domingo, 11 de dezembro de 2016

BULLYING LABORAL OU ASSÉDIO MORAL



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      Temos trazido, por várias vezes e com a devida vénia, a este nosso fórum – “Angulus Ridet”, o neurocientista e grande sábio português, António Damásio, pela pertinência e profundidade dos seus ensinamentos. Hoje, para o assunto que nos interessa debater, faremos alusão à consciência alargada. Para este cientista e investigador, os organismos humanos atingiram o seu mais alto grau de excelência mental, graças à consciência alargada. Desta forma, são capazes de empatia, reciprocidade, altruísmo; conseguem valorizar a vida, distinguir o bem do mal, destrinçar a verdade da mentira, entre outras coisas. Acima de tudo, conseguem colocar-se acima dos imperativos  das vantagens e desvantagens da sobrevivência, e esforçam-se na busca  da verdade no âmbito da análise objectiva dos factos, isto é, são dotados de consciência moral (Damásio 2010, p. 277).

            Segundo escreve este mesmo autor, na página 278, tudo se processa conforme este encadeamento: “o proto-self é gerado pela sinalização não consciente de um organismo individual, que consente o self nuclear e a consciência nuclear, donde advém um self autobiográfico que leva à consciência alargada, o que desemboca na consciência moral”. Ver, neste blogue, o escrito que desenvolve o conceito de consciência moral, devido à importância desta no desenvolvimento civilizacional – tendo sido este possível, graças à evolução da linguagem, o que permitiria a sua forma mais admirável, ou seja, o diálogo com o outro. Por isso referimos o encadeamento de que nos fala Damásio. Não é simples.

            Muito menos, quando estamos perante hierarquias de poder, estratificadas pelas teias organizacionais de grandes empresas, onde as ordens, veiculadas do topo para a base da pirâmide empresarial, e, portanto, filtradas pela virtualidade do pensamento, vão sendo imbuídas por um conjunto de subjectividades intrínsecas aos vários indivíduos que formam a cadeia de transmissão do poder em causa... já para não falar das patologias do carácter daqueles. Isto significa que quem tem de obedecer, na base da pirâmide, está sempre sujeito, inelutavelmente, a uma espécie de variabilidade desconcertante que é inerente aos comportamentos sociais.


            Muito menos ainda, quando, como acontece neste deplorável século XXI, as relações laborais se encontram eivadas de artificialismo, virtualidade omnipresente, omnisciente, omnipotente, e plástica envolvência; é que se esfumou já o universo simbólico da palavra e, portanto, o indivíduo regrediu para estados arcaicos de interacção doentia; onde a teia relacional hierarquizada vai assumindo contornos persecutórios, vorazes e delatórios, acentuadamente tóxicos, alimentando-se do sangue jovem daqueles que se sujeitam a trabalhar a troco do miserável ordenado mínimo nacional, num clima de permanente precariedade, insegurança, chantagem e jogos sádicos, eminentemente insidiosos, onde se verificam aniquiladoras investidas de “bullying” laboral ou assédio moral, cujos relatos testemunhais escutamos amiúde, no quotidiano.

            Mas insistimos em falar de estado de direito democrático, da Declaração Universal dos Direitos Humanos, de saúde, educação e cultura, de direitos laborais, de emprego, de Constituição... quando sabemos que tudo isto é incompatível com a irracional autofagia da virtualidade, da desregulamentação dos mercados, da mundialização, da globalização, do liberalismo absoluto, das trans e multinacionais, notoriamente comprometedores, todos eles, do elevado nível atingido pelas faculdades mentais dos indivíduos, ferindo de morte a frágil consciência moral, paulatinamente aferida pelas criaturas civilizadas...

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

ROTUNDAS CONFUSÕES



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         A construção de rotundas, verificada desde há alguns anos, nas redes viárias das nossas cidades, vilas e aldeias, tem assumido foros de uma espécie de ritualidade obsessiva, não sabemos se por simpatia para com os cada vez mais candentes excessos alimentares que têm levado a população à obesidade, ou, então, se por coerência com o estado de confusão onde tem estado mergulhada a sociedade portuguesa desde o tempo do Marquês de Pombal (finais do séc. XVIII).

            Depois de concluídas as primeiras (rotundas), nos anos de 19(80) – vamos esquecer as ditas clássicas (Rotunda da Boavista, no Porto, entre ouras) –, a balbúrdia, a desordem, o tumulto e os acidentes atingiram um tal paroxismo, que, acreditem, decidimos sair de casa duas horas mais cedo, para poder chegar ao trabalho em paz, evitando, portanto, o desconchavo do habitual estado de sítio (sem militância nem regime) das famigeradas rotundas.

            O ambiente vivido nesse contexto, sem deixar de ser curioso sob o ponto de vista psicossociológico, apresentava-se anárquico, caótico, desesperante, irracional, havendo, ainda assim, quem, com notável sangue frio, ousasse, com mais ou menos salamaleques e posteriores agradecimentos, mendigar uns centímetros de avanço ao companheiro de infortúnio; era quanto bastava para que ambos fossem objecto de impropérios, como se a infelicidade partilhada fosse mais atenuada.

            Mas, eis que, em pleno Verão de 2013, foi aprovada e publicada, no âmbito do Código da Estrada, a Lei n.º 72/2013, de 3 de Setembro, para vigorar  a partir de 1 de Janeiro de 2014 – já lá vão quase três anos. Na prática, os condutores que entram numa rotunda devem passar a circular pelo interior, junto ao eixo da mesma, se pretenderem ignorar a saída mais próxima, e, junto ao perímetro limítrofe da rotunda se saírem na imediatamente a seguir. Pois é! Só que o que se verifica é a “Lei do tudo ao molho” e, se há muito boa gente que cumpre, há também os outros, os que não o fazem, colocando todos em risco.

            E isto, já para não falar nas rotundas com semáforos no seu interior. Neste caso, bem como nas horas de ponta, não há bichas junto ao eixo da rotunda, para voltar à direita no espaço e tempo certos; nem no limiar da rotunda, para sair logo a seguir, na primeira à direita; não, nestes casos, forma-se uma espécie de grelha de partida, com parelhas de três, quatro ou cinco automóveis a encabeçar outras tantas bichas e, quando abre o sinal, gera-se o inevitável caos. Os canais televisivos da “Sic” e “Tvi” (estes vimos nós), ainda hoje (05/12/2016), reportortaram, nos seus noticiários, toda esta barbaridade, falando mesmo em milhares de condutores já multados (em vão).

