segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

SEM SABER TOLERAR




Sem saber tolerar a frustração
           nas cinzas destes versos és projecto
 ao trocar a pendular dispersão
 pelo ardil delirante mais dilecto

         Crescemos sem crescer no coração
     pra trilhar um caminho nada recto
de ressaibos opostos de razão
    possessos do ciúme mais infecto

         Des-con-ti-nua puro sem roupagens
      meu suspeito alter-ego confidente
  na fatal destruição por imagens

Ferida narcisista tão premente
            meu terror desprovido de mensagens
           sem marcos nem limites só de-mente
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QUISERA CONTAR CONTIGO




                      Quisera contigo contar contida
                      tão dada como se soubesses ser
                      de frente sem tabus enlanguescida
                      de força repartida sem saber

                      Quisera soletrar contigo a vida
                      dividindo na soma de te ter
                      o todo de perder cada partida
                      pela Fé de saber poder vencer

                      À beira da miragem dos teus seios
                      valido de somenos os contornos
                      aclástico luzir de devaneios

                      que me gritam nos plácidos entornos
                      como se padecer de tais enleios
                      fosse agarrar o touro pelos cornos

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sábado, 7 de dezembro de 2019

OCULTOS PELA MULTIDÃO


              Image result for relaçoes humanas




                           Ocultos pela multidão dolente


                           seguirão tais estranhos divididos


                           a passo sem sentir que quem não sente


                           reverbera fantasmas preteridos





                           In anima nobili de repente


                           chocamos com a volta de pruridos


                           não é que não sejamos todos gente


                           mas há marcos que tolhem os sentidos






                           Querer ter do poder identidade


                           torna frágil a força de se ser


                           como se quem não quer comunicar






                           nos dissesse da loucura que verdade


                           nos lança no virtual desprazer


                           estranhando prover alteridade




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terça-feira, 19 de novembro de 2019

INTENÇÕES, RETENÇÕES, (IN)DECISÕES


      

IMAGEM INCONCEBÍVEL
       



        A discussão do programa do actual governo de Portugal (Novembro de 2019) aponta para a necessidade de lutar pela redução drástica do número de reprovações ao longo dos nove anos da escolaridade básica. Primeiro, foi desbaratada a classe docente; depois, foi destruído o sistema educativo; agora, surgem as apreensões com o redutor e inquietante quadro de insucesso dos alunos portugueses. Este telhado não assentará nunca sobre uma estrutura que já colapsou, devido à incúria dos sucessivos governos.

            A escola não é mais do que o reflexo da sociedade. Se, por um lado, no ensino pré-escolar a criança não brinca nem joga o suficiente e é já obrigada ou levada a aprender alguns rudimentos de aritmética e leitura (?!!!), por outro lado, é impedida, por falta de instalações adequadas, de dormir as necessárias e indispensáveis sestas. Quer num caso quer no outro, fica comprometido o papel da integração pessoal e social no jardim-de-infância, sendo coarctados a essencial paz de espírito, a observação, a acção, o conhecimento e a figuração.

         Desleixado este alicerce estruturante, na fase seguinte (1.º Ciclo do Ensino Básico) como estará a maturidade psíquica, social e afectiva da criança?! Estará apta a expandir-se, exigindo novos princípios ordenadores, actividades e contactos ou encontrar-se-á fixada em estádios arcaicos de desenvolvimento? Estará apta a abandonar o seu egocentrismo generalizado e caprichoso, para aceitar a privação e a observação da consciência da regra? Poderá transitar do sinctretismo para a diferenciação? Do jogo em isolamento colectivo para o sentido de tarefa, de criatividade... para as representações mágicas-pré-lógicas, para o raciocínio operatório (Piaget)? Para o domínio dos instintos?

            Como o ambiente familiar deixa muito a desejar – em Portugal, um quarto (25%) da população enferma de carências gritantes –, quando a criança chega ao 2.º Ciclo, tudo piora ainda mais. Trata-se da difícil fase de transição da infância para a adolescência em progressão: alterações hormonais, somáticas, temperamentais, desarmonia motriz; clivagem desenvolvimental geral entre géneros, evoluindo as raparigas cerca de dois anos relativamente a uma certa estagnação infantilizante dos rapazes... e a complexidade psicopedagógica, didáctica e lectiva (sempre ignorada) que tal desfasamento implica?!... 

