quarta-feira, 22 de novembro de 2017

INCONGRUÊNCIAS DA HOMINIZAÇÃO

     




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       Dizia-nos, há dias, uma pessoa das nossas relações, que a humanidade está no fim da linha; em fim de ciclo... Resta saber se outro ciclo se seguirá, dizemos nós – não tanto por tudo quanto o bicho-homem faz a si próprio, mas principalmente pelas agressões diabólicas perpretadas contra a nossa morada-única-planetária. Foi esta a resposta apresentada, e acrescentámos que a humanidade foi sempre autofágica e persecutória, mas com o decorrer dos séculos tem vindo a apurar, com subtileza e sofisticação – aliados a um crescente sadismo e fúria destruidora, as mais modernas ferramentas capazes de fabricar (progresso oblige) os mais letais e aniquiladores equipamentos bélicos, de resto, em consonância com a génese antropológica da tirania e do ávido desejo de poder.

        Independentemente de tudo quanto se passa, isto é, para lá de todos os factos ocorridos, cujo crescendo se deve ao já apontado progresso, o conhecimento dos mesmos, nos nossos dias, que não no passado, com carácter omnipresente e em tempo real, por força das novas Tecnologias de Informação e Comunicação, provoca nos indivíduos uma sensação de inexorabilidade, de carga insuportável, de dinâmica imparável, de agitação permanente, ou seja, de angústia existencial que a pequenez, insegurança e finitude humanas facilmente ratificam e consolidam.

      Quem teve, afinal, ao tempo, ou tem mesmo hoje, noção da forma bárbara, cruel, demoníaca, cínica, sádica como eram tratadas, usadas e abusadas as crianças (omitiremos, por agora, os adultos) nos séculos XVIII e XIX, pelos próprios pais, patrões ou instituições de acolhimento (?!). À data, as mulheres eram apenas propriedade dos maridos, máquinas de fornicação ou poedeiras de serviço, sem nenhuns direitos sobre os filhos. Os progenitores usavam e abusavam dos direitos que a própria lei lhes outorgava e chegavam a ter comportamentos animalescos em relação às crianças. Em Inglaterra, país industrialmente desenvolvido na época, só em 1908 é que o Supremo Tribunal de Justiça promulga a primeira Children Act, visando corrigir certos excessos paternos.

          Nos dois séculos anteriores, as crianças eram obrigadas a trabalhar nas fábricas horas a fio, mal dormidas e mal comidas, acabando a maioria por morrer devido a doenças ou por invalidez irreversível. No ano de 1802, uma lei reduziu para 12 (doze) horas o trabalho das crianças nas fábricas de têxteis, e impôs que os patrões respondessem pelo alojamento, comida, ensino da leitura e da escrita aos seus minúsculos escravos... Sir Robert Peel, parlamentar e industrial de Lancashire, foi o autor da novidade, convencido de que assim aumentaria a produção. Mais tarde, em 1819, Robert Owen pressionou Peel a constituir uma comissão de inquérito que avaliasse as condições do trabalho infantil nas fábricas de algodão. O resultado foi a publicação de uma lei que só permitiria o trabalho para maiores de 9 (nove) anos, ficando os menores de dezasseis anos obrigados a trabalhar treze horas e meia por dia (?!).

           Tudo isto não passava de uma grande fantochada: o estado não tinha ascendência sobre os patrões, os pais suspiravam pelos salários, por mais miseráveis que fossem, e os fiscais não actuavam; também não havia certidões de nascimento – obrigatórias apenas depois de 1837. Quatro anos antes, em 1833, o Governo procura proteger mais as crianças e, o deputado Lord Sadler, substituído depois por Lord Ashley (Shaftesbury), encolheu para dez horas diárias o trabalho para menores de 18 (dezoito) anos, não obstante a musculada resistência dos patrões. A Lei Comercial de 1844 estabeleceu já diferenças de vulto – o trabalho teria de alternar com a frequência escolar. Em 1918, a lei impôs a diferenciação entre o trabalho e a escola. A criança passaria a ser encarada, gradualmente, como sendo gente, mas...

