terça-feira, 4 de agosto de 2020

VIANJANTES DO PENSAMENTO





Somos viajantes do pensamento
sem saber como nos topografar
errando pois de forma circular
sem já pensar em nome do momento

Somos a nudez crua do sarmento
sem querer nem poder onde ficar
mecânico tropismo de gozar
tão vil e melancólico tormento

Desejar já sem alvo definido
mascara tudo quanto não podemos
sequer configurar no mal vivido

de cultivar de vez torpes manias
fazendo jus a ter o que não temos
pelo prazer de tantas disforias


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sexta-feira, 24 de julho de 2020

SÓROR SAUDADE





Agora recordar Sóror Saudade
no mapa cor-de-rosa do destino
     não despe das imagens sem idade
 o rigor das fracturas que confino

                              E falava Flor-Bela da verdade
                              de sofrer esquecida sem atino
                              sozinha sem prover alteridade
                              orgulhosa do nada mais divino

                              Não me cantes das grades da janela
                              estranha diferença que me cinge
                              se sabes não haver coisa mais bela

                              do que ter o sinal tão sem limites
                              de que nenhuma força te restringe
                              na matriz das palavras sem rebites


*Sóror Saudade – A poetisa Flor-Bela Espanca (1894-1930) é a autora da obra, “O Livro de Sóror Saudade”, publicada em 1923.


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sábado, 18 de julho de 2020

SÊ COMO AS AVES





  Se não somos árvores nem arbustos
                            por que razão nos dizes ter raízes
                            não vês as aves sempre tão felizes
                            voando livres soltas e sem sustos?

                            Ei-las em novos ninhos mais robustos
                            nos ventos lúdicos e nos matizes
                            do tempo sem que tracem directrizes
                            nos céus de luz alegres e vetustos

                            E se viver é torcer o destino
                            abre as asas libertas de cadeias
                            na fuga do fado mais assassino
                      
                            e podes bem verter em plenitude
                            para agarrar o Norte já sem peias
                            as pulsões desusadas de virtude

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segunda-feira, 13 de julho de 2020

UM GRITO SURDO DE PANDEMIA




 Bruscos leves os gritos suturados
                              pela febril placidez dos caminhos
                              escancaram medos inacabados
                              afectos sem pontes nem pergaminhos

                              Furtam-se agonizantes e cansados
                              colhidos no torpor de passarinhos
                              não voam mas marcham como soldados
                              para lá das trincheiras de seus ninhos

                              Na volta da tal estrada pandémica
                              só pula desordeira a propaganda
     Céus e Terra fervilham de polémica

                              patética censura desvairada
                              selecção delirante e sem demanda
                              omissão já sem tempo já sem nada


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domingo, 5 de julho de 2020

O INCESTO MAIS INSÓLITO

     


     No dia 3 de Julho de 2020, nos canais televisivos da nossa rectangularidade europeia, veio a lume a notícia de teor espectacular, especular, escandaloso, demencial, do incesto perpetrado, a meio da noite, por um sujeito alcoolizado, na pessoa de sua mãe, de sessenta e tais anos de idade, tendo o acto configurado, alegadamente, a violação consumada. Só devido a este aspecto particular, o filho terá de responder perante a Lei, uma vez que o incesto consensual (+ 18 anos) não constitui um ilícito criminal, de acordo com a lei portuguesa, de resto, como acontece na Natureza.

    Segundo os entendidos na matéria, trata-se de uma ligação entre familiares, de cariz sexual, mais vulgar do que seria de esperar, sendo, aquela a que se alude no primeiro parágrafo do texto, a de mais rara concretização, tal como ocorreu entre Édipo e Jocasta, na tragédia Édipo Rei, de Sófocles. Não tão raro mas, ainda assim invulgar é o incesto praticado por irmãos, e aqui recordamos o amor de CarlOS da MAIA(S) e Maria Eduarda, (re)criado por Eça de Queirós. Já o mais usual – releiam o conto A Princesa Pele-de-Burro –, mesmo que, aqui e ali movido de forma inconsciente, condensada, avessa, compulsiva e mórbida, é o incesto entre o pai frouxo, imaturo e a filha que é levada, a contra-gosto, a ocupar o lugar da mãe, como acontece no romance de M. Bragança dos Santos, “As Cores da Alma”, com as personagens Marcelo e Agripina.