            A Lei n.º 72/2013, de 3 de Setembro, serviu apenas para baralhar e voltar a dar. Talvez pudesse funcionar, provavelmente, quem sabe, a sinalização horizontal, pintada no pavimento, o que não dispensaria, de qualquer modo, uma apertada e rigorosa vigilância, já que não acreditamos no civismo diariamente desmentido por quem se vê metido em tamanhas perplexidades, nas loucas voltinhas de tão rotundas confusões.

LET THERE BE PEACE


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       O calendário exibia o mês de Dezembro de 1980, quando, em Nova York, no fatídico dia 8 (oito), foi assassinado John Lennon, esse grande vulto da música “pop”. Decorreram já trinta e seis anos, mas a mensagem de paz e de harmonia entre os povos, que o mais famoso dos quatro “Beatles” sempre tentou fazer passar, acabou por deixar os seus frutos, não obstante a teimosa e sempre reiterada insistência dos homens em perseguir e sofisticar os caminhos da discórdia e da guerra.

     Desde o alvorecer dos anos sessenta do século passado, que os quatro de Liverpool se juntaram para, autenticamente, revolucionar a música dita popular, tendo muito rapidamente destronado os resquícios do já hoje saudoso “rockn'roll” norte americano, da década de 50, onde assumiam lugar de destaque Little Richard (quem não se lembra dos temas “Good Golly Miss Molly”, “Tutti Frutti” e outros); de Elvis Presley (“A Little Less Conversation”, “Blue Suede Shoes” ou “In The Ghetto”); de Sam Cook ou Ray Charles, entre outros? Evidentemente que todos estes monstros sagrados não pereceram, pura e simplesmente, mas tiveram de competir, de forma árdua e nem sempre suficientemente conseguida, com os quatro jovens britânicos que vieram para ficar, ao contrário do que, insistentemente, se dizia das suas carreiras, de início surpreendentemente fulgurantes.

            Dos quatro Beatles, a saber John Lennon, Paul McCartney (os autores principais), George Harrison e Ringo Starr, John Lennon foi, sem sombra de dúvida, o mais ousado, criativo e polémico, tendo em conta as iniciativas que protagonizou, nomeadamente no que concerne às chamadas de atenção sobre a necessidade de se lutar afincadamente pela paz no planeta Terra. Para lá das letras das canções “Imagine” e “Give Peace a Chance” , devemos aqui salientar a sua “conferência de imprensa”, em contexto de lua-de-mel, sob a égide da paz e da (re)conciliação entre os homens, independentemente dos seus credos políticos ou religiosos, para a qual contou com a companhia e colaboração da mulher de origem chinesa (Yoko Ono, com quem casou em Gibraltar, em 20 de Março de 1969), dada à imprensa da época, tendo-se apresentado nus, num quarto de hotel, durante vários dias. Inelutavelmente marcante, fundamentalmente pelo alcance que visava obter.

Na sequência do teor do parágrafo anterior, não podemos deixar de referir o  sentido de oportunidade extraordinário, tendo em conta ainda o interesse que sempre cultivaram, na linha de tentarem procurar permanecer, o mais tempo possível, no primeiro lugar dos discos vendidos, nas principais capitais europeias e mercados norte-americanos, naturalmente pela visibilidade que tal facto lhes traria, também a nível mundial, estes quatro cavaleiros da música popular anglo-saxónica, não tardaram  em compor, tocar, gravar e lançar uma excelente balada,  intitulada “Ballad of John and Yoko”. A letra era (e é) curiosíssima, se observarmos o sentido das dificuldades que se lhes deparavam no momento; a percepção da realidade palpável, face aos propósitos que os animavam: “Christ, you know it ain't easy; you know how hard it can be; the way things are going; they're going to crucify me”. Profecia fatal esta, a de John Lennon...

     Com o que acabamos de escrever pretendemos, por um lado, prestar a nossa sentida homenagem ao “leader” incontestável e incontestado do agrupamento musical inglês, que tanta companhia nos fez na juventude, principalmente nessa época, e, por outro lado, recordar a sua difícil luta pela paz, que tanto tarda e que, por isso mesmo, tanta falta vai fazendo no convívio entre os homens de Boa-vontade, nas relações entre os povos, culturas e  diferentes maneiras de estar na vida. Hoje, mais do que nunca, devemos porfiar; nesta época de Natal que se aproxima a passos de gigante, devemos ter presente a importância da paz; o clima fantástico que representa e significa, para todos, a possibilidade de se viver no seio da tranquilidade e do desenvolvimento harmónico, rumo ao progresso e à salutar compreensão da liberdade e dos direitos do próximo, tal e qual pregou Jesus Cristo.

 

Nota: Reedição do artigo publicado em “O Primeiro de Janeiro”, em 20/12/2005

domingo, 4 de dezembro de 2016

AMIZADES E AMIZADES




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        É ponto assente, que o tipo de relações, que se vão gradualmente esboçando entre crianças de tenra idade, é muitíssimo diferente da qualidade relacional verificada entre adultos. Mas reduzamos o nosso campo de análise ao simples, embora importantíssimo, aspecto da amizade. Conforme temos escrito – outros o afirmaram já –, o homem é um animal social e político, o que vale por dizer que é incapaz de viver isolado, a não ser que tenha, de todo, enlouquecido. Serve-se, portanto, da interacção com os outros para a concretização dos seus projectos de vida; o que é legítimo, de resto, se não forem ignorados os direitos dos outros e a sua dignidade humana, conforme teor da obra “Fundamentação da Metafísica dos Costumes”, de Immanuel Kant (1724-1804) . E é precisamente este estado de coisas, este comportamento íntegro e sério que pode induzir a posterior amizade entre adultos...

            Não acreditamos no inverso, isto é, só porque convivemos e conversamos amiúde, num qualquer espaço circunstancial de lugar onde a rotina nos coloca diariamente (no ginásio, no café, no escritório, nas redes sociais, etc.), passamos ao convencimento de que estamos a construir uma vasta rede de amizades, logo, se for caso disso, até podemos ter negócios com esses “amigos”, pois tudo correrá pelo melhor. Não se iludam!

            Equacionando agora a amizade como sendo um constructo que radica na infância, convirá elucidar sobre o carácter embrionário da relação, tendo em conta o desenvolvimento da personalidade infantil e a observação que a criança vai fazendo do universo adulto familiar. Por isso mesmo é que o jogo vai assumindo características simbólicas tão marcantes, a caminho de aprendizagens concretas. As crianças brincam aos pais e às mães, aos médicos, às casinhas e vão recriando a realidade que as envolve, primeiro em casa, depois na escola, no sentido de uma maturidade alicerçada e de uma mais estruturada consciência social. É nestas andanças que podem acontecer amizades para a vida...