      (...) em 1933, a Children and Youg Persons Act proibe a crueldade para com as crianças, contudo permite os castigos corporais... Uma no cravo, outra na ferradura! Na Alemanha, entretanto, Hitler destilava veneno. Já agora, recorde-se que na era industrial não existiam normas nem cuidados ecológicos, nem saneamento, nem água canalizada nem esgotos, nem a Declaração Universal dos Direitos do Homem, nem muitas outras coisas pretensamente reequilibradoras... as pessoas morriam aos milhares... a comunicação era escassa, lenta e distorcida... Penso que, ao longo da História, sempre estivemos no fim da linha; em fim de ciclo, ainda que nunca o soubéssemos...



A PSICODINÂMICA DO "CITIZEN KANE"





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          A RTP Memória, um dos poucos canais televisivos com alguns conteúdos de qualidade, passou na tarde soalheira deste seco Outono nacional (13/11/2017), a obra-prima cinematográfica de Orson Welles, “Citizen Kane” -- título mal traduzido em Portugal para “O Mundo a Seus Pés”. Refira-se, desde já, que o filme em apreço tem sido visto, por maioria de razão de quem sobre o mesmo se tem debruçado, apreciado (analisado) e tecido considerações, como o exemplo acabado, paradigmático, de um bem orquestrado exercício ritualizado de práticas jornalísticas onde se confrontam o poder e o contra-poder, e onde se confundem a objectividade e a subjectividade, o que coalha a credibilidade dos factos a noticiar.

    Charles Foster Kane – “Citizen Kane”, o protagonista, preocupa-se com os deserdados da sorte, logo é profundamente humano com as maiorias desfavorecidas (decorre a depressão económica dos anos 30 – séc. XX), mas desafia de forma caprichosa, discricionária e irreverente os jornais seus concorrentes, dirigindo a seu bel-prazer as publicações pelas quais responde. Mas, quem detém, afinal, a verdade?! Quem é capaz de ler a realidade sem confundir o ser e a aparência? A leitura objectiva de qualquer facto está sempre carregada de uma certa subjectividade associada à lente sócio-cultural e económica e ao contexto ideológico... por muito que se tente ser objectivo.

       Curiosamente, foi nesta época da história do jornalismo, segundo Jay Rosen (1956 - ....), que se lavraram acordos e cláusulas para que aos jornalistas fosse garantida liberdade de acção e independência, na óptica da objectividade factual. No entanto, quem financia os media não está interessado em perder dinheiro e, rapidamente, a tónica da objectividade é colocada na transformação das notícias em “instrumentos de marketing de qualquer espécie” ( Traquina & Mesquita, 2003: p. 76).

    Voltando ainda ao filme “Citizen Kane”, importa agora chamar a atenção para o enigma que perpassa toda a acção, e que se nos afigura como uma fixação regressiva primária que amarra o protagonista e o condiciona (psicodinâmica inconsciente) do princípio ao fim. Este mistério é regularmente evocado por Kane, através do referente-significante-signo-sinal - “Rosebud”. Mas é esta mesma psicodinâmica inconsciente que consegue gerar matéria para uma narrativa multidimensional e polissémica, onde se congregam referências várias – magnetismo, “glamour”, poder, arbítrio, manipulação, prepotência, e identificação projectiva – através da fantasia omnipotente operada pela voz (autoritarismo de Kane, que a mais recente mulher-mãe [Susan Alexander] tolera cada vez menos): ela tinha de ser, à força, a sublimatória cantora de ópera. Como amante, ele era um desastrado, embora fosse socialmente civilizado e cívico; como jornalista era representativo e ditador; como pessoa, era incapaz de crescer e de se transformar emocionalmente.

