domingo, 26 de junho de 2016

ESTADO NOVO E RESISTÊNCIA - Capítulo V - Um Regime de Partido Único

Imagem do Google


O "Estatuto do Trabalho Nacional", lei fundamental do corporativismo, era mesmo para ser cumprido. Acontece que o descontentamento das massas laborais era grande e, em 1934, estalam diversas greves, em tom de resposta à repressão que o referido documento em si simbolizava. Em 18 de Janeiro a greve é em defesa dos sindicatos livres, a que a maioria do povo trabalhador aspirava, tendo aderido outros grupos profissionais. Na Marinha Grande o poder local é dominado por trabalhadores armados e em greve. A Central Eléctrica de Coimbra é alvo de atentados à bomba, que contemplam também várias vias-férreas, pela mão da vanguarda operária anarquista e comunista. Na sequência de tudo isto o Governo faz dezenas de prisões. Não obstante a contra ofensiva do poder, os sindicatos não desarmam nem tão pouco obedecem à ordem de dissolução, optando por formar um movimento sindical clandestino, com imprensa própria.

            Tem lugar o 1.º Congresso da União Nacional.

            Na preparação das eleições para a Assembleia Nacional, o recenseamento não é estimulado, sendo afastados dos cadernos eleitorais os "indesejáveis", o que acaba por reflectir a diminuição do número de eleitores.

            Desta maneira, de 1933 para 1945, aquele número desce de 1,3 milhões de eleitores para 992.700. Em 1969, o eleitorado cifrava-se em 27% da população com mais de 21 anos de idade.

            Sujeito que estava às influências fraudulentas do poder, o sistema eleitoral ia assumindo aspectos bizarros, senão mesmo tragicómicos: pela facção governamental votavam os mortos, enquanto que os de confiança introduziam na urna dois boletins com a cruzinha no quadradinho da União Nacional. Este registava as preferências de 80% de votantes na Metrópole e quase 100% de votos nos territórios africanos, sem contar as abstenções, como é evidente.

            Salazar prossegue, indelével e imparável a sua caminhada: proíbe e persegue os partidos e as associações secretas, contrariamente ao que acontece com a União Nacional, onde se filiam os partidários e apoiantes do Governo. É neste contexto, de viciação permanente e sistemática, que Carmona, sem adversários, é eleito Presidente da República em 1935.

            Do outro lado da fronteira, em Espanha, em 1936, a Frente Popular vence democraticamente a oposição, ganha as eleições e consegue maioria no Parlamento. O quadro político espanhol complica e atrapalha as intenções de Salazar, embora não o faça desistir. Tal contexto leva mesmo o ultra conservador Professor de Coimbra a estudar cuidadosamente, em Portugal, a conspiração preparativa da Guerra Civil de Espanha.

            O líder governamental português, uma vez mais, exalta sentimentos nacionalistas, passa a criar a "Mocidade Portuguesa", inspirada na juventude nazi, onde faz inscrever os estudantes, a exemplo também do que acontecia em Itália com os "camisas negras". Institui ainda a "Legião Portuguesa", força militarizada, marcadamente anticomunista, propondo-se defender o "património espiritual da Nação".

            Salazar, numa demonstração da sua força, sempre crescente, faz marchar a "Mocidade" e a "Legião" pelas ruas da cidade. (Continua)

1 comentário:

  1. Mais uma lição na nossa História, amigo.
    "Sujeito que estava às influências fraudulentas do poder, o sistema eleitoral ia assumindo aspectos bizarros, senão mesmo tragicómicos"... "Salazar prossegue, indelével e imparável a sua caminhada: proíbe e persegue os partidos e as associações secretas, contrariamente ao que acontece com a União Nacional, onde se filiam os partidários e apoiantes do Governo..."
    Foi neste regime que cresci...
    Beijos.

    ResponderEliminar