            É isso, estamos a falar de amizades com vida própria e não daquelas que surgem já na adultícia, de geração espontânea, com carácter duvidoso, e de que depois nos lamentamos. A amizade deve crescer como uma árvore de frutos: tem de ser cultivada em terreno propício, estacada, regada, adubada, acarinhada, nunca danificada nem ignorada, para que seja possível, a seu tempo, sentirmos o delicioso sabor dos seus frutos.

            Não tratem, contudo, os pais, de forma sufocante, hiperprotectora, aniquiladora, os seus filhos, muitas vezes por insegurança em si próprios, comprometendo a aprendizagem afectiva dos filhos. Esta só medra através de uma salutar multiplicidade de contactos responsáveis, o que levará as crianças ao desenvolvimento de afectos naturais e sinceros, no âmbito de uma emocionalidade sadia, capaz de iduzir sentimentos fortes e decididos, indispensáveis à construção da verdade e da esperança no futuro.

domingo, 27 de novembro de 2016

NOTAS SOBRE A ESPÉCIE HUMANA



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       Numa das crónicas anteriores, subordinada ao título A Genuína Pureza Inicial, referimos “(...) a espécie humana – única em todo o planeta – (...)”, visando um enquadramento global, generalista, de cariz, por um lado, idiossincrático, e, por outro, de feição progressista, dado que a clivagem que contempla a diferenciação rácica dos indivíduos começa agora a ser ultrapassada, quanto mais não seja, em teoria, ao nível das (boas) intenções. É claro que tudo tem de ter o seu começo, muito embora de boas intenções esteja o inferno cheio.

            Do ponto de vista da antropologia cultural, tudo teve o seu início em África, muito antes da divisão (separação) dos continentes, tal como a observamos nos nossos dias. Terá sido, precisamente, graças à inicial ausência de separação das terras, que o homem se aventurou na senda de outras paragens. Mas reparem: as formas pré-hominídeas – Pitecantropo e Sinantropo surgem na Era Quaternária, durando esta um milhão de anos. Desde o fim da Era Quaternária até aos nossos dias decorreram, mais ou menos, 10.000 anos. E, no sentido inverso, importa aludir à era anterior – a Terciária60 milhões de anos; a Secundária – 150 milhões; a Primária – 600 milhões de anos; ao Precâmbrico – 1.400 milhões de anos. Durante esta longa noite dos tempos o planeta Terra não pertenceu a ninguém.

            Recuperando agora a ideia iniciada no parágrafo anterior, compreenderemos que, em resultado das diversas peregrinações da espécie humana, a partir de África, as alterações climáticas, o relevo e as condições de sobrevivência terão determinado, através do tempo, a natural adaptação somática dos indivíduos ao meio ambiente, donde se terão apurado as diferenças marcantes a que se passou a chamar raças. Estas verificaram-se já na sequência da aparição do Homo Sapiens – Homem de Swanscombe; Homem de Fontechevade, ao qual se seguiu o novo Homo Sapiens (actual), conforme documentos históricos descobertos nas grutas de Lascaux e Altamira. Segue-se, então, o Período Neolítico e a Época da Idade do Bronze.

            Tendo em conta o peso da verdade antropológica e a esmagadora distância que nos separa do início do Precâmbrico, facilmente se percebe que o homem, tal como o conhecemos hoje, apenas habita o planeta Terra há escassos segundos. No entanto, tem vindo a ousar fazê-lo com uma arrogância que extravasa a sua natural necessidade de afirmação e pertença; com uma sobranceria que extrapola a sua pertinente vocação de inserção e identidade; com um orgulho e ganância que ultrapassam e comprometem a sua legítima e louvável vertente de socialização construtiva e solidária.

A GENUÍNA PUREZA INICIAL



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      A presente crónica irá fluir ao sabor da imanência das ideias, isto é, sem contemplar abrangências que possam transcender o seu próprio objecto de reflexão. Sendo assim, começaremos por apontar a incontestável vocação social e política do ser humano, para recordar que nos encontramos todos “condenados” a fazer parte da teia de intersubjectividade complexa e problemática que caracteriza a vida relacional do Homem.

            E é nesta teia imensa e imbricada, que as novas Tecnologias de Informação e Comunicação potenciam, que os seres humanos se movimentam, são apanhados ou deixam enredar, praticamente desde o berço até à tumba. Mas, ao fazê-lo, vão colorindo ou enegrecendo as suas vidas e as dos outros, através da diversificação do tipo de comportamentos protagonizado, no âmbito da idiossincrasia de cada criatura – empático, narcisista, manipulador, persecutório, altruísta, parasitário, etc..

            Ao contrário dos restantes animais, que são dotados de consciência meramente nuclear e se regem por instintos, a espécie humana – única em todo o planeta – possui, para além da nuclear, também consciência alargada e procura, condicionada pela civilização, domar (ou, tão só) dosear os instintos; disciplinar a satisfação inelutável das necessidades (fome, sede, excretórias, segurança, abrigo, sono); amadurecer e equilibrar a resposta possível a dar à errância dos desejos, sem atropelo da liberdade de todos e de cada um. Dito assim, até parece simples, não acham?! Só que, cada um de nós encerra em si as suas próprias proposições e verdades (Ver, neste blogue, escrito sobre Maslow)...

            Neste ponto, achamos curiosas as ideias defendidas por Wilhelm Reich (1932), na sequência das mudanças políticas, sociais e culturais operadas na União Soviética, depois de 1917. Alicerçado na obra de Engels, “A Origem da Família”, e assente esta no conhecimento da etnologia, e, nas teses de Marx sobre o poder das classes dirigentes, Reich invoca a observação empírica e contextual da paradisíaca vida sexual, sem traumas nem neuroses, dos povos primitivos actuais (caçadores-recolectores) das ilhas Trobriand, na Melanésia, levada a cabo pelo etnólogo inglês Bronislaw Malinowski.

            Na opinião de Reich, toda esta pureza e espontânea naturalidade primordial podia ser implementada, de novo, na sociedade soviética, caso fosse diluída a moral sexual repressiva, como se o cérebro humano, ao contrário do que diz Damásio (2010), não albergasse, de forma relevante, o nosso próprio passado, e muitas vezes o passado da nossa espécie biológica e da nossa cultura.