      Por último, torna-se fulcral sublinhar as cenas iniciais do filme (e a última), pois constituem, quanto a nós, a chave de toda a história e a explicação do enigma. Charles Foster Kane é filho de uma família pobre e desestruturada: a mãe (fria, calculista e seca) é quem manda em casa; o pai (frouxo, diminuído e patético) é um pobre diabo, e o filho, encarcerado nesta triangulação relacional edipiana nefasta, refugia-se na neve (pureza) exterior e evade-se em lúdicas aventuras com o seu querido trenó. A família, inopinadamente, sendo objecto de uma tão imensa quanto inesperada fortuna, obriga o menino a abandonar o trenó e a viajar da Inglaterra para a América, com um tutor que lhe administrará a riqueza até à maioridade. Na última cena do filme, depois de Kane ter sido abandonado pela única mulher que julgou ter amado (reminiscência da mãe), acaba por morrer (pela segunda e definitiva vez), sendo queimados os seus pertences... e o trenó, onde se pode ler, pela primeira e última vez, a palavra “ROSEBUD”...

   Eugene O`Neall (1888 – 1953) escreveu: “Não existe presente nem futuro; só o passado se repete nas nossas vidas, de forma insuportável, vezes sem conta”.


quinta-feira, 14 de setembro de 2017

EDUCAÇÃO XXI

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       Por razões óbvias, nos dias que correm, importa dar o devido destaque ao significado e alcance da formação da personalidade das nossas crianças e jovens. Hoje, mais do que nunca, deve ser esse o papel pedagógico fundamental da Educação, com vista à harmoniosa e equilibrada formação do carácter dos futuros cidadãos.

     Depois de ter sido nómada, a Humanidade, no decorrer do século XX, transformou-se, rapidamente, em sedentária, por força do desenvolvimento industrial, o que, por si só, viria a imprimir significativas alterações e mudanças na estrutura social, principalmente nos países ocidentais. Os valores, as tradições, os costumes e a ética apresentam-se-nos agora segundo novos contornos. A economia, a política e a cultura dominam as instituições, de forma praticamente omnipotente e omnipresente, onde o ser humano vai perdendo gradualmente a sua identidade.

     Já no presente século XXI, por força das novas Tecnologias de Informação e Comunicação – assustadoramente virtuais e linguisticamente dessimbolizadoras, a desregulamentação e volatilidade dos mercados – esmagadora e dilacerantemente angustiantes, o trabalhador (o que ainda consegue trabalho) tem sido transformado num “organon”, isto é, num mero instrumento coadjuvante da robótica ditatorial, implacável, que coarcta toda a sua dinâmica criativa, a sua espontaneidade, independência, autonomia e responsabilidade. Os objectos de elaboração interior são mesmo esmagados pela avassaladora invasão dos objectos que do exterior se insinuam.

     Também a educação funcional, dirigida aos interesses das crianças, tem vindo a substituir a educação intencional, comprometendo a solidez estrutural das personalidades em formação... embora, segundo a moderna pedagogia, a educação funcional tenha o condão positivo de apelar para uma certa dinâmica mental espontânea. Não restam dúvidas, no entanto, de que o progresso é sempre castigador, logo o homem tem de ser capaz, em democracia, de se saber situar e, conforme a realidade contextual, estar apto a avaliar e decidir responsavelmente, buscando a sua felicidade sem atropelar a dos outros.

     Por tudo isto, e em conclusão, diremos que a Escola deve estar atenta aos antecedentes familiares das crianças, e aos seus territórios de inserção e pertença, já que deve ser fomentada a coesão entre os vários elementos da turma: os alunos alegres, bem
arranjados, descomplexados e cordatos interagem com agrado e de forma pacífica, em princípio; estes respiram objectividade, energia criativa e expressividade, o que não é mais do que uma manifestação saudável de personalidades bem estruturadas. No entanto, as crianças encapsuladas, nervosas, inseguras, tímidas ou apáticas (“nEAS” [não-Emotivo-Activo-Secundário], conforme Heymans e Le Senne)*, afastar-se-ão daquelas.