   Contudo, no caso dos irmãos, acontecem, por norma, as   curiosidades sexuais-pré-genitais, os esboços lúdicos (passageiros) de reciprocidade proto-erótica, não devendo estes descambar em viciação-fixação. Estas manifestações de sexualidade pré-pubertária, com a idade, evoluem, rapidamente, depois das pulsões parciais infantis terem dado lugar à genitalidade normal, definitivamente configurada, maturada, no âmbito da relação objectal, onde tem de prevalecer a sensualidade, que o desejo sonda, fora do corpo do próprio.


   Caso contrário, se, no devir cronológico da adolescência, o sujeito mantiver uma fixação às pulsões parciais, manter-se-á estagnado, sem resolução edipiana nem ganhos super-egóicos, no domínio da perversão auto-erótica, na pré-genitalidade, não sendo capaz de crescer afectiva e emocionalmente, não conseguindo nunca lidar com o real do sexo, nem com os outros. Assim, comprometerá a sua identidade, individuação, afirmação, autonomia, inserção e pertença. Conforme Lacan afirmou nos primeiros anos de 1960, o sujeito deve, a um tempo, sentir a necessidade de inclusão e separação, para ser quem é; não permitindo que o ego seja joguete das exigências do id ou das cedências do superego; furtando-se a cavar a infelicidade daqueles com quem se relaciona doentiamente, como no incesto noticiado no dia 03 de Julho de 2020.

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segunda-feira, 29 de junho de 2020

A COEXISTÊNCIA PACÍFICA






      O ser humano – qualquer ser humano – tem necessidade absoluta de sentir que vive uma existência pautada pela autenticidade, a saber, quando esta diz respeito ao próprio, sem desvios nem distorções, e, portanto, eivada de verdade e sinceridade autoral. Contudo, o quadro não estaria completo se, por acaso, faltasse uma outra componente indispensável ao comportamento humano saudável: trata-se da espontaneidade – qualidade que leva o sujeito a agir de forma natural e voluntária, isto é, de moto-próprio, em função dos seus interesses pessoais, mas sem prejuízo de ninguém. Por último, e para que a vida não deixe nunca de fazer sentido, importa que o indivíduo – que é um ser social – saiba assumir o seu papel criativo face aos demais, privilegiando atitudes, interacções, idiomatizações construtivas, edificantes, convenientemente diferenciadas e originais, sempre que se lhe deparem situações novas no devir do quotidiano.

            Não obstante tudo isto, é precisamente no dia-a-dia das comunidades que mais se constatam atropelos à liberdade do outro, devido à complexa teia de interesses em confronto, à total ignorância de referências éticas e morais, à recusa de reflexão sobre a realidade histórico-filosófica que constitui o entorno onde se plasmam tais sistemas de intersubjectividade relacional. Ora, a percepção que temos do outro é-nos dada não só pelas sensações imediatas, mas também pelo capital de aprendizagem que vamos acumulando ao longo da existência, sabendo ser e estar através dum constructo com referências atinentes ao espaço e ao tempo, onde caiba o sujeito (soma e espírito), capaz de se afirmar livremente, sem prescindir da legitimidade do seu próprio projecto de vida.