            Aqui, a identidade, a afirmação, a inserção e a pertença, a interacção, a abertura e a aceitação dos pares e das hierarquias; a génese das psicoses e das perturbações patológicas da personalidade, em maior ou menor grau: a esquizo e a ciclotimia, a histriónica, a narcisista, a exibicionista, a paranóide em maior ou menor grau, etc., etc., etc.; as deformações de carácter, a tentação do bullying, o sucesso ou o insucesso, o autismo digital, a segregação relacional; as turmas sobrelotadas, a anarquia e a impunidade, a compulsão repetitiva, a alienação virtual e o vazio mental são realidades que não podem nem devem ser descartadas. Claro, mas o sistema educativo nacional não tem querido saber estar à altura.  Fechemos todos os olhos e seja o que Deus quiser.

            NOTA: Deixo, aqui, este breve esboço sobre uma temática que, por si só, justificaria um extenso ensaio.

           

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

REZA UM PADRE-NOSSO, QUE ISSO PASSA!...


      

  D.ª Joana Viana Lapa levara para o casamento, entre outras heranças valiosíssimas, a famosa Quinta da Patela, cujos terrenos produziam um dos melhores vinhos do Porto de todo a região Duriense. Infelizmente, esta senhora tinha tanto de rica como de frígida e beata, sempre obstinada pelo culto religioso, a qualquer hora do dia ou da noite; não se entendia muito bem, como tinha sido capaz de conceber, gerar e parir Catarina.

     O marido, Dr. Alfredo Abrantes, para além do interminável cortejo de doentes que atendia diariamente, da parte da tarde, normalmente até às dezanove horas, alimentava, com viciante pertinácia, um outro tipo de ocupação, depois do seu imediato e rápido jantar, donde saía a correr, na companhia do motorista, em direcção às Caldas de Moledo... Ao Casino das Caldas de Moledo, melhor dizendo! Há quem afirme que não o fazia diariamente, porque viagens daquelas, tantas vezes repetidas, constituiam uma perfeita loucura, mas, fosse como fosse, os dinheiros da família e do seu próprio trabalho foram desaparecendo, rapidamente, como a chuva nas areias do deserto.

    Que podia fazer ele mais, se a mulher o rejeitava sistematicamente?! O médico sofria como um condenado, de uma permanente penitência punitiva que lhe era imposta pela companheira; de uma abstinência insuportável, que lhe coarctava o legítimo gozo dos sentidos, em normalíssimo âmbito de partilha de afectos, como é próprio dos esposos e dos amantes que se desejam e amam e, portanto, comungam coniventes e prazenteiros
das delícias cúmplices e concupiscentes, inerentes à fusão dos corpos e das almas: eram marido e mulher, eram um só corpo e uma só alma, que diabo! Mas, perante tudo isto, que fazer, então?! O clínico, enquanto homem, vivia no mais completo desespero de causa. Cada noite passada em casa, redundava em autêntico calvário de sacrifícios e renúncias... E insónias! Como se não bastasse o jejum conjugal, tinha ainda de suportar os roncos e assobios da criatura.

         Para ele, o Casino, em todo o seu luxuriante esplendor de luzes e cores, imbuídas de sensuais reflexos lúbricos, representava uma certa lascívia difusa, que ele nunca conseguiria agarrar; por isso, voltava lá, vezes sem conta. Então, e o pano das mesas de jogo? Que textura! Que macieza e suavidade! Que toque voluptuoso! Que envolvência a daquela cor verde... Como a dos olhos de Joana... E o clímax desesperadamente ansiado de uma vitória na roleta? O torvelinho demoníaco da sorte intangível!... Não seria hoje também!... “Reza um Padre-nosso, que isso passa”, costumava contrariá-lo Joana. Por que razão não conseguia o médico atingir tão desejado paroxismo, ele que era tão cidadão como os demais, tão homem como tantos outros, tão marido como os que o são, tão macho como os melhores, tão amante como os que o desejam ser?!

In "O CHÃO DOS SENTIDOS" - Manuel Bragança dos Santos - 2013

CASINO DAS CALDAS DE MOLEDO (?!) - Imagem do Google

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

A QUE SE OBRIGA O SUJEITO


   Quem vive num estado de direito democrático, enquadra-se, em termos de estatuto e papel, num conjunto de direitos e deveres que fazem parte do seu quotidiano, e aos quais se não deve furtar – os segundos –, nem desprezar – os primeiros, sob pena de se automarginalizar e, por motivos de atropelo (ilícitos) dos vários códigos reguladores da respectiva sociedade, vir a ser sancionado.

