domingo, 26 de junho de 2016

ESTADO NOVO E RESISTÊNCIA - Capítulo V - Um Regime de Partido Único

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O "Estatuto do Trabalho Nacional", lei fundamental do corporativismo, era mesmo para ser cumprido. Acontece que o descontentamento das massas laborais era grande e, em 1934, estalam diversas greves, em tom de resposta à repressão que o referido documento em si simbolizava. Em 18 de Janeiro a greve é em defesa dos sindicatos livres, a que a maioria do povo trabalhador aspirava, tendo aderido outros grupos profissionais. Na Marinha Grande o poder local é dominado por trabalhadores armados e em greve. A Central Eléctrica de Coimbra é alvo de atentados à bomba, que contemplam também várias vias-férreas, pela mão da vanguarda operária anarquista e comunista. Na sequência de tudo isto o Governo faz dezenas de prisões. Não obstante a contra ofensiva do poder, os sindicatos não desarmam nem tão pouco obedecem à ordem de dissolução, optando por formar um movimento sindical clandestino, com imprensa própria.

            Tem lugar o 1.º Congresso da União Nacional.

            Na preparação das eleições para a Assembleia Nacional, o recenseamento não é estimulado, sendo afastados dos cadernos eleitorais os "indesejáveis", o que acaba por reflectir a diminuição do número de eleitores.

            Desta maneira, de 1933 para 1945, aquele número desce de 1,3 milhões de eleitores para 992.700. Em 1969, o eleitorado cifrava-se em 27% da população com mais de 21 anos de idade.

            Sujeito que estava às influências fraudulentas do poder, o sistema eleitoral ia assumindo aspectos bizarros, senão mesmo tragicómicos: pela facção governamental votavam os mortos, enquanto que os de confiança introduziam na urna dois boletins com a cruzinha no quadradinho da União Nacional. Este registava as preferências de 80% de votantes na Metrópole e quase 100% de votos nos territórios africanos, sem contar as abstenções, como é evidente.

            Salazar prossegue, indelével e imparável a sua caminhada: proíbe e persegue os partidos e as associações secretas, contrariamente ao que acontece com a União Nacional, onde se filiam os partidários e apoiantes do Governo. É neste contexto, de viciação permanente e sistemática, que Carmona, sem adversários, é eleito Presidente da República em 1935.

            Do outro lado da fronteira, em Espanha, em 1936, a Frente Popular vence democraticamente a oposição, ganha as eleições e consegue maioria no Parlamento. O quadro político espanhol complica e atrapalha as intenções de Salazar, embora não o faça desistir. Tal contexto leva mesmo o ultra conservador Professor de Coimbra a estudar cuidadosamente, em Portugal, a conspiração preparativa da Guerra Civil de Espanha.

            O líder governamental português, uma vez mais, exalta sentimentos nacionalistas, passa a criar a "Mocidade Portuguesa", inspirada na juventude nazi, onde faz inscrever os estudantes, a exemplo também do que acontecia em Itália com os "camisas negras". Institui ainda a "Legião Portuguesa", força militarizada, marcadamente anticomunista, propondo-se defender o "património espiritual da Nação".

            Salazar, numa demonstração da sua força, sempre crescente, faz marchar a "Mocidade" e a "Legião" pelas ruas da cidade. (Continua)

A PROBLEMÁTICA PREMENTE DA HIPERACTIVIDADE INFANTIL


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     Se tivermos em linha de conta determinado estímulo de aprendizagem, perante crianças como as que pertencem ao conjunto, mais numeroso do que seria de supor, daquelas que enfermam de hiperactividade comprovada, verificaremos manifestações de forte ansiedade e impulsividade que afectam a percepção e a concentração, levando-as a ter grandes dificuldades em seleccionar o atrás referido estímulo, durante longos períodos de tempo.