TABU ET AL




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      O signo linguístico “tabu” evoca, necessariamente, um referente cuja representação mental deve ser imediatamente censurada, diluída, apagada, desistindo o indivíduo de prosseguir a sua linha de raciocínio, já que de tabu se trata. Sendo assim, estaria acabado o escrito e o resto da folha permaneceria imaculadamente branca, pura, misteriosa, mágica, divinizada. No entanto, o título em epígrafe refere outras coisas, e, portanto, vamos arriscar reflectir um pouco mais sobre o assunto.

            Segundo o Dicionário da Língua Portuguesa (Porto Editora), de 2006, pode ler-se que tabu é – 1 Religião – um “sistema de interditos religiosos aplicados a determinadas entidades (seres, objectos, etc.) e atitudes consideradas sagradas ou impuras; 2 interdição social ou cultural implícita de abordar determinados assuntos ou adoptar determinado comportamento; 3 [ fig.] aquilo que não é discutido ou mencionado por pudor ou educação (...) (Do mal. Taáb, “sagrado; proibido”, pelo ing. taboo,  “id.”)”. Já o médico alemão Friedrich W. Doucet (1972), refere o signo polinésio tapu, isto é, “proibido”. Feito o esclarecimento, resta dizer que a palavra é oriunda do malaio, mas radica no javanês, tendo sido os ingleses, alegadamente, a adocicar o seu sentido fónico essencial (accent).

            Voltemos a Doucet: este cientista afirma que, na Polinésia, os autóctones cultivavam uma representação religiosa primitiva, relacionada com certos objectos e pessoas intocáveis, devido ao poder e força psíquicos de cariz mágico (mana), ou seja, o poder mágico ou demoníaco dos espíritos naturais. Recordamos, a propósito, a espécie de poder mana de que gozavam os padres, professores e médicos no regime do Estado Novo – grosso modo, ao longo das décadas de 1930, 40, 50, 60 e parte de 70, em Portugal... E os políticos?! Sim, também! Embora enquadrados num clima muito mais potenciador de ambivalência, que foi abrindo caminho à resistência e à revolta.

            Mas, para os polinésios, também as parturientes e as menstruadas constituíam tabu sexual, o que levou Freud a estabelecer um paralelismo entre aquelas e os sintomas da neurose compulsiva. Assim, apontou como fundamentos a origem dos rituais e normas  que revestem o proibido; a dinâmica e o perigo de contágio do proibido; a valorização deste por imperativos intrínsecos; o desprazer inerente à proibição. Isto significa ainda que o tabu impede a inconsciente transgressão dos limites, mas deixa nos indivíduos uma sensação de ambivalência, de forte desejo recalcado de prevaricar. Por isso é que Adão levou Eva a morder a maçã – Freud, na publicação “Totem e Tabu”, fala no poder mágico do contágio que o tabu exerce.

            Já Jung, um empirista da psicologia analítica, na obra “Relações entre o Inconsciente e o Consciente”, vê o tabu como algo capaz de defender o psiquismo do indivíduo, reforçando a consciência e o ego, pelo que importa banir todos os obstáculos que tolham o desenvolvimento de personalidades fortes, equilibradas e diferenciadas, logo, prestigiadas, e alerta para o risco de fazer perigar a sua vida em sociedade, pela “perda prematura de prestígio, através da invasão operada pelo psiquismo colectivo”, de natureza transgeracional. O prestígio, aqui, deve ser interpretado como uma espécie de encanto mágico e carismático de determinadas personalidades, que a massificação compromete; por isso importa a manutençao do segredo incondicional, do tabu, para a protecção das qualidades individuais.

            Por último, encerraremos a presente reflexão com uma breve alusão à existência, na sociedade lusitana actual, de alguns tabus a saber: o silêncio de certos políticos, o sigilo nos negócios, os dogmas religiosos, as praxes estudantis, entre outros. Em todos eles impera o segredo incondicional, a garantir o prestígio dos seus detentores, no fortalecimento e diferenciação das suas personalidades e respectivos estatutos e papéis, de forma a possibilitar a afirmação da defesa dos seus interesses incontornáveis, através do exercício incontestado do poder que lhes convém manter inalterado. Mas é por isso mesmo que há quem os admire e siga.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

ADOLESCER PARA CRESCER (II)



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       Os filhos só podem ser compreendidos e apoiados pelos pais, se forem efectiva e objectivamente aceites e amados por estes e para lá destes, isto é, sem fixações neurosadas e debilitantes. O primeiro vínculo sadio à mãe, conforme tentámos dar a perceber no escrito anterior, prepara a criança para uma necessária individuação, operada através de respostas emocionais e materiais, visando uma primeira elaboração dos objectos internos e da capacidade de pensar, uma vez contido e transformado o sofrimento depressivo em esperança e amor. Mas rumemos à adolescência!

            Desde logo, importa não perder de vista a dualidade contextual interactiva interna e externa, que serve de pano de fundo (ambiente) ao adolescente, e de cuja influência recíproca se pauta o desenvolvimento do indivíduo em causa, para o bem e para o mal. De acordo com Freud, a realidade interna configura o conflito de gerações, e, a externa está ligada à substituição dos objectos de amor iniciais, por novos investimentos e identificações fora da família. Este processo, por um lado, pode não ser pacífico, devido à radicalidade da mudança, e, por outro, é susceptível de gerar novas conflitualidades, ao sabor do jogo inconsciente das sensibilidades redimensionadas, face à heteróclise dos adultos em presença.

            No âmbito desta complexa transição, Anna Freud (1958) sublinha a necessidade que o adolescente enfrenta de fazer o luto pelos objectos abandonados, como forma de defender e reforçar o próprio ego. Já Loewald (1962) refere que esses mesmos objectos não são de todo apagados do psiquismo do sujeito, o que favorece a sua emancipação. Por sua vez, Amaral Dias & Nunes Vicente (1984) apontam a fundamentalidade deste tipo de luto que se manifesta através de vários outros a saber: segurança, renovação do objecto edipiano, ideal do Eu, bissexualidade e grupo. Desta forma, estes emprestariam uma nova dinâmica intrapsíquica ao indivíduo, reforçando a sua capacidade egóica de autonomização (Fleming, 2004, pp. 44 e45).

