terça-feira, 17 de abril de 2018

APRENDIZAGEM EFECTIVA




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Num escrito agora revisitado, onde procurámos recordar as ínvias contradições dos curricula, mormente no que diz respeito aos aspectos desviantes de alguns dos seus componentes, uma vez que tudo é curriculum na vida de uma criança, concluímos com a ideia de que o enquadramento ensino/aprendizagem tem sido, devido ao facto, profundamente prejudicado. Sabemos do que falamos: nos últimos anos do século XX integrámos a co-autoria da obra A Construção do Currículo na Escola, cuja publicação sugerímos à Porto Editora. Desta feita, no entanto, vamos reflectir sobre o conceito de aprendizagem activa.

    Aquando do nascimento de qualquer indivíduo humano, muito pouco dos comportamentos observados no bebé é inato, exceptuando o impulso da sucção, os processos de maturação do crescimento e o cansaço resultante de esforços exagerados. Tudo o resto, como a locomoção erecta, a linguagem e todo o conjunto alargado de aquisições culturais, resulta de um continuum de aprendizagens obtidas na micro-sociedade familiar, na sociedade mais ampla que é a escola e, por fim, na macro-sociedade. Todas estas aprendizagens, portanto, são passíveis de operar mudanças comportamentais verificadas em resultado da experiência intrapessoal e intersubjectiva relacional.

            Quanto mais experiências vivenciar a pessoa, melhor; aquelas acumulam no cérebro de cada um aquilo a que o médico inglês F. Semon (1849-1921) chamou  as engramas de memória; estas elucidam sobre a interpretação de futuros protagonismos individuais ou colectivos. A memória, contudo, pode ser curta ou estendida. A primeira pode diluir-se de imediato ou durar apenas escassas horas; já a segunda beneficia do desaparecimento da primeira, uma vez que o cérebro selecciona (memoriza) os dados realmente importantes para o indivíduo, necessitando de espaço para o efeito.

            Segundo a Psicologia do Desenvolvimento, o primeiro processo de aprendizagem conta com a percepção impressiva, que actua logo após o nascimento, particularmente nas aves – fizémos a experiência com uma rola brava tombada do ninho –, e que alicerça a ligação do recém-nascido à mãe, na consolidação da marcha do desenvolvimento. O segundo modelo processual radica a aprendizagem ao condicionamento de resposta estudado por Ivan Petrovich Pavlov (1849-1936), no âmbito do qual a transferência de um estímulo para outro resulta da capacidade de evocar uma reacção emocionalmente matizada. Já o terceiro processo de aprendizagem liga-se ao condicionamento dinâmico, estudado por Skinner, cuja resposta é tanto mais potenciada quanto mais aliciante for a meta a atingir; acrescente-se que, neste caso, este tipo de aprendizagem tanto pode funcionar para o bem como para o mal.

            Convém, contudo, salvaguardar a distância que vai da teoria à prática da vida. Em contexto real multiplicam-se as situações específicas de condicionamento da percepção impressiva, da capacidade de resposta e da dinâmica operacional. Para além disso, não ignoremos a diferenciação idiossincrática dos indivíduos, a determinar susceptibilidade na forma de responder aos mesmos estímulos, bem como nas maneiras de interpretar as motivações. Sendo assim, a efectivação das aprendizagens varia, quer em qualidade, quer em quantidade, sendo também sensível ao contexto, pelo que, sobre esta matéria, nada é peremptório nem definitivo.

DOCÊNCIA: NEM MISSÃO, NEM SACERDÓCIO!




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            Urge que alinhemos algumas ideias, de novo, sobre o assunto, já que se trata de uma questão de honra. Não podemos, nem devemos, cruzar os braços. Só se é cidadão de facto e de pleno direito, quando se exerce, efectivamente, a cidadania.

            Em Portugal, existe apenas uma escassa minoria de pessoas, devidamente esclarecida e informada, que consegue e/ou aceita ler, realmente, os acontecimentos, os eventos, o desenrolar do quotidiano nas suas várias vertentes, a saber: política, sociológica, económica, financeira, psicológica, informativa, etc., etc., etc.. Logo, mesmo do reduzido universo de todos quantos o conseguem fazer, a maioria, cultiva opcionalmente a ignorância, omite ou distorce a realidade, sempre que tal lhe convém, por motivos óbvios, mas sempre inconfessáveis.

