quarta-feira, 26 de outubro de 2016

DA PSICOLOGIA INDIVIDUAL À RELACIONAL


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    O futuro vital da humanidade deve ser sempre equacionado em função do futuro mental da mesma; ora este deve ser preparado desde já, colocando de lado os obsoletos métodos utilizados no passado pela psicologia do desenvolvimento individual, que tão maus resultados viriam a trazer à sociedade ocidental.

            No caso português, o individualismo esteve sempre na mó de cima, e, depois da independência do Brasil (1822), da bancarrota (1892), do fim da Monarquia (1910), da catástrofe da participação nacional na 1.ª Grande Guerra (1916), do desastre completo da 1.ª República que se finou, por culpa própria, em 26 de Maio de 1926, o país tinha criado as condições necessárias para que o Estado Novo vingasse. De trambolhão em trambolhão, uma vez mais, foi dada a primazia ao individualismo e ao corporativismo. Até ao 25 de Abril de 1974, o regime foi sempre avesso à Psicologia ou à Pedagogia.

            Uma das medidas mais inovadoras do período subsequente ao 25 de Abril, foi a inclusão, nos curricula do Magistério Primário, das cadeiras de Psicologia, Pedagogia e Psicopedagogia, olhadas agora de uma perspectiva moderna e actuante, no âmbito das relações inerentes à intersubjectividade humana. E tudo começa em casa, em família; importa, por isso, conhecer a criança e aceitá-la, para ser possível tirar partido das suas potencialidades, a caminho da sua afirmação pessoal; situando-a, salutarmente, no seio da triangulação familiar, de forma a melhor estruturar a sua personalidade.

            No caso francês, honra lhe seja feita, tudo teve início em 1946, não obstante o abalo moral, as perdas pessoais e os estragos materiais causados pela 2.ª Guerra Mundial... ou talvez por isso mesmo! Nesse ano, a Academia de Paris criou o primeiro Centro Médico-Psicopedagógico Claude Bernard, para cuja Direcção-médica foi nomeado o Dr. André Berge (1902-1995). Esta extraordinária equipa contou ainda com o Dr. Georges Mauco (1899-1988), com a participação da Dr.ª Françoise Marette-Dolto (1908-1988) e da D.ª J. Boutonnier, todos eles conhecidos hoje como tendo sido autênticos monstros sagrados da Psicopedagogia e da Psicanálise. 

            E terminámos, recordando precisamente um dos grandes ensinamentos de Mauco: em certo sentido – afirmava – a criança inadaptada não existe, pelo que o que se encontra desajustada é a sua relação com o outro, na forma como se entrechocam os seus sentimentos inconscientes e os dos seus educadores. Importa, portanto, “compreender as situações relacionais profundas, fazê-las aceder a uma linguagem social”, através da tomada de consciência recíproca, num diálogo humano, muito para lá do jogo enganador das aparências que o desejo inconsciente manifesta (Mauco, 1967: p. 16).

            NOTA: O Dr. René Laforgue (1894-1962) afirmava que o desejo, sendo errante e não fixo como o instinto, “é captado pelo imaginário simbólico inconsciente”.

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