PÓ

-- Histórias da História --


ESCREVER NO PÓ – Histórias da História é uma publicação dada à estampa em Janeiro de 2020, pelo professor, poeta, blogger e escritor João Bragança-Santos, a qual tivemos já o privilégio de ler. Trata-se de dez Histórias hábil, histórica e literariamente (d)escritas, onde estão bem patentes, não só o seu talento de homem de Letras, mas também o seu profundo conhecimento da matéria em apreço – a História de Portugal.

Como referiu Foucault, a ligação do presente ao passado deve processar-se em modo de integração progressiva, uma vez que o passado (histórico) é O Chão de todos os Sentidos da humanidade do presente. E João Bragança-Santos torna isso muito claro, quer na forma quer na substância como nos integra nos meandros do seu contar, na vivacidade conceptual do sintagma, nas significações com que nos presenteia os tiques patognomónicos dos reis, dos príncipes e das princesas. A História é sempre muito mais o protagonismo dos tiranos do que a ignorada necessidade dos povos.

O desenvolvimento tecnológico faz parte da História dos Homens, e tem servido, inexoravelmente, para sofisticar a dominação das minorias sobre as maiorias – atente-se nas Novas Tecnologias de Comunicação e Informação –, pelo que, esta oportuna publicação de bolso poderá contribuir também para instaurar hiatos no tempo de viciação e dependência das redes-virtuais-ditas-sociais, em todos quantos tenham o rasgo de a adquirir e ler e reler, furtando-se ainda ao pensamento único, pré-formatado do discurso da propaganda-geral-global veiculado pelos media, sejam analógicos ou digitais.

ESCREVER NO PÓ – Histórias da História, de João Bragança-Santos é uma obra notável, a não perder. Pedidos através do processo que o autor entender implementar.


Em 7 de Setembro de 2020


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Humberto Maranduva

 

domingo, 9 de agosto de 2020

VIÇOSO CIO

 



                     Estou farto do pasmo e da tristeza

                     das noites que passo sem aconchego

                     por isso sinto hoje este apego

                     de lograr para mim tanta beleza


                    E na voz do meu ser esta firmeza

                    de saber do teu corpo o meu sossego

                    ou feitiço quem sabe do borrego

                    por queimar no altar da Natureza


                    Na dor teço miragens se não vens

                    para ter do conceito sensações

                    secreta bailarina dos haréns 


                    Nas sedas e cambraias perfumadas    

                    assoma de ternuras e tições  

                    um vigor esboçando madrugadas 



Imagem do autor

terça-feira, 4 de agosto de 2020

VIANJANTES DO PENSAMENTO





Somos viajantes do pensamento
sem saber como nos topografar
errando pois de forma circular
sem já pensar em nome do momento

Somos a nudez crua do sarmento
sem querer nem poder onde ficar
mecânico tropismo de gozar
tão vil e melancólico tormento

Desejar já sem alvo definido
mascara tudo quanto não podemos
sequer configurar no mal vivido

de cultivar de vez torpes manias
fazendo jus a ter o que não temos
pelo prazer de tantas disforias


Imagem do Google