            No entanto, estas mudanças bruscas e complexas são difíceis de enfrentar, até porque o adolescente irá sentir internamente a irrupção de uma renovada energia emocional e afectiva, a impor uma estranha clivagem face à família (pais), na procura da individuação e das relações de objecto. Essa busca é promovida pelo próprio fenómeno adolescente, determinando um arrefecimento emocional e afectivo face à família e à dependência desta, trabalhando a individuação no sentido de um self autonomizado. Nesta fase é primordial a firmeza e maturidade dos pais, para que não se adulterem as representações objectais do adolescente, na sequência da perda dos objectos infantis internos. A construção da autonomia deve prosseguir para a formação da identidade, mas ambas dependem do ritmo e qualidade da individuação e do desenvolvimento do ego (Blos, 1967; Mahler, 1963; Josselson, 1980, in Fleming, 2004, pp. 46, 47 e 48).

            Erikson (1968) aponta a capacidade do sujeito ultrapassar as várias crises da adolescência, como mais-valia do reforço da identidade, ao integrar as “identificações infantis precoces” em outras componentes psicopessoais e sociais, na procura de diferenciação e distância dos pais, contestando a estrutura e a organização familiares; desta forma consegue reconfigurar os objectos internos e externos, vivenciando novos papéis e competências, aprendendo a decidir e a saber agir, num crescendo de maturidade pessoal, mental e afectiva – recorde-se que é nesta altura que a afectividade começa a ser matizada pela sexualidade. Não comprometam os pais este processo, precarizando a qualidade dos vínculos essenciais pré-existentes, até porque, segundo Bowlby (1969), a alternância entre aproximação e afastamento à família, nesta fase da vida, não significa uma quebra definitiva (Fleming, 2004, pp. 50, 53 e 55).

            A autora investigada recorda a seguir o contributo de Amaral Dias (1988), alicerçado em Bion, referindo as “ansiedades claustrofóbicas” do adolescente: no cenário conflitual de gerações, o sujeito projecta no continente grupal todas as angústias constituídas pelas “partes idealizadas e persucutórias de si” (ambivalência parental) “contidas por identificação projectiva, em outros iguais a si”, podendo introjectar elementos que favoreçam a identidade* ou, pelo contrário, se o continente se mantiver rígido, devolvendo apenas as partes persecutórias e não as idealizadas, instaura a idealização omnipotente, impedindo o crescimento, a autonomia e a independência psicológicas (Fleming, 2004, p. 56).

            As alterações biológicas, psicológicas e sociais despoletadas pelo processo adolescente, abalam toda a realidade familiar, sendo, no entanto, extremamente saudável estar preparado para saber e poder render cabalmente as gerações precedentes, o que não implica o corte radical e definitivo com a família nuclear, desde que as partes saibam agir de forma madura e equilibrada, aceitando os respectivos papéis de diferenciação*, individuação*, autonomia e separação, sem condicionalismos redutores, frustrantes e regressivos, nem precipitações eivadas de egoísmo e abandono persecutório... E muito mais haveria ainda para dizer sobre a matéria tratada...

            Notas conceptuais*: identidade – conforme Loevinger (1976), trata-se de “um sentido emocional sobre o self, uma percepção de bem-estar e de coerência entre o passado, o presente e o futuro (...)”, aliados à interiorização intelectiva desses constructos (Fleming, 2004, p. 84);
            Diferenciação – segundo Sabatelli & Mazor (1985) é uma “propriedade do sistema familiar” que explica a manutenção das distâncias psicológicas e as adaptações sistémicas operadas (Fleming, 2004, p. 74);   
            Individuação – para Sabatelli & Mazor (1985) é um “processo de renegociação da dependência psicológica face aos outros”, condicionado pelo grau emocional (salutar ou doentio) de ligação à família (Fleming, 2004, p. 74).
           


            Referências bibliográficas:
           
            Dias, C. A. & Fleming. M. 1998. A Psicanálise em Tempo de Mudança – Contribuições teóricas a partir de Bion. Biblioteca das Ciências do Homem. Edições Afrontamento. Porto.

            Fleming, M. 2004. Adolescência e Autonomia – O desenvolvimento psicológico e a relação com os pais. Biblioteca das Ciências do Homem. Edições Afrontamento. Porto.

CRESCER PARA ADOLESCER (I)




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NOTA PRÉVIA: Os textos des-criptos (I & II) são dedicados a quem acontece nascer...
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            Não é tarefa simples escrever sobre a qualidade do vínculo do bebé à mãe e sobre a entrada na adolescência, nem muito menos tentar fazê-lo ao longo de meia dúzia de parágrafos. Ainda assim, vamos tentar esboçar um conjunto integrado de ideias sobre o assunto, procurando lançar alguma luz sobre esta matéria, cada vez mais candente e problemática, nos dias que correm, fundamentalmente, devido ao crescente alheamento e imaturidade dos progenitores, tendo em conta os seus comportamentos atitudinais eivados de incompetência e irresponsabilidade.

            Nesse sentido, convém recordar, desde já e de forma sintética, que a criança recém-nascida tem absoluta precisão de manter com a mãe um vínculo saudável que lhe permita a gradual aquisição da consciência de si e da unidade do seu corpo, num clima seguro e emocionalmente gratificante, integrando aspectos identitários do self e dos objectos externos, para, assim, ir construindo, paulatinamente, a devida autonomia no seio da família, como viu Melanie Klein. Aliás, esta funcionalidade será modelar para as futuras relações sociais, segundo Freud, Adler, Lorenz, Zimmerman, Bowlby, e outros.

            Este tipo de relação psicodinâmica, que Winnicott designa de holding environment, reforça a afectividade e o conhecimento, e promove a autonomia, e, ainda no dizer de Klein, desenvolve defesas contra a ansiedade persecutória, preparando o bebé saciado e tranquilo para a relação de objecto. Ora, as relações objectais abarcam, não só o universo (consciente) pessoal do sujeito, mas também os seus objectos internos (inconscientes). Neste ponto, Klein alerta para a dependência excessiva da mãe, muito embora o amor desta possa sanar a relação; o mesmo não se pode dizer da fixação do sujeito a uma certa avidez lactente – quando tal acontece –, deformadora do ego e fatal para a estruturação da personalidade (cisões egóicas e desligamento), porque recusa o objecto e procura apenas satisfação.

            Nesta sequência relacional, salientemos as teses de Wilfred Bion – é fulcral a sua visão de toda esta problemática, quando o mesmo refere a interacção continente (mãe)-conteúdo (bebé), através da identificação projectiva (Klein) e da relação dinâmica entre as posições esquizo-paranóide e depressiva (Klein), donde resulta a formação do aparelho para pensar os pensamentos, ou seja, são os pensamentos que produzem a actividade de pensar. Nas relações frustradas e frustrantes pode haver uma perturbação na progressão dos pensamentos ou no estímulo exercido por estes no psiquismo do bebé (aparelho para pensar os pensamentos) ou em ambos os processos.