            Não sendo, embora, tirados a papel químico os vários comportamentos e reacções das crianças em presença, ao longo de uma aula ou quando submetidas aos diferentes testes, como é óbvio, podemos observar, por vezes, a tendência para falar muito alto, por manifesta indisciplina (descontrolo) vocal; forte agitação motora e excitação, tipo “pilha de nervos”, o que impede a correcta postura corporal mais conveniente para que o trabalho possa decorrer normalmente, logo incorrendo nos óbices inerentes a um quadro muito mais lato de hiperactividade onde pode predominar o défice de atenção, a movimentação electrizante ou a impaciência.

            Nesta conformidade, recomenda-se o acompanhamento individualizado, para que as tarefas escolares propostas à turma, em geral, ou ao aluno, em particular, possam ser processadas; temos tido o hábito de, desde o início da nossa experiência docente, aconselhar os pais e encarregados de educação a submeterem os filhos nestas condições a uma avaliação neurológica, para que possam ser despistados eventuais danos na estrutura e funcionamento neurológicos; também, dispondo ou não, o agrupamento, de serviços de Pedopsiquiatria (onde é que há disso, em Portugal?!), devem ser envidados todos os esforços, no sentido destas crianças poderem ser submetidas a exames médicos rigorosos que lhes possam minimizar problemas ligados à reflexibilidade e controlo do corpo, fazendo diminuir a agitação motora, através de medicação apropriada.

            No que toca à Figura Complexa de Rey, na generalidade, estas crianças apresentam capacidades bastante reduzidas para copiar os dados percepcionados; apresentam, portanto, baixa maturidade perceptiva na tarefa de cópia; revelam não ter noção do conjunto do estímulo perceptivo que observam, o que se traduz nas dificuldades de integração espaço-visual, pelo que devem ser estimuladas, nesta área, com exercícios de desenho livre e desenho gráfico. Também a memória visual de curto prazo é afectada, o que leva estas crianças a distorcer alguns dos elementos que foram objecto de cópia. Torna-se fundamental o exercício estimulante da cópia, visando acicatar a memória respectiva de trabalho. Por último, mas não menos importante (“the last, but not the least”), verificam-se inúmeros e repetidos enganos na produção de grafias (disgrafias) ou incapacitação para a escrita e para o desenho, também. Só mesmo o acompanhamento individualizado pode garantir a estas crianças o treino no sentido mais correcto.

       E eis que chegamos a uma outra área fundamentalmente indispensável no âmbito da aquisição das competências essenciais a qualquer criança que demanda o 1.º Ciclo do Ensino Básico: a leitura. É doloroso verificar-se o atraso de que enfermam estes alunos, ainda que manifestamente inteligentes e adoráveis. A leitura inicia-se mais ou menos tardiamente (pode exigir dois anos de frequência escolar), e, ainda assim, ser apenas hesitante, ou seja, no estádio da construção silábica, com dificuldade de identificação de algumas consoantes que facilmente trocam por outras, surgindo lentamente a leitura palavra a palavra (simples). Evidentemente que a velocidade de leitura é reduzida, até porque a consciência fonológica só agora começa a tomar forma.

            Escusado será dizer que o grau de compreensão da leitura é, ainda, neste estádio, inexistente, porque compreendem apenas as palavras se as mesmas forem “sacadas” com a ajuda exploratória do respectivo interlocutor; nesta conformidade, as crianças em apreço não conseguem perceber a mensagem contida na frase, nem tão pouco são capazes de interiorizar e abarcar matérias como as que o programa, por exemplo, da área do Estudo do Meio, exige no 2.º ano de escolaridade. Aqui, como é que se estruturam as questões a colocar a estas crianças e se consegue incitar o processo de procura de informação, considerando que estas crianças são ignoradas pelos responsáveis primeiros pela Educação, que para as mesmas não indigitam especialistas devidamente preparados para o efeito… Não aparece ninguém!!!

            Normalmente, tentamos que leiam bastante, na medida do possível e fazemo-las ouvir ler, todos os dias, num crescendo deste tipo de actividades, procurando não descurar os colegas que acompanham as tarefas diárias sem problemas de maior.