            Relativamente à docência, que constitui hoje a nossa motivação dissertadora, importa alertar as pessoas de boa vontade para o logro a que têm sido forçados aqueles que a exercem com denodo, com paixão, com estoicismo, com alma e coração, mas sem nenhum tipo de missão ou sacerdócio, já que estes dois últimos conceitos nada têm a ver com a capacidade técnico-científica e lectiva (sociopsicopedagógica e didáctica fundamentalmente) do professor, seja ele mestre ou doutor, cuja actividade profissional se caracteriza pelo seu conteúdo funcional sempre linear, do primeiro ao último ano.

            Também por isto, o Estatuto tem constituído uma incompreensível amálgama de equívocos. Pretendeu-se sempre – agora mais do que nunca – confundir as coisas, desvirtuando quer o estatuto, quer o papel destes intelectuais, no sentido de os desacreditar junto da opinião pública. Matam-se assim dois coelhos de uma só cajadada: por um lado, retiram-se competências, atribuições, dignidade, independência, autonomia, capacidade de progressão funcional, de serem remunerados por mero direito de justiça os professores, sobrando, portanto, alguns cobres mais à tutela para esbanjar em loucuras inconsequentes; por outro lado, com o desânimo dos docentes, a população escolarizada tende a crescer mais embrutecida e manipulável. Bonito, sim senhor! Desta maneira, as alegadas reformas, não passam de tretas por explicar.

            Depois de queimada a primeira década deste ingrato século XXI, e depois da alteração cirúrgica – foram apagados os professores titulares do estafado e intragável novo/velho Estatuto Docente, publicado em Janeiro de 2007, continua a docência a traduzir-se no incomensurável labor, abstrusamente regulado por aquele documento, sem deixar nunca de constituir a prestação de um serviço de carácter fisicamente demolidor, intelectualmente arrasador, humanamente abrangente... Meus senhores! A docência é o exercício capital do Magistério do conhecimento e dos valores, da socialização e da solidariedade, da integração social e cívica, participada e participativa, e da convivência pacífica e democrática, já hoje, dos homens e das mulheres de amanhã... se o houver!

            Já por missão, entende-se algo ligado a uma incumbência ou encargo, de duração variável, de maior ou menor importância ou responsabilidade, em sentido lato, claro. Cada indivíduo, no seu desempenho profissional, cumpre, necessariamente, todo um conjunto de missões diversificadas, particulares, que visam, no fundo, a satisfação cabal da tarefa geral que lhe incumbe realizar.

            Por sacerdócio, e para que não restem dúvidas, entendem-se, estritamente, as funções atribuídas aos sacerdotes, como o exercício do poder espiritual, no quadro de uma qualquer prática religiosa, em local próprio, que não (n)a escola. Tal tarefa, como é sabido, tem estado apenas a cargo de homens que fizeram previamente voto de castidade, de celibato, ordenados pela IGREJA...


            Pois é! Com o desnorte e desconchavo que cada vez mais vai caracterizando as políticas, os governos e a sociedade, parece que muito boa (má) gente continua disposta a encarar, com a maior naturalidade, a total e completa inversão de estatutos e papéis entre  docentes e sacerdotes: os padres passariam a poder casar e ter filhos, constituindo família; os professores, vitaliciamente castos e celibatários, teriam de velar, 24 horas por dia, pelo vasto rebanho da criançada escolarizada. Não querem mais nada?!          

OS CURRICULA DISCREPANTES




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            Numa sociedade cada vez mais descaracterizada por enredos absurdos, que a desregulamentação dos mercados teima em balizar, submetendo tudo e todos aos ditames implacáveis do capitalismo desenfreado, neo-liberal, frio e indomável, quem mais sofre são já os velhos e as crianças. Mas, hoje, ocupar-nos-emos das crianças, nomeadamente no âmbito da questão educacional, tão malbaratada em nome de desígnios economicistas inconfessados e inconfessáveis, porque temos estado todos, nesta pobre e velha Europa, principalmente, quer queiramos quer não, ao serviço desse esquizóide monstro sem valia humanitária e civilizacional.