     Os primeiros (a minoria) pertencem ao grupo dos que beneficiam do progresso; os segundos (a maioria) fazem parte da “massa anónima” dos que são vítimas desse mesmo progresso. A juntar à análise que o reputado cientista James Lovelock tem feito sobre o catastrófico progresso (Santos, 2013: p. 18), citamos agora Francesco Alberoni: “(...) sobretudo”, o progresso, “compromete os valores consolidados, os modos de viver tradicionais e tranquilizadores sem que outros lhes tenham tomado o lugar. Por isso difunde-se um obscuro mal-estar social e o futuro apresenta-se ameaçador e incerto” (Alberoni, 2000: p. 121).

     Desta maneira, importa, em contexto de sala de aula e em nome da estruturação das personalidades, dosear as tendências, refrear os ânimos, atenuar os temores, diluir angústias e integrar as crianças da(s) turma(s) para vantagem de todos, recorrendo, para tanto, a equipas multidisciplinares; evitar-se-ão, deste modo, não só estrelatos narcisistas, mas também bodes expiatórios, devido à relativização operada pelo impacto caracterológico dos grupos em presença.

*Nota: C. Heymans (1892-1968); Le Senne (1882-1954

domingo, 9 de julho de 2017

NA CORDA BAMBA


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      De volta ao assunto (Alienação Parental), para, talvez, tentar concluir o conjunto de ideias avançado em 22/06/2015, na primeira parte de tão melindrosa matéria, cujo título não nos satisfaz, enfim..., mas na altura foi este: “O teu pai (ou mãe) não presta”. Aí, procurámos chamar a atenção do leitor para a importância da temática, quanto mais não fosse, pela gravidade que em si encerra e pelas marcas profundas que deixa, nomeadamente nas crianças envolvidas. Hoje, encetaremos a improvável conclusão deste escrito, e isto porque a mesma só não é definitiva e manter-se-á sempre em aberto, devido à perversidade (in)consciente levada a efeito por quem alimenta a teia relacional, cuja interacção triangular disfuncional prejudica, acima de tudo, os menores, por tempo indeterminado.
           
            Modernamente, Wilfred Bion (discípulo de Klein) chamou-nos a atenção para o papel do pensamento na criança e da sua capacidade de pensar, no sentido de decidir e agir sobre o real envolvente, sendo que aquela “significa ou pressupõe, precisamente, a tolerância às emoções perante a distância que nos separa da verdade” (Dias e Fleming, 1998: p. 168). Chomsky, Bruner e Vygotsky – e Lacan, acrescente-se, tinham percebido a interacção tecida entre o pensamento e a linguagem no âmbito da organização do conhecimento, conforme lembra Aguilar (2006); ora, é nessa mesma medida que o progenitor custódio, segundo o mesmo autor, condiciona e formata o psiquismo do filho alienado; e a seguir elucida, falando de “Transtornos Dissociativos”: estes constam de “uma alteração das funções integradoras da consciência, da identidade, da memória, da percepção do meio circundante” (Aguilar, 2006: p. 78).

            Seja como fôr, quanto pior estruturada ou disruptiva se encontrar a personalidade do progenitor, pior influência o mesmo exercerá na criança deixada à sua guarda. Simplesmente neurótico ou marcadamente psicótico, esse indivíduo não descansará do objectivo de alienar o menor, através de estratégias deploráveis caracterizadas por delírios de perseguição, surgidos no período pós-divórcio; ideias delirantes induzidas (sobre a criança); psicopatia (com denegação da realidade e delírios alucinatórios), em casos mais extremos; frio calculismo manipulador e chantagem, logo, desprovidos de sentimentos emocionais; vitimização e reivindicação de papel insubstituível na guarda do menor, num quadro de subjectividade narcisista absolutamente primário; isolamento e quebra de vínculos vitais ao desenvolvimento, inserção, identidade, pertença e afirmação do menor em risco profundo.

            Evidentemente que tudo isto tem consequências, a vários níveis, no dia-a-dia das crianças: agressividade ou abulia, fastio ou excessos alimentares, flutuação de humores, problemas digestivos, insónia, perda de auto-estima, inadaptação, ansiedade, culpabilidade, dificuldade de concentração escolar, etc., e, mais tarde, quando adultos, estes indivíduos, necessariamente portadores de personalidades doentias e desestruturadas, podem repetir os mesmos erros de quem os tutelou.


