quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

VULTOS E CULTOS

Imagem do Google



Não há nada mais saboroso do que deixar correr na pantalha da memória, todo o filme de recordações que ficou indelevelmente gravado, aí mesmo, no âmago do mais profundo do meu ser, onde radicam os afectos, o carácter, a personalidade; a exemplo do que se passa no coração dos homens de boa vontade, onde se dão os primeiros passos no sentido das aprendizagens mais puras e sentidas, mais espontâneas e autênticas; onde ficam escritos, pela força do amor que desbrava os caminhos da paz e da concórdia, os vultos que determinaram e ainda fomentam os cultos, que nenhuma força oculta ou tendência desviante conseguirá esbater, abater ou fazer desaparecer.



O sabor delicioso que se mescla de fantasia e maravilha, e que nestes dias perpassa teimosamente a minha memória, liga-se à festa dos Reis Magos, muito mais bonita do que a festa do Natal, durante a qual toda a gente só pensa em cultivar gulas desmedidas; muito mais cristã do que as celebrações, perfeitamente patéticas e gratuitas (mas dispendiosas), de enterro do ano velho e de saudações ao ano novo (?!); ainda, muito mais simbólica do que as outras duas às quais aludo, devido ao significado de incomensurável riqueza que encerra o facto de três reis terrenos, ricos e poderosíssimos, terem sido levados, pela luz de uma estrela, a prestar homenagem, através da oferta de ouro, incenso e mirra, a um recém-nascido que, ungido de sublime bondade etérea, viria a ser rei, sacerdote e profeta.


Depois do que fica exposto, é extremamente penoso ter de constatar que, a nível oficial, em Portugal (que não em Espanha), os “Reis” foram deliberadamente desacreditados, por omissão, nomeadamente no cômputo dos dias que até aí integravam as denominadas Férias de Natal, que não mais se estenderiam até ao dia 6 de Janeiro de cada ano que passa.



Só esta alteração, aparentemente simples e inofensiva, encerra em si um poderoso e devastador alcance, que visa, está bem de ver, mentalizar as crianças, ao nível ideológico, para a indiferença, o desprezo, a ignorância a que devem ser votados os “Reis” e toda a sua maravilhosa abrangência psicológica, emocional e simbólica.



Nesta conformidade, não sei para onde caminhamos; mas sabemos todos que, isso sim, não é com o extermínio de cultos tão envolventes, harmónicos, significativamente simbólicos e saudáveis como o eram o dos “Reis” – Gaspar, Melchior e Baltasar – três dos vultos que estruturaram, adocicaram e (re)temperaram a minha infância, que conseguiremos respeitar as nossas crianças ou valorizar a sua educação. Punhamos os olhos no admirável exemplo da nossa vizinha Espanha!



NOTAS: O FANTÁSTICO ocorre quando o seu realismo suscita a dúvida que a lógica não consegue explicar; a narrativa de carácter sobrenatural cria o efeito fantástico sempre que hesitamos entre causas naturais e sobrenaturais;

   
O MARAVILHOSO nunca converge no sentido do real nem do seu contrário, sendo mesmo encarado naturalmente, como acontece na cultura judaico-cristã.


2 comentários:

  1. Manel, querido amigo,
    um grande e belíssimo post o teu! Não só pela alusão a esta época festiva, como por tudo o que nos transmites e que concordo plenamente. Se bem que seja igualmente dispendioso(...) pelo menos recordas a quem não viveu antes, a beleza da festa dos reis, as suas cantigas. Quem não se lembra de ouvir cantar os reis? Tudo vai meu amigo, amortalhado com o mofo do tempo...
    Boas Festas, sejam de Natal, de Reis, de Ano Novo
    O que importa é dar-te o meu abraço!

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  2. Boa tarde,Zé
    Não há nada que possam fazer que apague da nossa memória a comemoração do Dia de Reis.
    O pior é não poderem,actualmente, as crianças festejarem este dia! Se bem que,em alguns locais do nosso país, se continuem a cantar «As Janeiras»! E é bom que assim seja!
    Cabe aqui aos professores, no início do 2º período,lembrarem aos seus alunos como era o dia 6 de janeiro e o que significa.
    Parabéns elo teu texto. Feliz dia de Ano Novo e de Reis.
    Beijinhos
    Mana

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