            Pensamos que concordarão connosco se lhes dissermos que, quanto mais preocupados (se calhar, angustiadamente apavorados) estivermos com os problemas inerentes à nossa segurança económica e financeira, ao nosso emprego ou falta dele, à indefinição do futuro, já para não falar de outro tipo de ameaças que pairam no horizonte, menos disponíveis nos encontraremos para fazer face às prementes necessidades dos nossos filhos e netos, não só no seio familiar, mas também em contexto escolar. É que as crianças têm sido deixadas a uma aflitiva deriva, em ambos os enquadramentos a que atrás se alude.

            Nesta conformidade, e porque os homens de amanhã começam, já hoje, prematuramente, a ser abandonados à sua sorte, verificamos que as motivações são distorcidas, os valores são deformados, os vícios distendidos, o convívio, de cariz narcisista e tautológico, não visa o enriquecimento relacional colectivo da juventude, mas tece-se antes nos teares virtuais da internet, da perniciosa ilusão fantasmagórica que a vacuidade televisiva nos despeja em cada uma das casas que já não a dispensam; ainda nas famigeradas e atrofiadoras consolas dos denominados jogos de vídeo.

            Cingindo-nos então às crianças, diremos não ser de espantar que este terrível pacote, de influência poderosíssima, consiga desviar, alienar esses seres em formação, tornando-os pouco sociáveis e nada saudáveis, porque de ocupações solitárias se trata; deveras inseguros, porque não canalizam nem dimensionam a sua afectividade no sentido do desenvolvimento da sua emocionalidade, interagindo vivencialmente com outras crianças da sua idade; problematicamente tensas, porque esbanjam horas a fio, especadas frente às máquinas, numa gestão de sensações disruptivas muito mal digeridas, pior estruturadas ou até mesmo heteroclitamente desconchavadas.

            Ademais, sempre que as crianças não recriam devidamente as suas emoções; quando não condimentam as suas energias e respectiva aplicação de forma socializante e harmónica, porque se encontram cativas de enredos e esquemas mercantis, alegadamente lúdicos ou tidos como diversão de efeitos mais que perniciosos, geram-se comportamentos desviantes na sua maneira de ser, na sua natural capacidade de dirigir a atenção para as coisas que realmente interessam, como é o caso das matérias curriculares de eleição, a exigir concentração e aprendizagem.

            Um destes tipos de desvio prende-se com aquilo a que Barkley (1990) designou como o “distúrbio hiperactivo de défice de atenção”, hoje cada vez mais comum, em maior ou menor grau, nas crianças que todos os dias demandam os aberrantes mega-agrupamentos.

            Trata-se de um tipo de perturbação que fere de “morte” a motivação, a atenção e a concentração, sendo estas as pricipais vertentes responsáveis pelo exercício do papel fundamental de acicate em todo o processo de aprendizagem activa das crianças, visto predispor afectivamente os meninos, através da curiosidade, do interesse, da participação, do empenhamento; funcionam afinal, quando em alta, sendo aquela, pelo contrário, susceptível de disfuncionalizar toda a ambiência lectiva, na sua vertente mais nobre – a do enquadramento ensino/aprendizagem –, quando em défice.

terça-feira, 3 de abril de 2018

PENSAR DÁ QUE PENSAR



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            Wilfred Rupert Bion (1897-1979) foi quem mais terá pensado sobre este assunto: o pensamento. Segundo Bion, tudo tem o seu início na relação pioneira com o outro – a mãe. Esta seria a condição sine qua non para a constituição e funcionamento do aparelho psíquico; a partir da elaboração de uma “narração” dirigida ao pai, através do  psiquismo materno, as primeiras produções psíquicas do bebé transformar-se-iam em pensamentos. Melhor, o pensamento aqui cinge-se ao âmbito boca-seio e estende-se a uma relação continente-conteúdo, passível de melhorar a satisfação da experiência emocional, ampliando o enquadramento do objecto parcial; uma vez introjectada, a experiência fará parte da função alfa.

            Sobre este processo Bion afirmou que: “o que era, no princípio, a conversação da mãe, no exercício de uma função rudimentar de designação, é substituído pelo balbuciar próprio da criança” – lalação – (Learning from Experience, p. 111). Com o seio ausente, no entanto, a pré-concepção do mesmo liga-se a uma frustração e a criança vive a experiência do não-seio; este transformar-se-á em pensamento se o bebé possuir suficiente capacidade para tolerar a frustração, enriquecendo o aparelho para pensar os pensamentos, aprendendo com a experiência. Caso contrário, o bebé evacuará projectivamente os maus conteúdos experienciados pelo ego, alojando-os no continente.