            As crianças têm necessidade de modelos válidos, coerentes e equilibrados e essas figuras modelares, sempre que possível, devem ser os pais, porque são estes os melhores elementos de idenfificação. A Psicanálise aponta a mãe como a “rêverie”, o apaziguamento, e o pai como a “lei”, a representação dos interditos, caso as relações conjugais se mantenham estáveis e profícuas. É que esse mesmo estatuto de “lei” só pode ser validado pela mãe. Sendo assim, quanto mais a sociedade ocidental “evoluir”, afastando-se deste quadro de estabilidade familiar,  mais nos será dado perder. É que vamos assistindo à descaracterização, por défices cognitivos de base, impreparação ou inércia, das formas de educar, onde os meninos manobram os pais a seu bel-prazer, não tendo horas para as refeições, para sair da cama, para dormir, para navegar na internet, para estudar... Nos shoppings e nos hipermercados são os rebentos quem decide o que os progenitores terão de pagar e levar para casa... Depois tudo se desmorona e a culpa é sempre do outro; quem não desenvolveu competências pessoais e sociais (educacionais ?), em contexto de amadurecimento psico-afectivo, não pode educar seres responsáveis, autónomos e emancipáveis. É na ambiência salutar do grupo familiar onde impera a convergência dos afectos com sentido que é possível respirar as componentes identitárias e de afirmação que balizam o desenvolvimento sadio da criança, exactamente, num quadro de interacção integral, integrada e íntegra. 

ALIENAÇÃO PARENTAL



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      A primeira parte do presente escrito leva-nos a reflectir sobre o terrível fenómeno que afecta as famílias em processo de divórcio, quando se trata de decidir, por quem de direito, a custódia dos filhos menores. Posteriormente, os envolvidos não conseguem furtar-se aos atritos e traumas que se geram, na tentativa (consciente ou inconsciente)  de dificultar ao outro progenitor a observância dos seus direitos parentais, através da manipulação abusiva das crianças. Os especialistas atribuíram a toda esta problemática (de contornos tão candentes quanto doentios) a designação de “Síndroma de Alienação Parental”. Vamos, então, enquadrar o conceito!

            Nos dias de hoje, e na sociedade ocidental, mesmo tendo em conta o facto de a família já não ser o que era, devido à descaracterização e alteração das formas tradicionais de vida (onde se inclui a desfiguração do mercado de trabalho, a alteração das crenças e dos valores, e o esvaziamento do sentido relacional profundo e genuíno), que têm determinado uma diversificada e diferenciada arquitectura dos afectos, sexualizados ou não, as crianças continuam a nascer, maioritariamente, através do processo procriativo e natural de sempre. Melhor ou pior preparada, mais ou menos amadurecida, segura ou insegura, livre ou condicionada, autónoma ou tutelada, há muito boa gente que continua a se casar, porque ama ou julga ter encontrado o amor, porque acha que pode criar um ou dois filhos, porque, enfim, continua a alimentar a evidência da vida e a acreditar na realidade da mesma.

            As dificuldades, no entanto, multiplicam-se, não só pelo que atrás fica dito, mas também devido à diminuição da resistência à assunção da palavra dada, que o espírito de sacrifício de outros tempos temperava; ou tendo em conta ainda a reacção saudável dos casais de hoje, ao invés dos de ontem, a um certo tipo de conjugalidade patogénica e estratificadora, onde quer que possa imperar o sado-masoquismo mais desconcertante e aviltante; também porque as novas tecnologias de informação e comunicação, a omnipresente “aldeia global”, como lhe chamou Marshall McLuhan, o acicate esplendoroso da sociedade do espectáculo, tal como a define Guy Debord, têm conseguido desvirtuar o papel de autencidade actuante, afectiva, solidária, social e altruísta das pessoas, levando-as a egoísmos narcisistas e redutores que vão engrossando a bola de neve do descalabro e da alienação sociais. Contudo, é necessário que haja coerência!