            Evidentemente que quem tem dificuldades deste tipo no que à leitura diz respeito, revela, necessariamente, também, profundas dificuldades ao nível do processo da escrita, dado que, como facilmente se depreende, vão prevalecendo as já atrás aludidas trocas de letras por deficiente identificação das mesmas, leitura errada de ditongos e, praticamente sempre, dificuldade na consolidação da identificação dos dígrafos (“ch”, “lh” e “nh”).


         Tratando-se de ditados, surgem amiúde os erros (alguns escabrosos), as omissões de letras, a ausência de palavras, o desmembramento de certas letras que “inexplicavelmente” abandonam as palavras a que pertencem, e, por vezes, transviam o sentido do próprio texto, mesmo com o interlocutor ao lado. Nalguns casos é a própria memória sensorial que é insignificante, exigindo o devido estímulo, procurando-se assim uma certa qualidade de descriminação sonora do estímulo audível (que julgamos nós ter sido escutado).

domingo, 19 de junho de 2016

ESTADO NOVO E RESISTÊNCIA - Capítulo IV - Salazar – Perfil do Estratega



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       Por simples ousadia ou por mero acto cívico, tentaremos discernir sobre o perfil ideopsicológico do estratega Oliveira Salazar (1889-1970), recordando aqui uma das mais polémicas e interventivas personalidades históricas, do Portugal do século XX. O mentor desta nova estratégia terá elaborado a sua doutrina a partir de um conjunto de ideias do fascismo italiano (inspirado em Charles Maurras [1868-1952]) e do catolicismo mais primário e retrógrado. Tal como em Itália, o Governo apoiou-se na burguesia, contou inicialmente com a protecção militar e com a ampla e sempre crescente influência da Igreja, cujo autoritarismo monolítico inveterado obstou a qualquer alteração da própria sociedade.

            Salazar apresentava-se como um espírito atento mas fechado, pouco conversador mas capaz de, em cada discurso, enviar uma infinidade de recados a todos quantos o quisessem ouvir; assumidamente puritano, dizia-se católico praticante e homem de convicções profundas, as quais obviamente cultivava. Ele próprio, no ano de 1954, durante uma entrevista, afirmou não acreditar no sufrágio universal, nem na igualdade, mas sim na hierarquia.

            Os estudos não conseguiram diluir nele as marcas de um provincianismo enraizado que o impediriam de desejar conhecer o mundo para lá das fronteiras do Portugal Europeu. Ele permaneceria no seu país e daria o peito a todas as investidas do “mal” que, do exterior, espreitasse minar a pacífica dolência da terra lusitana. Qual eleito, ungido por Deus, colocaria todas as energias da sua alma, do seu carácter férreo, inabalável e do seu trabalho aturado, incansável, ao serviço de Portugal, tal como ele o viria a conceber.

            Nesta medida, Salazar procurou o apoio de homens que ele considerava como sendo os que melhor lhe convinham: os grandes latifundiários e outros proprietários, as patentes militares elevadas e influentes, os bispos, a alta finança nacional com conexões britânicas e ainda alguns comerciantes das cidades portuguesas de referência, como o eram Lisboa e Porto.

            Estava, desta maneira, estruturada a equipa que conseguiria manter, ao longo de algumas décadas, camponeses, operários e restante população, mais ou menos controlados, mais ou menos submissos, nem que para tal fosse necessário accionar algumas medidas repressivas ou mesmo forjar resultados eleitorais, sempre que estes tivessem lugar.

            De forma calculada e paulatina, Salazar foi levando a água ao seu elaborado moinho, a partir daquela que seria, desde logo, a sua primeira preocupação: o equilíbrio das contas nacionais, se possível e preferencialmente, à custa da maioria dos portugueses, sem beliscar o interesse da minoria que o apoiava. Procedeu à subida dos impostos e à descida dos salários reais, acompanhadas pela debilitação dos serviços sociais. O povo foi sendo cada vez mais espoliado pela máquina fiscal, enquanto que alguns sectores-chave da economia conseguiam notório desenvolvimento, principalmente aqueles que beneficiavam do fluxo de capital estrangeiro. Esta política aparentemente útil foi degradando os restantes sectores como era o caso da agricultura. Portugal "crescia", mas não se desenvolvia, não progredia, distanciando-se do resto da Europa. Em meados do século XX, a massa de analfabetos cifrava-se nos 40%; a meio da década de sessenta, embora o sector primário absorvesse cerca de 35% dos braços activos, tal esforço apenas se traduzia em um quinto do produto nacional bruto.