            Assim, a criança constrói o seu processo identitário e a sua estrutura psíquica, projectando na mãe (rêverie)* as suas angústias, medos e emoções, a seguir “lavados” e introjectados, sendo inerente a este fenómeno um conjunto de reacções somato-psíquicas que envolvem Amor (Love), Ódio (Hate) e Conhecimento (Knowledge) – L; H; K. Não há emoção sem relação, sendo estas relações iniciais que preparam o futuro social das interacções objectais adultas.

            Mas Bion vai mais longe e analisa a relação de per si, apontando a possibilidade de “ataques aos vínculos”, isto é, a mãe pode não conseguir albergar os sentimentos do filho ou, então, pode o bebé, por (H) ódio ou inveja, impedir o papel metabolizador da mãe, frustrando o (K) conhecimento; tanto num caso como no outro está comprometida a relação de (L) amor, a aprendizagem e o desenvolvimento. Estas situações configuram, por um lado, uma identificação projectiva patológica, onde prevalece uma inata baixa tolerância à frustração; segundo Grinberg (1973), ocorrem fantasias omnipotentes (defesas) passíveis de dissociar partes do Eu e dos objectos internos, projectados e controlados na mãe; por outro lado, a identificação projectiva saudável, gera boa tolerância à frustração e padroniza todos os vínculos e relações de empatia, comunicação e compreensão dos afectos projectados... aprendizagem utilíssima pela vida fora.

            Ainda que Freud tenha oposto o princípio do prazer ao da realidade; mesmo que Klein faça depender o desenvolvimento do bebé, da capacidade de amar da mãe; considerando até que Bion  aponta a estagnação mental e a loucura, como resultado das perturbações relacionais verificadas entre a mãe e o bebé, na prática, tudo se resume à sucedida abrangência emocional partilhada, sempre imbuída de afectividade sadia, para que a relação dinâmica possa gerar conhecimento a partir da experiência íntegra vivenciada, isto é, vinculando o sujeito à verdade, ao invés de o lançar nas malhas da dor mental, da angústia, da frustração ansiosa, como quando o bebé destila inveja e voracidade.


            * Rêverie – Sensação gratificante, vivenciada no limiar da vigília e do sono.



Referências bibliográficas:
            Dias, C. A. & Fleming. M. 1998. A Psicanálise em Tempo de Mudança – Contribuições teóricas a partir de Bion. Biblioteca das Ciências do Homem. Edições Afrontamento. Porto.
    Fleming, M. 1993. Adolescência e Autonomia – O desenvolvimento psicológico e a relação com os pais. Biblioteca das Ciências do Homem. Edições Afrontamento. Porto.
            Grinberg, L. (1973). Introdução às ideias de Bion. Imago. Rio de Janeiro.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

EDUCAÇÃO E ÉTICA GLOBAL



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    A globalização está aí (escrevemos em 2003), quer se queira, quer não; não só com todos os seus aspectos e influências negativas, mas também aportando um sem número de particularidades e repercussões positivas. Por isso, no âmbito da Educação, deve ser acautelado aquele conjunto de valores culturais universais, a ter em conta, no sentido da observação, promoção e implementação de uma ética global.

            Hoje em dia, tanto quanto nos parece, todas as nações do mundo devem interiorizar, de forma pragmática e civilizada, a saudável e natural interdependência face às demais. Nesta medida, os países que recusem a prática de valores universais de carácter fundamental, sujeitam-se à marginalização de quem opta por virar as costas aos ventos da mudança.

            Todos os povos possuem direitos e deveres, globalmente aceites e reconhecidos, devendo estar à altura dos mesmos e das suas responsabilidades sociais, evidentemente, sem atropelos pelas suas tradições culturais e pelas dos outros. Tal estado de espírito e propósitos devem radicar numa prática democrática diária, de participação colectiva, que contemple a equidade social, também ao nível das decisões, mormente  no campo político.

            A paz mundial deve ser sempre o objectivo, tangível apenas pela via do diálogo, sublinhando a inelutável importância da coexistência pacífica, multiétnica, da harmonia social, num quadro de compreensão e tolerância, face às diferenças e ao pluralismo culturais.

             Um outro valor ainda, indispensável à criação e manutenção de uma ética global a partir da Educação, prende-se com a empatia pelo próximo; esta deve começar no seio da família, ser extensível aos amigos, aos indigentes, aos pobres e aos doentes, em prol das comunidades; esta empatia, sempre que possível, dever traduzir-se em altruísmo actuante, solicitude que não pode ignorar a ecologia.

            Todas as economias dependem dos seus sistemas produtivos, associados à criatividade e à iniciativa; estes são valores seguros face à normalidade vivencial do quotidiano, potenciados à escala mundial pela dinâmica dos avanços tecnológicos. Importa, contudo, operar uma abertura das mentalidades, compreender e aceitar as mudanças e o progresso útil, lúcido e sustentável. Quanto mais forte  e consensual for a expressão da vontade colectiva, mais rápido e harmonioso será o desenvolvimento dos povos.

            Uma última nota apenas para referir o papel da mulher na(s) sociedade(s), sobre o qual recaem mais expectativas, exigências e arbítrios; violências, perseguições e chantagens, sem que as coisas tenham mudado significativamente de feição. Nesta conformidade, a Educação, seja em que país for, deve ser capaz de agarrar todo este conjunto de valores culturais universais, rumo à promoção de uma tão necessária como, até aqui, arredia ética global.

FORMAÇÃO INTEGRAL E EDUCAÇÃO FÍSICA



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      No país que somos nunca o poder instituído quis, pôde ou soube, por razões que não cabe aqui referir, atribuir grande papel ou importância à Educação Física em particular, até porque nunca soube, quis ou pôde emprestar a fundamentalidade que caberia, por direito e dever, à Educação em geral, visando a preparação cabal das gerações futuras.

      Sendo assim, uma vez menosprezado o papel da Educação Física – recordemos apenas o caricato cancelamento da atribuição de nota classificativa à disciplina, decidido por Nuno Crato, no governo de Passos Coelho (2011-2015) –, é evidente que a sua influência (estatuto e papel) fica manifestamente reduzida e, com ela, numa dinâmica inversamente proporcional, disparam os comportamentos desabridos de indisciplina, desinteresse e má-criação no seio do clima escolar.

