segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

A APATIA

Imagem do Google


      Em um escrito recente, intitulado Educação XXI, tivemos ocasião de referir, relativamente à apatia escolar infantil, a fórmula nEAS (não-Emotivo-Activo-Secundário), da autoria do médico fisiologista belga Heymans (1892-1968) e do filósofo francês Le Senne (1882-1954), cuja classificação caracterológica aponta para uma redução drástica da actividade física geral e para o empobrecimento das reacções afectivas. Esta ataraxia pode despoletar a baixa auto-estima e precipitar as depressões, levando as pessoas a se abandonarem, perdendo mesmo a noção do espaço e do tempo.

      Tal estado de indiferença, de insensibilidade, de desinteresse, de inércia, de falta de paixão, de frieza, perante tudo e face a todos, começa por radicar em uma falta de entusiasmo pelo próprio indivíduo que enferma desta síndroma. Podendo, eventualmente, ser contornada na infância, esta afecção mental insinua-se de forma mais grave na adolescência, podendo mesmo configurar quadros esquizofrénicos ou hebefrénicos, atingindo também certas pessoas na meia-idade e a partir dos 60 anos de vida.

      Contudo, enquanto na esquizofrenia crónica a dissolução da reactividade emocional, traduzida pela ausência de afectos, é mais vincada, na hebefrenia o doente encontra-se mais condicionado pelos fantasmas do seu universo psicótico interior. Os especialistas apontam ainda a doença de Pick, como sendo responsável pela afecção dos lobos frontais e, por vezes, pela demência, o que leva à perda do contacto com a realidade.

       Como aludimos no primeiro parágrafo, a apatia pode levar à depressão mais ou menos grave; se aquela for intensa, a apatia é explicada pela indolência acentuada e recalcitrante, pela ausência de alegria e pela expectativa dolorosa de que o futuro se apresentará irremediavelmente negro. Não esqueçamos, também, que certas situações circunstanciais desastrosas, que possam ocorrer na vida das pessoas, poderão contribuir para estados apáticos, como acontece nos internamentos hospitalares de longa duração, na permanência nas prisões ou nos lares da terceira idade.

      A perda de contacto destas pessoas com o universo exterior e com as suas vivências dinâmicas, leva, invariavelmente, a estados de apatia de certa maneira graves ou problemáticos; para além de se sentirem entregues a si próprios, as condições de “vida” nesses contextos são sempre tendentes a ignorar os desejos e interesses de quem já nem força tem para reivindicar algum carinho e atenção. Numa época em que tanto se fala em solidariedade e humanitarismo, o mínimo que se exige das famílias e do estado é que cumpram o seu dever moral, cívico e institucional, não ignorando nunca que o ciclo da vida engloba todos e cada um de nós. 

1 comentário:

  1. Mais um excelente texto seu para reflexão… A apatia leva quase sempre à depressão e tantas vezes ficamos indiferentes a isso...

    Se quiser adquirir o meu livro na Editora clique 2 vezes em cima da capa do meu livro (canto superior direito).

    ResponderEliminar