            Pensar, contudo, faz parte de um processo cognitivo generalizado que não vive apenas da percepção. O pensamento recorre sem cessar a representações mentais imagéticas, à reorganização interna do nosso vivido subjectivo, da nossa consciência auto-biográfica, da consciência alargada, memória, inteligência, das experiências sensoriais, também no âmbito mais lato do imaginário conceptual e simbólico. O indivíduo pode controlar o seu pensamento ou, ao invés, deixar-se levar pelo mesmo: nas psicoses ou como quando sonhamos acordados e somos embalados por devaneios fantasiosos, movidos a partir do inconsciente.

            Jean Piaget (1896-1980), psicólogo suíço, estudou em profundidade as várias fases do desenvolvimento da criança relativamente ao pensamento. Neste mesmo espaço, publicámos já dois escritos sobre a temática: “Os Legados Conceptuais de Piaget” e “As Descobertas de Piaget”. Sendo assim, não repetiremos aqui e agora o teor dos mesmos.

            A espécie humana comunica por meio da linguagem, embora pense, sobretudo, através de imagens. Linguisticamente, as palavras são signos arbitrários, providos de duas faces como se de uma moeda se tratasse: de um lado temos o significado, isto é, a coisa nomeada e, do outro apresenta-se-nos o significante, quer dizer, os símbolos gramaticais codificados. Desta maneira arquitectam-se os conceitos utilizados na linguagem, e a interiorização dos mesmos ao nível simbólico torna possível a transmissão do conhecimento inerente aos factos, através dos espaço e do tempo.

            Uma última referência ainda, embora breve, às disfunções do pensamento: estas podem afectar tanto o conteúdo como a forma do pensamento. Nos doentes mentais verificam-se este tipo de perturbações, como a perda da capacidade de conceptualização, de simbolização, o distúrbio na forma de leitura da realidade, na manutenção das relações inter-subjectivas comunicacionais, o que pode configurar no doente aspectos regressivos, indutores  do pensamento primitivo, mágico e solipsista infantil.

           



SUBLIMAR É ELEVAR




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            A capacidade de sublimação é prerrogativa apenas do ser humano. Trata-se, portanto, de um mecanismo libertador de dinâmicas fantasmáticas que escapam ao recalcamento, pela susceptibilidade de serem transformadas em algo elevado, social ou culturalmente; isso passa-se com os instintos primários do indivíduo, com os seus impulsos ou com outro tipo de tendências marginais não educadas. Assim, a transformação a que nos referimos caminha no sentido do transcendente, quer ao nível do pensamento, quer da ética e da estética, quer ainda no que diz respeito a todas as formas de expressão artística.

            Dotada deste extraordinário privilégio, a espécie humana, deste há tempos imemoriais, tem conseguido erguer essa eficaz defesa do self, no seu próprio interesse, e caso não enferme de psicopatologias impeditivas – enfim, as coisas variam de sujeito para sujeito e de sociedade para sociedade–, integrando na personalidade os impulsos e pulsões pré-genitais, devido à transfiguração positiva destes no âmbito social e cultural. Em termos técnicos, e tal como se aprende em Psicanálise, tudo não passa de um fenómeno psicodinâmico inconsciente de substituição, de um impulso infantil.

            Sublimar advém, a um tempo, etimologicamente, do grego e do latim, e reflecte o conceito de “elevar, levantar”, conforme o título em epígrafe. A noção de sublimação foi inicialmente lidada por Freud (1856-1939), tendo este discernido sobre o assunto na sua obra “Três Ensaios Sobre a Teoria da Sexualidade”. Segundo a sua hipótese, no indivíduo, a finalidade sexual seria objecto de um desvio para uma finalidade não sexual, ou seja, o crescendo da excitação sexual seria redireccionado, idealmente, no sentido de potenciar a elevação das aptidões psíquicas, conforme teor do primeiro parágrafo.

            Mas Freud também considera que este processo pode ser completo ou imcompleto, o que determina que, por mais talentoso que seja o artista, a análise caracterológica do mesmo é passível de revelar a proporção existente entre capacidades, perversões e neuroses, dado que é sobre os fundamentos orgânicos do carácter que se constrói o edifício psíquico. Este aspecto particular da questão em apreço subentende a relação dialéctica intrínseca entre as tendências instintivas, as repressivas e a capacidade de sublimação, que a educação potencia.