            É que a teia familiar e social deve ser urdida paulatinamente por meio de dependências consentidas, mas saudáveis e apropriadas. R. A. Spitz (1965) designa de “sorriso inicial”, essa extraordinária forma de comunicação que o bebé opera mesmo antes dos três meses – ele que ainda é apenas, nesta fase da sua vida, o corpo da mãe. Trata-se de um convite dirigido ao outro e que visa a criação de laços afectivos, absolutamente índispensáveis à elaboração dos processos cognitivo-afectivos que estão na base dos processos simbólicos, da auto-consciência (proto-consciência) e da socialização primária.

            E por aí adiante, sempre tendo em conta o superior interesse da criança, para que esta se possa desenvolver sem grandes precalços nem sobressaltos, através da construção de uma personalidade de pertença, afirmação e inserção na família e no seio da comunidade dos homens de boa vontade. Para que seja possível responder aos desafios e contratempos da vida, progressivamente, recorrendo às competências adquiridas a tempo e horas, em meio familiar, escolar e social, a par da construção de uma identidade coesa, alicerçada na individuação e na diferenciação, pedras basilares de  uma autonomia saudável, livre, madura, equilibrada, emancipada e independente.

            Mas, eis que a família se estilhaça (e é aí que começa o desconchavo). No horizonte das soluções surge o divórcio, ao qual se atrela todo um cortejo de disfunções comportamentais por parte dos cônjuges desavindos; antes, durante e depois do processo verificam-se transmutações da carga energética pulsional (prazer ou desprazer) ligadas às representações de cada um dos membros em litígio, sobrevindo então atitudes patéticas e projectivas (evacuativas), recusa de diálogo, vinganças inconfessáveis, histerias indizíveis, manipulações deploráveis, acusações cobardes, difamações, injúrias e calúnias, a tingir de tragédia o que poderia ser uma simples separação por comum-acordo, mas, pior do que isso, a toldar de drama de consequências imprevisíveis para as crianças ou adolescentes em “disputa” (quando os há), todo o quadro que envolve o concomitante processo de atribuição da custódia do(s) filho(s), e todo o inferno subsequente.

            A situação a que se acaba de aludir aponta para uma nova dimensão afectiva da vida familiar, caracterizada, ao nível do funcionamento psíquico, pela necessidade subjectivada de agredir o outro ignorando os filhos ou, até mesmo, recorrendo à sua instrumentalização como arma de arremeço, moldando, formatando, modelando, chantageando, manipulando a sua personalidade para que abominem o outro progenitor, para que o vínculo afectivo seja quebrado. Mais do que um desconhecido, a breve trecho, o pai ou a mãe que perde a custódia do filho em disputa, passa a ser visto(a) como uma criatura perigosa, pela força coerciva da mentalização doentia, delirante do outro.

             Em acção encontram-se os afectos de aversão (Adler); o ódio e a agressão [(“O Reverso do Princípio do Prazer”), de Freud (1920)] e, de J. Breuer e S. Freud [(“Estudos sobre a Histeria”), (1893)]. Entre 1969 e 1980, John Bowlby debruçar-se-ia também sobre a temática dos afectos, tendo concluído que as crianças se ligam emocionalmente aos seus progenitores ou cuidadores (the attachment theory”); esta visão do problema é corroborada também por Carlos Amaral Dias (1988), considerando ambos que, uma vez quebrados os vínculos, por afastamento das crianças, precoce, acidental ou abruptamente, as mesmas são invadidas pela angústia e pela ansiedade. Por sua vez, J. Simpson (1990) refere estes acidentes de percurso, este tipo de afecção de afectos, como nós lhe chamámos, como potenciais causadores de menor esperança de vida e de comprometimento reprodutivo. Mas há mais, muito mais, por isso voltaremos ao assunto.