            A verdade de tudo isto saltava à vista através da sangria terrível que constituiu a emigração. Para fugir à fome e à miséria que o desemprego provocava, na primeira metade dos anos sessenta, 270.000 portugueses tentaram a sua sorte em vários países Europeus, enquanto que 60.000 optaram pelas colónias, nomeadamente Angola e Moçambique. A despesa com estas era também insustentável, uma vez que, a partir de 1968, o MPLA foi conseguindo apoio bélico internacional cada vez mais sofisticado e destruidor, com funestas consequências para a juventude masculina em flor, que para essas paragens tinha sido ultrajantemente empurrada.

             Em conclusão, diremos que entre 1960 e 1970 terão emigrado um milhão de almas. O regime gangrenava. A História, por vezes, repete-se, não em todas as suas vertentes e nuances, claro, mas confinadamente a certos aspectos deploráveis da governação que, em resultado de uma primeira análise, seriam naturalmente de evitar ou contornar, em nome do mais puro e elementar bom senso. Ontem como hoje. Enfim!...

quarta-feira, 15 de junho de 2016

SOBRE A VIOLÊNCIA DOMÉSTICA



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         As relações humanas têm vindo a encontrar no chão fértil do deixa-correr, da pretensa liberdade de acção das criaturas, da disfuncional animalidade primitiva dos comportamentos que vão caracterizando o quotidiano, o terreno mais propício à libertinagem que distorce as consciências e inviabiliza a dignidade e o respeito que devemos uns aos outros. Urge arrepiar caminho. Este raciocínio surge na sequência da mensagem de que lhes tencionávamos dar parte, relativamente ao tipo de relações afectivas que ligam alguns homens e mulheres, uma vez que a qualidade das mesmas, segundo tem vindo a lume, reveste, teimosamente, aspectos perfeitamente doentios, porque eivados de violência gratuita, mesquinha, redutora; que acaba por estiolar o viço do amor; que aniquila, muitas vezes, um último capital de esperança colocada no banco dos afectos onde apenas um só elemento do par desavindo investe; que faz desabar, por completo, todo um edifício emocional de equilíbrio e usufruto, inicialmente alicerçado a partir do betão da confiança, da compreensão e da doce cumplicidade de quem se ama e pretende comungar de uma vida em uníssono, partilhando alegrias e tristezas, sucessos e contrariedades, objectivos ponderados e renúncias conscientes.

            Claro que uma relação a dois só pode funcionar, se for posto de lado o egoísmo de um, ou de ambos; evidentemente que um qualquer casal, quer tenha institucionalizado a sua união através do sacramento do matrimónio, quer tenha selado o seu compromisso por meio do registo civil, quer ainda se mantenha ligado no âmbito da união de facto, tem de trabalhar todos os dias na direcção dos seus interesses comuns, ou seja, não perdendo de vista a importância da satisfação das necessidades plausíveis da família e do bem estar dos filhos, caso tenham optado pela sua concepção. Pessoalmente consideramos os filhos uma benção, um milagre, a perpetuação da vida do casal, ainda que para lá da sua morte material ou dual, e de cada um dos elementos que lhes dá o ser.

            Paralelamente, importa que se aposte incondicionalmente no diálogo; conversar, conversar sempre, diariamente, sem ironia, sem rancor, esclarecendo dúvidas, dissipando incertezas, cimentando a confiança, sem receios nem medos. É terrível dar ouvidos a terceiros, levar em conta denúncias anónimas, alimentar suspeições em silêncio. É que a partir daqui a imaginação acaba por fazer o resto, precipitando o princípio do fim, através de atitudes que começam por ser ofensivas, por comportamentos que entretanto vão sendo agressivos,  por gestos que violam a integridade física do parceiro, descambando em reforçada violência. Irracionalidade própria das bestas... Mas esta problemática extrapola o contexto meramente passional.