      Pessoalmente, só pelos 10 anos de idade tivemos o primeiro contacto com a Educação Física, no ensino privado, em instalações invejáveis, onde, para além de um amplo ginásio, sevido de balneários com água quente e fria..., cordas, arcos, plintos, tranpolins, espaldares, colchões, etc., a orientação das aulas estava a cargo de um profissional na matéria, curiosamente cinturão negro-judoca. Decorria o ano lectivo de 1959/60.

      É inegável o condão que a Educação Física operou em todos nós: esta disciplina conseguiu, não só desempenhar o seu papel específico, imediato, salutar, lúdico, distensor, mas também exerceu uma influência desiciva no nosso comportamento relacional cívico, filosófico e desportivo.

      Importa, pois, que os responsáveis pelo Ministério da Educação – o executivo de António Costa, segundo notícias recentes, reintroduzirá a atribuição de nota classificativa à disciplina de Educação Física – passem a encarar esta área formativa como uma das pedras basilares da preparação harmónica e integral, nas suas vertentes física e mental, de todos os alunos abrangidos pelo Sistema Educativo de Portugal.


      Por tudo quanto fica dito, a Educação Física deve permanecer como área insubstituível, tanto mais que o sedentarismo actual das populações, a arrepiante inércia dos nossos jovens e crianças, potenciada pelo magnetismo das Novas Tecnologias, a limitação ou inexistência de espaços verdes urbanos e de áreas de recreio e de lazer (até nas próprias escolas, hipermassificadas pelos mega-agrupamentos) têm vindo a comprometer todo o significado da velha máxima de Juvenal “mens sana in corpore sano”.

O REBANHO DAS AUDIÊNCIAS


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       Por muito que se não queira; ainda que se ignore; mesmo que se diga o contrário, na esmagadora maioria dos casos, sempre que duas pessoas interagem, tentam sempre levar a melhor uma sobre a outra, de forma deliberada ou subliminar, protagonizando esse tipo de relação tão caracteristicamente humana, tão intrinsecamente própria do chamado “rei” dos animais, tão inerente ao âmbito das sofisticadas “qualidades” desse predador único e insubstituível, que se tem encarregado de, no decurso dos anos, laboriosamente, ir destruindo, sem contemplações, esta nossa única, e também insubstituível, casa planetária.

         Este género de necessidade primária, que a educação e o verniz social tentam contornar ou diluir, pode tanger, por vezes, o limiar do doentio, e, manifesta-se, como é evidente, muito mais em certos indivíduos, pelo que se faz sentir com menor acuidade em outros que não aqueles. Por outras palavras, podemos afirmar que existem certas almas, porque a excepção só vem confirmar a regra, dotadas de espírito nobre, de capacidade solidária, altruísta, de sentido de justiça, de visão empática das diversas situações vivenciais, de equilíbrio emocional e afectivo, moral, ético e social, enfim, ainda vai havendo quem assim seja.

            Não é, no entanto, destes poucos eleitos que pretendemos falar. Não, pelo contrário, a nossa intenção, hoje, é discernir um pouco a respeito dessas minorias que, integrando a maioria das pessoas que, salvo informação contraditória, com urgência comprovativa, tudo fazem no sentido de levar a água ao seu moinho, como é o caso dos senhores que se pelam pela detenção continuada do poder político e/ou aqueles outros que, de forma afanosa e obcecada, vendem a alma ao Diabo só para aumentarem até aos limites irracionais do inútil e do impossível os lucros dos seus impérios financeiros especulativos, doa a quem doer, custe o que custar, por cima de quem quer que seja, nem que para tal tenham de transformar a própria sociedade num imenso rebanho amorfo de seres desprovidos de vontade, de valores, de princípios e de capacidade de sonhar.

Pois é, o poder económico e o político, quantas vezes da mãos dadas e outras tantas de candeias às avessas, tudo apostam visando o domínio dos pobres coitados dos cidadãos ditos de pleno direito (?!), com o fim claro e definido de deles se aproveitarem, para que tudo o que eles são e representam em termos de votos e ganhos remuneratórios possa acabar por reverter, de forma rápida, para os interesses e bolsos desses dois famigerados grupos de “estrelas”, onde pontificam excepções, como está bem de ver. Importante mesmo é cortar cerce, à nascença, a capacidade de sonhar de que todo o ser humano é dotado. Como fazê-lo?

            Nada melhor do que recorrer a certos “media”, da forma mais expedita possível, fazendo apelo às mais primitivas, rasteiras e inconfessáveis tendências “animalescas” do ser humano, colocando-o, sem que ele tão pouco se dê conta, na engrenagem maquiavélica das audiências às quais respondem e correspondem surdos desejos recalcados, de sexo, violência, ódios, vinganças e outras chafurdices deploráveis. É isso: nada melhor do que levar o incauto cidadão ao consumismo exacerbado de doses maciças de imagens calculadamente urdidas, numa alienação abominável em proveito do objecto contemplado, ao sabor da eclosão da sua própria actividade inconsciente. E ei-los que se deliciam, sem razão aparente, nas imagens dominantes da necessidade, robotizados, anestesiados, devorando o pasto verde e tenro das audiências, comprometendo a razão de atribuição e uso desse filtro racional secundário indispensável a qualquer situação de vida tendente a ser analisada primeiro e decidida depois.

            Somos dotados de inteligência, de raciocínio, mas as imagens que nos esmagam no quotidiano, subvertem e impedem que atribuamos significação consciente e plausível às mesmas, para que delas partamos para o necessário recompletamento do universo imaginário dos sonhos de que, o simples mas construtivo acto de ler é exemplo paradigmático.

            Os “media” - certos “media” - constituem hoje uma ultrajante ofensa, uma aniquilante devassa, uma despudorada intromissão de lesa dignidade pessoal e social dos indivíduos que deles não conseguem furtar-se. Como escrevemos num artigo recente: “eles, “media” (os que o fazem), “governam” pelos governos, “decidem” pelas instituições, “opinam” pelos cidadãos”, numa escalada de descaracterização das mais elementares normas da própria democracia que, desta maneira, pode mesmo correr o risco de vir a enfermar de uma certa debilidade estruturalizante.