            Em conclusão, importa deixar bem claro a importância imprescindível de dotar os tribunais de família de equipas multidisciplinares (psicanalistas, pedopsiquiatras, assistentes sociais, psicólogos e terapeutas), para que evitem que os juízes laborem em erro, problematizando ainda mais, através das suas decisões pouco avisadas (quando tal, alegadamente acontece), a situação e a vida, quer das crianças, quer dos progenitores atingidos, vitimizados, destroçados pela alienação parental.

Nota: Artigo reeditado, a pedido. 

terça-feira, 4 de julho de 2017

FAMÍLIAS NUMEROSAS





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     As famílias numerosas são aquelas que, como se depreende, são constituídas por mais de dois filhos. Este tipo de famílias são menos frequentes nos dias que correm, por razões óbvias que se prendem com a logística espacial ligada à exiguidade das habitações urbanas; por força da ausência de capacidade financeira das famílias modernas, tradicionalmente institucionalizadas ou unidas de facto; em virtude da crise do progresso, sempre mais redutor do que redentor; devido, ainda, ao trepidante ritmo da vida actual e à forma exigente e cínica como o patronato, cada vez mais, sobrecarrega o trabalhador de atribuições sem correspondência ao nível das remunerações, folgas, interrupções e férias, e isto, bem entendido, no âmbito dos escassos empregos que ainda vão surgindo por aí, tanto públicos como privados ou até das IPSS.

            Nestas famílias respira-se um clima aparentemente interessante e efectivamente cénico, colorido, sem deixar de ser profundamente dramático, em virtude da dinâmica que aí se gera, se pensarmos na ambiência doméstica sempre carregada de um duplo antagonismo, aquando da interactividade relacional dos irmão e irmãs em presença, pautado, não só pela amizade dos pares, mas também pela agressividade. Evidentemente que este fenómeno não é linear.

            Relativamente à psicologia da criança, existe um conjunto de elementos que respondem pelo resultado da variabilidade da influência exercida sobre a constelação fraternal, quer pela manifestação de agressividade, quer pela tradução de afectividade de atracção. Esses elementos são, em primeiro lugar, com é óbvio, o número de descendentes nascidos no lar em questão; a periodicidade verificada entre partos e que determina a diferença de idades; a alternância ou a uniformidade dos sexos das crianças; o posicionamento dos sexos na seriação dos nascimentos; a validação ou rejeição inconscientes de cada uma das gravidezes e nascimentos, por parte dos progenitores, uma vez que as crianças podem ser produtos desejados ou nem por isso...

            A complexidade formal e substancial vivida no seio das famílias numerosas é subtil e diversa nos seus múltiplos contornos endógenos e exógenos: aqui, cada criança pensa menos em si e mais nos outros, logo, tornar-se-á menos egocêntrica e mais empática; mas, é vital que a cronologia dos nascimentos respeite a devida distância entre os mesmos e que o conjunto dos filhos não seja exageradamente numeroso, porque uma família não é uma ninhada de patos – três, quatro irmãos é já aceitável e suficiente. Importa reter, neste particular, que a indisponibilidade de tempo significa que o número de crianças a requerer atenção, apoio e cuidados afectivos orientadores ultrapassa a capacidade de comprometimento dos pais e impede ou disfunciona o seu papel educativo, potenciando a indisciplina, a agressividade, isto é, precipitando a ansiedade, podendo emergir as simpatias particulares e a segregação entre pares.

            Em conclusão, diremos que gerar um único filho é manifestamente insuficiente, uma vez que os pais são sempre tentados em idolatrar o filho, em se projectar nele, para o bem e para o mal, criando, muitas vezes, ansiedades e inseguranças insanáveis, quando não petulância, egoísmo e fanfarronice, ou, até, melancolia e desejo frustrado de integrar ambientes onde possa conviver com outros seres da sua idade. Como afirmou Buda Gautama (556 a.C - 476 a.C), o fundador do Budismo, a família ideal deve gerar dois filhos, já que o casal progenitor é constituído por dois elementos, evitando assim ser ultrapassado (sob todos os pontos de vista) pelo número dos seres gerados e nascidos.