            Tem a ver também com a falta de recursos económicos das famílias. Penosa realidade em alta, esta. Casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão. Surgem as acusações, os complexos de culpa, as perseguições mentais, a crueldade, o vazio afectivo; está presente, muitas vezes, a avassaladora dependência do álcool ou de outras drogas, para mascarar o drama; uma vez mais a irracionalidade própria das... pessoas profundamente infelizes e perdidas.

            Nos jovens, então, julgamos nós, a agressividade embrionária que lhes vai tolhendo já o porte, o perfil e a atitude, prende-se com os climas mais ou menos densos, mais ou menos viciados, mais ou menos virulentos que os envolvem a partir de idades cada vez mais precoces. Não tem havido o cuidado indispensável em preservar as crianças, os adolescentes e os jovens, de todo o tipo de violência gratuita que actualmente nos é servido em doses industriais, logo a partir de casa, por omissão ou protagonismo quezilento dos pais, quer pelo desleixo tutelar opcional a que tem estado votada a escola, quer ainda pelo apocalipse programático que as televisões esparramam incansavelmente nas cabecinhas da nossa malta... Principalmente!


Nota: À sombra das costas largas da crise externa, vamos também assistindo à trágica dimensão da nossa crise interna... Inaudito subterfúgio, aquele! Surpreendente e imerecida punição, esta! Estaremos, afinal, perante uma nova cambiante de “violência doméstica”, à escala nacional?!

domingo, 12 de junho de 2016

PEDAGOGIAS

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       Quando se fala em Pedagogia, correntes pedagógicas, pedagogos ou conteúdos pedagógicos, pensamos que, por mera questão de prudência e sensatez, “in medio virtus”, isto é, a virtude está no meio, ou seja, não devemos incorrer em extremismos nem exageros, como acontece, por um lado, com as pedagogias não-directivas e, por outro lado, com o autoritarismo pedagógico. E nós tivemos ocasião de testemunhar, em várias ocasiões, ambas as modalidades e percepcionar os seus nefastos efeitos.

            O filósofo grego Sócrates (   -399 AC) continua ainda hoje a ser uma espécie de modelo simbólico, arquetípico dos pedagogos – ainda que se encare a mescla resultante do conceito platónico (Platão -    -   ) e junguiano (Jung - 1875-1961) do termo. Basta que recordemos a maiêutica – Sócrates ensinou-nos a trabalhar cada um dos discípulos, de forma a sermos capazes de agarrar o potencial de conhecimento que em si encerra. Não deixa, no entanto, de ser redutor, porque se fica por aí, não dando oportunidade de participação ao outro, não o deixando falar, uma vez que não deixa de falar; permanece na sua verdade, sem cuidar de saber da verdade do discípulo.

            Na célebre obra de Rousseau (1712-1778), Emílio, o autor faz referência à existência de dois tipos de dependências a que estamos todos sujeitos: a natureza, desprovida de moralidade, não compromete a liberdade e não fomenta vícios, e, a sociedade, onde impera a desordem, o vício e a confusão, o que abre caminho à exploração degradante do homem pelo homem. Diríamos nós: a natureza tem carácter sistémico e ecológico; a sociedade apresenta-se disfuncional e caótica.

            Sendo assim, inspirado em Rousseau, o pedagogo Fernand Oury (1920-1997) procurou dotar a pedagogia das virtualidades da própria natureza. Nas suas aulas, este professor primário tentou dinamizar actividades comuns, repletas de trocas recíprocas, quer ao nível do trabalho, quer no que toca a materiais, quer ainda no que diz respeito à intelectualidade, à afectividade; no seio dos alunos e destes para com o professor, numa gestão sucedida onde não falta a comunicação e a acção, a propósito das realizações do quotidiano escolar, isto é, num mútuo de excelência didáctico-pedagógico. Mas, tudo isto só funciona, se houver respeito pela selecção útil dos conteúdos programáticos a tratar, numa turma perfeitamente organizada, onde a liberdade é atribuída a par da responsabilidade, e onde as competências vão surgindo num clima de equilíbrio organizacional, ordem e rigor, sob a batuta do professor.