            Tanto quanto nos parece, Freud estava ciente das subtilezas inerentes ao fenómeno estudado, nomeadamente, no que toca à complexa relação de sujeição dicotómica entre o biológico e o social, o que coloca de parte, desde logo, a própria liberdade do Eu, que a representação dos interditos (super-eu) condiciona. Esta, porém, varia em função da época sócio-história em presença, como é fácil de perceber, tendo em conta o enquadramento ideológico de cada uma delas e a diversidade das representações sociais, culturais e organizacionais.

            Uma última ideia apenas, para referir que nenhum nexo de causalidade é só isso e nada mais, mas que o efeito determinado também é, simultaneamente, dinâmica causal; para além da reciprocidade activa dos fenómenos e da sua influência mútua, pode verificar-se uma descaracterização identitária oponível que leva à alternância dos papéis iniciais, num encadeamento de causalidades. Não podemos, portanto, entender como linear o conceito de sublimação.

CRÓNICA FRAGMENTÁRIA




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            Em cada dia que passa, a rotina desdobra-se indecifrável para poder ser, por isso mesmo, de leitura impenetrável, sem deixar de obedecer a um inelutável paradigma de repetição, que tece o quotidiano com os velhos fios de um atavismo estafado
            -- Bom-dia, menina Alice
            mais pelo esforço de se tentar legitimar aos olhos da comunidade do que pela consumição de se reinventar ante a modorra repetitiva dos mesmos gestos de sempre,
            -- Menina Alice, entregue este livro, por favor, ao Sr. Ventura; diga-lhe que é da parte do Queirós
            porque as pessoas exigem – e isto a título de exemplo, a atenção imediata da menina Alice, nem que ela esteja ocupada, rotinada, como é o caso
            -- Ah!, fica-lhe tão bem o vermelho
            e o livro em cima do balcão da recepção do ginásio, à espera da atenção da menina Alice [no País das Mil-Ervilhas, (rasteiras ou de trepar)], por agora dirigida para o casaquinho de lã encarnada que a Susaninha envergava naquela manhã gelada de Primavera
            -- Deixe ficar o livro, Sr. Queirós
            a fazer pensar duas vezes os utentes da Catedral-do-Esforço-Físico-Voluntário-não-Remunerado, antes de optarem pela rotina dessa mesma dinâmica narcisista diária ou por outro qualquer culto menos exposto e agasalhado
            -- Vou subindo, então, obrigado
            que isto de deitar cedo e cedo erguer para ir ao ginásio e voltar, significa despir a roupa e vestir o pijama, na véspera; despir o pijama e vestir a roupa, logo cedo pela manhã; já no ginásio, despir a roupa e vestir o fato de treino; depois do exercício, despir o fato de treino, tomar banho e vestir a roupa
            -- Bolas, menina Alice, que rotina enfadonha
            mas é claro, nus é que não podemos andar, que isso é que precipitaria as constipações e as gripes e as pneumonias e outras manias voyeuristas ou não, quem sabe, para além da necessidade de acautelar as miudezas pendentes, nem é bom pensar
            --  Não querem lá ver o desconchavo?!
            que a Susaninha chama-se assim, mas já tem 50 anos bem medidos e lembra-se do 25 de Abril, mas não tem memória da morte de Oliveira Salazar, o tal das rotinas, da modorra e do autoritarismo impertinente, e que deu uma queda fatal em 1968 e todos pensaram que tudo ia mudar, mas não. Permaneceu o atavismo requentado, fastidioso, revigorado por Marcelo Caetano até 1974. Bem, ainda hoje (às Centenos) permanece muitíssimo desses tempos de tão mau dano. E já lá vão 44 anos. E o Queirós a contar o tempo e as flexões e os agachamentos e as elevações, e a espantar a tensão acumulada, também pelo veste-e-despe inevitável, a valer muito mais a pena, pelo contrário, quando se deita com a filha mais nova do velho Acácio Lapa. A rapariga, de nome Jacinta – o pai fez gosto, por causa das aparições de 1917, em Fátima – tem a idade da nossa democracia rectangular; encontra-se  mais ou menos liberta das ideias quadradas do incontornável Acácio; exibe ainda um corpo de redonda sensualidade e consegue cativar o Queirós com a sua natural envolvência amniótica, prenhe de espontânea afectividade e telúricos orgasmos. Ora, tudo isto, se querem saber, não é rotina, não senhor, é auto-estima, entrega e plenitude
            -- Sr. Queirós, o amigo está em grande forma!
            ou não fosse o Queirós assíduo e empenhado, sempre a pensar na mais nova do Acácio, pois claro, que a única coisa que nos faz sentir acompanhados face ao vazio e à angústia existenciais é, sem sombra de dúvida, O AMOR.
           
