domingo, 8 de março de 2020

UM ESBOÇO DE PAIXÕES


    (...) o seminarista Maurício, de novo em férias, dirigiu-se à Fonte e Lavadouro do Olho D´Água, para abraçar a mãe e a madrinha Juliana e a prima Rosália, e cumprimentar, timidamente, as restantes mulheres, naquele espaço mágico onde a água brota da Terra para vivificar as almas e os corpos, e as raparigas se orgulham das suas bilhas redondas, virtualmente capazes de matar a sede ao mais sequioso desejo (...)
    (...) -- Hoje precisas de descansar
    hoje sim, mas para o dia seguinte, Maurício ficava já convidado pela madrinha para almoçar em casa desta, no Lugar do Caneiro, onde não havia lugar a rejeições, nem a distanciamentos, nem a defesas egóicas, porque o espaço era aquecido pela consistência dos suportes identitários, que se estribam nos afectos estruturados pelos objectos reganhados, que atenuam a fragmentação do Self e acautelam a deterioração da ferida narcísica
    -- Vamos almoçar no alpendre
    com o Sol a aquecer os corações, a mesa foi posta debaixo daquela cobertura típica, e esperou-se pela chegada do tio Duarte, e foi aliviado o mecanismo projectivo mais arcaico dos presentes, porque os egos dos comensais dispensavam agora defesas, tendo sido tacitamente aceite a reciprocidade das identidades similares e fraternas, o que fazia erguer uma barreira indestrutível entre o Self e o não-Self dos componentes desta família ideal
    -- Vai fritar os jaquinzinhos* Zalinha
    e era tudo o que faltava fazer, para que fossem servidos bem frescos e estaladiços, e as férias assim tinham outro gosto e a prima Rosália estava no ponto da sensualidade, cujo apelo erótico impregnava, com o seu impacto vital, visual, viral, demolidor, o coração dos jovens da Planura, na procura do desejo que (cor)responda ao seu desejo, no âmbito da relação com o outro e não porque as necessidades, meramente instintivas, devam ser satisfeitas, na incrustação do real puro e duro
    -- Esta-se tão bem aqui
    os objectos internos encontravam-se perfeitamente apaziguados e os externos contribuíam para o equilíbrio desta intermitência no contexto de maior perigo potencial na vida do seminarista, não sendo necessárias projecções compensadoras de recalcamentos frustrados, e o Self podia respirar tranquilidade e assunção plena, libertando o sujeito
    -- Já viste como a tua prima está linda?
    -- Sim está bonita
    Maurício parecia não reagir à veemência fetichista das formas proeminentes, apelativas, magnéticas de Rosália, à materialidade do seu corpo, a esse apelo ensurdecedor e enigmático da Natureza, à convergência genital, através da pulsão do desejo vivo e hesitante, (...)

Nota: * jaquinzinhos – carapauzinhos minúsculos

In “NÃO SEI SE DE MIM SABEREI ALGO”, 2020 – Romance de Manuel Bragança dos Santos (pág. 99).

Imagens do Google

6 comentários:

  1. rsssss, Humberto..., a história é muito interessante, bem contada sobre os encantos femininos, mas... como o meu primeiro olhar foi para os apetitosos jaquinzinhos, fiquei a fitá-los, não consigo pensar muito!
    Que fantásticos, e essa foto faz a gente salivar, amigo!!
    Beijo, uma ótima semana!

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  2. Concordo plenamente, Taís. Quem sabe se, invertendo a posição das fotos, não seria mais condizente com o teor do texto?!
    Beijos.

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  3. Almoçar no alpendre e jaquinzinhos na ementa… Belíssima narrativa, meu Amigo. Gosto mesmo de uma história bem escrita…
    Uma boa semana.
    Um beijo.

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  4. Pelos vistos, amiga Graça, os jaquinzinhos conseguem fazer passar para segundo plano, o conflito interior de Maurício!
    Um beijo.

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  5. A julgar pela excelência do excerto, o livro deve ser muito bom.
    Um bom fim de semana, caro Humberto.
    Abraço.

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    1. Trata-se de mais um contributo que visa lutar contra a violência doméstica.
      Bom fim-de-semana, Jaime.
      Abraço.

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