   Sendo assim, há, até, quem prescinda dos seus direitos (quantas vezes, por ignorância), mas, pelo contrário – e pensando agora nos deveres –, o desconhecimento da lei não iliba quem a não cumpre. Logo, os deveres constituem, inalienável e eticamente, algo a que se obriga o sujeito, o indivíduo, o cidadão, enquanto entidade reconhecidamente moral e em perfeita fruição das suas faculdades mentais.

   O mesmo vale, também, no âmbito da interacção pessoal e social e no quadro institucional mais lato dos contactos de determinadas comunidades de indivíduos.. Contudo, mutatis mutandis, pode discutir-se até que ponto o cumprimento de uma obrigação moral constitui uma necessidade imposta ou naturalmente determinada... Esta, é mesmo levada a cabo; já, aquela, pode, mesmo, ser ignorada.

   Como se escreveu atrás, nem todos usufruem dos seus direitos, seja por ignorância, falta de sentido de oportunidade ou discordância (?!!), ou, então, por negligência, inércia ou desleixo. Já no que se refere aos deveres (morais), estes podem ser cumpridos, ou não, caso sejam aceites e, para isso, devem, primeiro, ser interiorizados. Mas, para que tal aconteça, convém perceber a sua razão de ser, dado esta revestir sempre móbiles subjectivados:

 Estes podem abarcar implicações sociais, doutrinárias, políticas, axilológicas, entre outras. Ora, nestes casos, o sujeito, o indivíduo, o cidadão terá sempre a prerrogativa de avaliar, ponderar e, finalmente, decidir com pragmatismo e sentido de liberdade, sem, no entanto, beliscar ou comprometer a liberdade do(s) outro(s).


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sexta-feira, 25 de outubro de 2019

A DEVASSA SOCIAL


   No nosso “Admirável mundo novo” (Aldous Huxley, 1932), repleto de inovações tecnológicas, de comodidades e facilidades, de automatismos e do pan-acontecimento-conhecimento-em-tempo-real, tudo estaria bem, já que o progresso é o progresso e, sendo assim, apresenta-se o mesmo como reforço, resposta e tónico, aparentemente compensador da ambição desmedida da espécie humana. Àquela, junta-se a territorialidade e a agressividade para, no seu conjunto, gerarem a artificial necessidade de acumulação irracional de bens e vantagens de todo o tipo.

   Nada disto se passava, claro, nas tribos virgens de caçadores-recolectores ainda existentes no globo nos primórdios do século (XX) passado (Malinowski, 1884-1942, cit por Reich, 1897-1957). Estas foram desmanteladas, exploradas e aniquiladas pelo braço “civilizador” europeu... embora a História se tenha vindo a repetir desde os alvores da humanidade. Contudo, nos dias que correm, a sofisticação e a sub-repção dos impérios emergentes tem vindo a ultrapassar todos os limites do inteligível e do suportável, visando o controlo, punição e exploração generalizada dos cidadãos e, mais do que isso, impondo os seus métodos às nações mais frágeis e economicamente dependentes.

   O preço a pagar pelo actual estado das coisas é elevadíssimo. Retendo que, na longa caminhada, já efectuada pelo Homem, entre a natureza e a sociedade, foi necessário interiorizar códigos de conduta mediadores dessa passagem, pautada por um conjunto de sistemas simbólicos, estes passaram de geração em geração, funcionando como facilitadores da integração social. Configuraram, então, a consciência moral do indivíduo e a sua representação dos interditos (o SuperEgo); o sujeito obstruído do desejo evitaria a transgressão dos limites (Freud, 1856-1939 e Lacan, 1901-1981).

   Mas falávamos do preço a pagar: o organismo e o cérebro humano não suportam tanta excitabilidade e pressão; tamanha coacção e exigências; tão aberrante contraciclo biofisiológico, e reage através do abaixamento do nível mental (Pierre Janet, 1859-1957), obnubilando o estado regulador e orientador da consciência, desfasando e desintegrando o sujeito da cultura. A ansiedade não só inibe o pensamento, mas, paralelamente, faz disparar o mesmo; transmite uma sensação de entorpecimento, de abulia, de vazio, de ausência do espaço e do tempo, de conturbação alienante. E isto, sem referir a escravidão a que nos quer sujeitar a dominação escópica, optimizada pelo panopticismo oculto que tem vindo a crescer de forma inexoravelmente galopante (Quinet, 2019). Voltaremos a este assunto!


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