            O Rebanho das Audiências encontra-se já nos pastos do descalabro político-económico e social sem deixar que ninguém, para já, se consiga opor a quem para lá o lançou e alimenta. Deparamo-nos com uma sociedade, como o é a portuguesa, toda ela a braços com a depauperante desconstrução, via “media”, articulada e titerizada pelos cavalheiros dos poderes económico e/ou político. Se quisermos abrir os olhos, estaremos sempre a tempo, embora comece a ser cada vez mais difícil remar contra a maré destes dois oceanos deveras turbulentos, agressivos, implacáveis mesmo, e extraordinariamente bem orquestrados nas suas motivações e objectivos (In “O Primeiro de Janeiro” [12/2004]).

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

DA PSICOLOGIA INDIVIDUAL À RELACIONAL


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    O futuro vital da humanidade deve ser sempre equacionado em função do futuro mental da mesma; ora este deve ser preparado desde já, colocando de lado os obsoletos métodos utilizados no passado pela psicologia do desenvolvimento individual, que tão maus resultados viriam a trazer à sociedade ocidental.

            No caso português, o individualismo esteve sempre na mó de cima, e, depois da independência do Brasil (1822), da bancarrota (1892), do fim da Monarquia (1910), da catástrofe da participação nacional na 1.ª Grande Guerra (1916), do desastre completo da 1.ª República que se finou, por culpa própria, em 26 de Maio de 1926, o país tinha criado as condições necessárias para que o Estado Novo vingasse. De trambolhão em trambolhão, uma vez mais, foi dada a primazia ao individualismo e ao corporativismo. Até ao 25 de Abril de 1974, o regime foi sempre avesso à Psicologia ou à Pedagogia.

            Uma das medidas mais inovadoras do período subsequente ao 25 de Abril, foi a inclusão, nos curricula do Magistério Primário, das cadeiras de Psicologia, Pedagogia e Psicopedagogia, olhadas agora de uma perspectiva moderna e actuante, no âmbito das relações inerentes à intersubjectividade humana. E tudo começa em casa, em família; importa, por isso, conhecer a criança e aceitá-la, para ser possível tirar partido das suas potencialidades, a caminho da sua afirmação pessoal; situando-a, salutarmente, no seio da triangulação familiar, de forma a melhor estruturar a sua personalidade.

            No caso francês, honra lhe seja feita, tudo teve início em 1946, não obstante o abalo moral, as perdas pessoais e os estragos materiais causados pela 2.ª Guerra Mundial... ou talvez por isso mesmo! Nesse ano, a Academia de Paris criou o primeiro Centro Médico-Psicopedagógico Claude Bernard, para cuja Direcção-médica foi nomeado o Dr. André Berge (1902-1995). Esta extraordinária equipa contou ainda com o Dr. Georges Mauco (1899-1988), com a participação da Dr.ª Françoise Marette-Dolto (1908-1988) e da D.ª J. Boutonnier, todos eles conhecidos hoje como tendo sido autênticos monstros sagrados da Psicopedagogia e da Psicanálise. 

            E terminámos, recordando precisamente um dos grandes ensinamentos de Mauco: em certo sentido – afirmava – a criança inadaptada não existe, pelo que o que se encontra desajustada é a sua relação com o outro, na forma como se entrechocam os seus sentimentos inconscientes e os dos seus educadores. Importa, portanto, “compreender as situações relacionais profundas, fazê-las aceder a uma linguagem social”, através da tomada de consciência recíproca, num diálogo humano, muito para lá do jogo enganador das aparências que o desejo inconsciente manifesta (Mauco, 1967: p. 16).

            NOTA: O Dr. René Laforgue (1894-1962) afirmava que o desejo, sendo errante e não fixo como o instinto, “é captado pelo imaginário simbólico inconsciente”.

OS ACTIVOS E OS REACTIVOS




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      Estamos convencidos de que a maior parte das pessoas, na sociedade ocidental, é maioritariamente reactiva, pelo que existe uma minoria apenas manifestamente activa. De resto, tanto os elementos que cabem nesta nossa proposta dicotómica, como os que se quedam pelas respectivas excepções, tentam sempre cumprir o percurso identitário e afirmativo que melhor os realize.

          Curiosamente, os mais capazes e habilitados, os mais dotados e competentes, os mais ponderados e sensatos, de acordo com o que vamos observando, não se encontram no segundo grupo, mas, ao invés, enquadram-se no conjunto dos primeiros. O resultado é que todos saímos a perder: quer no seio da família, quer no âmbito escolar ou laboral, quer ainda no que diz respeito a outro tipo de cenários a saber, o empresarial, económico-financeiro, político, governamental, entre muitos outros.

            Sendo assim, temos de nos haver com o pequeno grupo dos que conseguem, por sistema, estar sempre em bicos de pés, dos que tudo fazem para ganhar visibilidade e ascendência sobre os demais, dos que possuem engenho e arte para convencer airosamente os outros; dos que tão bem sabem levar a água ao seu moínho. É que são estes, estranhamente ou não, os que tomam a dianteira, pondo e dispondo, agindo e controlando, decidindo e governando.

            Esse dinamismo, que claramente os caracteriza, está-lhes na massa do sangue; precisam dele como de pão para a boca, e, portanto, arranjam sempre maneira de estar na linha da frente, para mal dos nossos pecados, nem que para tal seja necessário desviar quem lhes possa eventualmente fazer frente. Provavelmente, enfermarão de uma mal resolvida auto-estima, de um certo complexo de inferioridade, de uma espécie de egocentrismo arreigado, a exigir atitudes compensatórias de feição inconsciente, o que não abonará nada em favor da sua maturidade pessoal, nem do seu protagonismo social, moral e espiritual. Basta olhar à nossa volta.

            Embora haja excepções, tanto num grupo como no outro, como apontámos no início, convém agora referir que os reactivos são muito mais contemplativos e estudiosos, mais teóricos mas menos precipitados, mais acomodados e pacientes, mais inteligentes e sábios, e, ainda, muito mais avisados e coerentes. Reparem, quando se trata de fazer escolhas responsáveis, no nosso universo relacional intersubjectivo, os comportamentos atitudinais, face aos contextos, devem assumir uma importância relativa e diferenciada; é necessário, nesta medida, fazer escolhas, e estas variam de importância conforme os enquadramentos, mas é precisamente aí, ao hesitar, pensar, avaliar e decidir, que os reactivos demonstram muito mais maturidade, equilíbrio, paciência, capacidade atilada de análise e de decisão.   

            NOTA: No grupo dos reactivos e dos activos não incluímos os que integram “O Rebanho das Audiências” (Santos, 2004), nem as massas que alimentam “A Sociedade do Espectáculo” (Debord, 2012), nem os adictos inveterados que se ligam de forma irracional às Novas Tecnologias de Informação e Comunicação.