            Contra tudo e contra todos, cada vez mais difícil tem sido suportar os cantos de sereia que vão ecoando por todo o lado, a torto e a direito, sem dó nem piedade, e que vão transtornando as cabecinhas de quem dá mais importância  à alienação digital e às dependências várias, em detrimento dos livros, da leitura, da Escola – isso, com “E” maiúsculo –, do desporto, recorrente e racional quanto baste para ser salutar, das conversas mental e afectivamente revitalizadores, claro, frente-a frente, face-a-face (vade retro, on-line), dos serões em família, para que os filhos possam ser merecidos e saibam aprender a merecer os pais.

            Claro, tudo isto tem a ver com as relações humanas, mas não caiam no absurdo e no ridículo de esgrimirem lutas balofas, espectacularmente decadentes, esquizofrénicas, onde tudo se confunde para melhor confundir os incautos, utilizando a lixiviação da palavra escrita, banindo-a, simplesmente, abastardando-a, mutilando-a ou negando-lhe a sua própria história, a sua etimologia, como se tudo fosse à vontade do freguês bacoco e ignorantão. Sim, a referência é, também, àquela empresa francesa que deixou de escrever nos seus produtos de limpeza a palavra “branquear”, para não ser vista como racista (?!!!). Acham que deva eliminar a palavra “claro”, no início deste parágrafo?!


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domingo, 21 de junho de 2020

ESTAÇÃO COVID-19


             
                                             

             Num momento tão sensível e ambíguo como o actual (1.ª metade de 2020), em que um vírus invisível (novo Corona-Vírus) ameaça a sobrevivência da espécie humana, a nível planetário, não pode haver lugar ao desdobramento das subjectividades tão típicas da diversidade conceptual cultivada pelos indivíduos ou grupos; às suas idealizações narcisistas, egocêntricas ou auto-eróticas; às interpretações divergentes; ao individualismo; às acções isoladas; ao erguer patético de uma Babel dessignificada.

            O novo Corona-Vírus não é um ser vivo, mas se lhe for facilitado um ambiente propício, leia-se as vias respiratórias dos seres humanos, aquele poderá potenciar uma forma de vida rudimentar, parasitária, algo no limiar da molécula e da vida, mantendo-se incapaz, contudo, de pertencer a qualquer estrutura biológica, pois não transformará nunca a energia autonomamente, ceifando, portanto, as vidas dos incautos hospedeiros.

            Nesta conformidade, se o valor da vida humana não for tido em conta como o primeiro e o mais importante, então, toda a saga civilizacional, ainda que considerando todas as suas oscilações mais ou menos demenciais, terá chegado ao seu ponto de oclusão. No âmbito realista da interpretação do mundo, tal como ele se nos apresenta, devemos tentar compreender, aceitar, apoiar e validar o esforço hercúleo da ciência médica e social, no sentido da tentativa de percepção, interiorização, harmonização, correcção e inversão deste surpreendente ataque à manutenção da vida.

            Sob o ponto de vista da investigação teórica e da sua consequente metodologia programática e pragmática, o paradigma deve assentar na arquitectura da racionalidade científica, através da convalidação do empirismo evolutivo (método científico), isto é, sempre ancorado em resultados práticos verificáveis. Estes, contudo, devem afirmar-se por meio de modelos analíticos qualitativa e quantitativamente aceites, capazes de satisfazer os valores da vida social saudável e as necessidades legítimas do colectivo.

           Neste quadro, têm de ficar fora de questão os conflitos sociais, a subjectividade particular ou grupal, a ambição, a ganância e as tensões de poder, para que seja possível a ordem, a uniformização dos valores fundamentais (universais) e a reposição das condições de manutenção da vida. Sendo assim, o foco é apenas um, precisamente porque tanto serve ao indivíduo em particular como à sociedade em geral.

            Como escreveu Emmanuel Lévinas (1980), estamos primordialmente vinculados ao outro, mesmo que essa experiência tenha ocorrido para uma consciência pré-reflexiva. O vínculo ao outro é estrutural e estruturante para o sujeito; matar o outro é cometer suicídio. Continua, afinal, a estar tudo nas mãos do Homem!


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