            Não pretendemos tornar esta reflexão demasiado extensa. Encerraremos, portanto, com uma breve alusão ao professor primário e escritor William Golding (1911-1993), e à mensagem contida na sua excepcional obra “O Deus das Moscas” (1954): Depois de um desastre aéreo, um conjunto de meninos e rapazes encontra-se, sem nenhum adulto, numa ilha deserta. Incapazes de se organizarem socialmente, naquele ambiente natural e livre, deixam-se levar pelos seus medos e inseguranças; estes tolhem a racionalidade e acicatam os instintos primários; esfuma-se a colaboração e a solidariedade e reacendem-se picos de trágica animalidade.

       Este “bestseller” de William Golding (uma edição de 2002 alude a 14 milhões de cópias vendidas só no espaço anglófono) reflecte o extraordinário conhecimento que o autor possui da psicologia infantil e, sendo uma tese sobre a naturalidade do mal, dá-nos conta dos fundamentos antropológicos da violência e da sede de poder.

ESTADO NOVO E RESISTÊNCIA - Capítulo III - A Consolidação do Estado Novo



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         Desde 1929 que a recessão económica mundial se faz sentir de forma cada vez mais intensa e problemática, precipitando a crise: a produção industrial baixa, principalmente nos países de maior desenvolvimento; são queimados alimentos em doses industriais, enquanto as populações passam fome e miséria. Portugal, como não podia deixar de ser, tendo em conta a conjuntura da época, é dos países que mais se ressente dessa terrível crise, sendo as massas trabalhadoras as mais atingidas. Devido ao facto, em Lisboa, tenta-se a greve geral.

            Salazar continua a impor-se, jogando com mestria nos diversos tabuleiros do poder. Carmona convida-o a ocupar, para além das pastas das Finanças e da Guerra, que já detinha, a chefia do Governo. Sempre apoiado pelo grande capital e pela Igreja, o ex-seminarista viria a ocupar, no ano de 1932, a presidência do partido único – União Nacional.

            A Constituição Política da República Portuguesa de 1933 vem estruturar o "Estado Novo", com a curiosidade de ter sido aprovada, contando as abstenções como votos a favor…

            A partir de agora começam também a tomar forma as vertentes fascizantes dos regimes totalitários que iam vingando no resto da Europa. Desta forma, e através da Constituição, o regime cria o Estado Unitário Corporativo, concedendo ao Presidente da República largo poder que, na prática, acaba por ser assumido pelo Governo. A Assembleia Nacional legisla para o Governo executar, embora, tanto os poderes executivo, legislativo e judicial como as liberdades e os direitos dos cidadãos, reconhecidos pela Constituição, estivessem dependentes de "leis especiais" que os suprimiam.

       O Governador Civil do Distrito passa a regular a liberdade de reunião sócio-política; a censura prévia examina as publicações; o "Acto Colonial" é junto à Constituição; Vicente de Freitas enceta algumas críticas e é imediatamente afastado. O regime tenta moldar a opinião pública através da Emissora Nacional; o Secretariado da Propaganda Nacional esforçava-se por "pintar" Portugal ao/no estrangeiro, de acordo com as conveniências dos governantes; a polícia política é remodelada e passa a chamar-se Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (P.V.D.E.).