           

A MATRIZ PARENTAL



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            Sobre este assunto não alimentamos nenhum tipo de dúvida. A matriz parental é, precisamente, o cerne de toda a posterior evolução ou estagnação do recém-nascido, quando não do próprio feto; é nesse âmago original que o feto é objectivado por um sem número de expectativas, por parte dos progenitores, relativamente a quem cresce no útero materno. Sublinhe-se, desde já, o carácter, por um lado, bilateral desse tipo de representações, ou, por outro, o teor ambivalente: bilateral, se for de aceitação, sendo susceptível de ser considerado positivamente construtivo; ou, de rejeição, se a energia dos pais se dirigir ao feto de forma negativa e destrutiva.  Ambivalente, ainda, caso a atitude parental, face ao vindouro, revista uma mescla difusa e indefinida de sentimentos emocionais, a um tempo polimorfos, difíceis de qualificar.

            Tudo isto se deve, note-se, à pressão (in)consciente exercida pelo assomo das representações sociais, culturais e pessoais, pautadas pelas reminiscências da própria infância dos futuros pais e do conhecimento que possuem de outras crianças próximas-afastadas. Um filho não pode constituir uma desagradável surpresa; tem de ser planeado, desejado e amado; deve, portanto, ser aceite como um ser individual e autónomo, embora dependente dos cuidados parentais, para os quais estes devem estar preparados. Para tal, importa compatibilizar a personalidade do casal com os traços psicológicos comportamentais da criança, no sentido de a libertar... integrando-a.

            Não se pede mais do que inteligência, sensibilidade e flexibilidade sem permissividade, intolerância ou sadismo, para que a criança se sinta segura, protegida e tranquila na harmonia do aconchego triangular da família. As necessidades biológicas dos nascituros são diversas das dos adultos, por isso as rotinas devem ser diferenciadas. Há dias, vimos na televisão a arrepiante imagem de um bebé de escassos meses, ao colo do pai, no meio da efervescência dos adeptos que assistiam a um atribulado jogo de futebol...

            Não raramente, a ansiedade e a frustração dos pais é projectada nos filhos; estes, então, crescem ansiosos, inquietos, não introjectam os alimentos, não aferem os índices devidos de concentração e aprendizagem. Perante tal estado de coisas, os pais redobram de ansiedade, tornam-se persecutórios e tudo vai de mal a pior. Curiosamente – e aqui as reacções das crianças podem ser as opostas, isto é, perante a marcação cerrada de progenitores ansiosos, os filhos, por vezes, reagem com abulia, com enfado, com dormência, mas comem como alarves e tornam-se obesos e, face a este particular aspecto da questão, não se incomodam muito os impreparados paizinhos.

            Jacob Levy Moreno (1889-1974) legou-nos o conceito locus nascendi, ou seja, a matriz identitária de inserção e comunicação da criança desde o nascimento. Esse extraordinário domus vitae, como lhe chamamos, constitui o lar vivencial de cada recém-nascido e, conforme os pais, irá matizar a identidade de cada novo ser. Convém, portanto, reter que as crianças não têm todas o mesmo apetite; o seu tempo de sono é variável, mas, caso acordem repetidamente, ao longo da noite, com pesadelos, convém aquilatar sobre a sua estabilidade emocional... Ah!, se se tratar de meninos do pré-escolar, não se cometa o crime de se lhes sonegar a sua sestinha.

            Se o domus vitae, hipoteticamente, se apresentar emocionalmente perturbante, por força da matriz parental, e caso a criança denote uma baixa tolerância à frustração, pode reagir através de choro sistemático, de birras, de tristeza frequente, de apetite intermitente (voracidade versus fastio), de chantagem afectiva, isto é, de comportamentos generalizados de inadaptação; tudo isto é susceptível de fazer perigar a relação familiar-triangular e pode até levar os pais ao desespero, caso não consigam perceber o que se passa. Se se constatar que a etiologia não é do foro somático, convém, então, recorrer a um clínico entendido na matéria.