quinta-feira, 29 de junho de 2017

PREDAÇÃO "CIVILIZADORA"

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     Nas semanas mais próximas-passadas, ocupámo-nos com leituras que dão sempre que pensar, até porque versa(va)m temáticas, as mais das vezes, polémicas, tendo em conta, não só a inevitável subjectividade involuntário-inconsciente, através da qual o sujeito que escreve se deixa levar, inapelavelmente, portanto, mas também porque não nos encontramos nunca no interior da cabeça dos outros, pelo que por mais boa-vontade que demonstremos, tudo se processa por meio de equações susceptíveis de redundar, para mais ou para menos, em resultados enganadores, distorcidos, que nos acabam por decepcionar... ou não!

    Claro! De que temáticas se tratava, não o dissemos ainda, tem o leitor razão!

     Referímo-nos às tão difíceis e complexas independências ocorridas no continente africano, uns anos após o términus da catastrófica 2.ª Guerra Mundial (1939-1945). Uma das consequências deste gigantesco e abominável conflito planetário foi a divisão do mundo em dois blocos oponentes (o Ocidental e o de Leste), geo-estratégica, idiológica, cultural, económica e socialmente definidos e que viriam a formatar o contexto, a vários níveis, em que aquelas independências se viriam a verificar.

    Como é de todos sabido, o bloco Ocidental tinha à cabeça os Estados Unidos da América, liberais e capitalistas e o bloco de Leste tinha na liderança a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, colectivista e comunista. Bom, aprendemos na Psicologia que toda a dinâmica idiossincrática do indivíduo, isolado ou em grupo, radica em móbeis e/ou em motivos. Os primeiros envolvem afectos ou têm origem no inconsciente; os segundos têm a ver com a racionalidade, muito embora sempre que um móbel seja dominado pela razão possa assumir foros de motivo.

      Este último raciocínio serve apenas para clarificar o quão ténue se nos apresenta (quando tal acontece) a linha que delimita ou confunde a emoção da razão, ainda que possamos dar de barato que determinados interesses possam envolver legitimidade, mesmo que não se vislumbre se os mesmos têm origem no capricho de certos afectos ou na urgência de certas necessidades plausíveis. Mas falámos atrás em idiossincrasia e, esta, no ser humano, é motivada por factores físicos ou químicos variáveis, portanto, mas sempre determinantes do temperamento e da susceptibilidade de cada um, e, sendo assim, a nota dominante no ser humano é a imprevisibilidade no âmbito da multiplicidade dos contextos (situações) e das criaturas (quem) que só a Educação pode, de certo modo, contornar, corrigir, integrar ou sublimar.

     Por último (não permitiremos que a emoção nos tolha a razão), resta-nos deplorar o estado actual de efervescência de todo o continente africano, pautado pela fome, a subnutrição, o analfabetismo, o tráfico, o terrorismo, a corrupção, as assimetrias regionais, o tráfico de pessoas e matérias-primas, a escravatura sexual e laboral, a usurpação do poder, a perpetuação do tribalismo hegemónico, etc., etc., etc., exactamente igual a tudo o que se tinha começado a esboçar na segunda metade do século XV. Só que agora o homem recorre a mais sofisticação, tecnologia e letalidade.

      E diziam os entendidos, no início da década de 1970, não sabemos se levados por móbeis ou se por motivos, que a transição para a independência dos vários mosaicos (ratificados pela Conferência de Berlim, em 1884-85) em que o colonialismo europeu retalhou a África resultaria de “um esforço consciente da maioria do povo, no sentido de modificar as suas próprias ideias, crenças, suposições e atitudes sociais,” (...) “mobilizando as multidões rurais, em prol de novos métodos de produção, em contexto de novas relações de produção” (Davidson, 1972: 416, 418). Nada disso resultou. O que constatamos é que não há teorias que regenerem cinco séculos de reiteradas violações!

Bibliografia: Davidson, B. 1972. Angola – No Centro do Furacão, Lisboa, Edições Delfos.