       Por esta altura, Marcelo Caetano assina o "Estatuto do Trabalho Nacional", lei fundamental do corporativismo, inspirada na "Carta del Lavoro", de Benito Mussolini: entre outras coisas, quem pratica a greve será perseguido e sofrerá sanções. No que dizia respeito aos sindicatos livres, estes seriam substituídos por sindicatos nacionais, cujas direcções teriam de ter, necessariamente, aprovação governamental: Foram criados os grémios onde se reunia o patronato. Foi negada a existência de "luta de classes", conforme a definia Karl Marx, pelo que o Governo passou a considerar idênticos os interesses entre capital e trabalho, numa pretensa "harmonia social", regulada pelos órgãos de cúpula das corporações. Os contratos colectivos de trabalho deixariam também de ser aplicados, nas empresas, pelos sindicatos. (Continua)

domingo, 5 de junho de 2016

ESTADO NOVO E RESISTÊNCIA - Capítulo II - O Convite do Coronel




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     No decorrer do ano de 1928, dois anos depois do movimento sucedido de Gomes da Costa, têm lugar as eleições presidenciais, onde é eleito Presidente da República de Portugal o General Carmona, de resto candidato único das forças no poder.

            Por ocasião da formação do governo, o Coronel Vicente de Freitas convida para a pasta das Finanças o Dr. António de Oliveira Salazar, ex-seminarista, ex-secretário-geral do Centro Académico da Democracia Cristã de Coimbra, monárquico simpatizante, suspeito de conspirar contra a República em 1919, duas vezes candidato católico ao Parlamento e professor da Universidade de Coimbra. Salazar, embora jovem, possuía já um "curriculum" rico e polémico.

            Oliveira Salazar aceitou então o convite que lhe tinha sido dirigido pelo Coronel Vicente de Freitas, para a pasta das Finanças, mostrando-se, desde logo, firme, seguro e determinado na tarefa que se propunha levar a cabo, exigindo o direito de veto sobre quaisquer despesas públicas.

            Nos dias 20 e 21 de Julho de 1928, a Resistência enceta algumas iniciativas de rebelião, nomeadamente através de alguns elementos de Caçadores n.º 7 e Artilharia aquartelados no Castelo de S. Jorge, em Lisboa, tendo, na altura, aderido também Setúbal e Entroncamento, juntamente com civis armados, atacando as sedes de algumas unidades militares.
           
         O titular da pasta das Finanças não admite veleidades; nem reivindicações; nem partidos. O Governo deverá contar apenas com a burguesia, com vista à sua estruturação, procurando criar um "ESTADO NOVO" e forte. Nesta medida, o seu principal mentor defende o nacionalismo, perfilhando ideias de Charles Maurras que, por sua vez, inspirara também Benito Mussollini.

            No ano de 1930, é publicado o "Acto Colonial" onde se repudia vivamente a descentralização administrativa das colónias. O "Estado Novo" cria seguidamente a "União Nacional", que é anunciada ao País como sendo uma "associação política" onde todos podem ter lugar independentemente das suas opções político-ideológicas, desde que apologistas e defensores da ordem cívica e dos "princípios consignados pelo Governo".

        A Resistência não desarma e, no ano de 1931, apercebendo-se das reais intenções do Governo, leva a cabo levantamentos militares que se estendem ao longo de quatro semanas, na pessoa de vários oficiais que tinham sido deportados para a Madeira, Açores e Guiné.

         A "União Nacional", que era afinal o partido do Governo, passa também a ser alvo de manifestações em Lisboa, bem como de atentados à bomba. Os quartéis de “Metralhadoras n.º 1” e “Artilharia n.º 3”, meses depois, são ocupados por oficiais revoltosos, aos quais se juntaram vários civis armados.

          Quem se opõe também ao novo regime que começava já a criar raízes firmes é a "Aliança Republicana Socialista", através do seu corpo directivo constituído pelos já então notórios General Norton de Matos, Almirante Cabeçadas e Tito de Morais. Pretendem, afinal, que o Presidente da República reconheça o partido e lhe seja permitido participar na vida política oficial. Tudo em vão, no entanto.

     É ainda durante este ano que se publica o primeiro número do jornal "Avante", órgão central do “Partido Comunista Português”, instituição criada em 1921 e na clandestinidade desde 1926. (Continua)