quarta-feira, 23 de outubro de 2013

DIALOGISMO EMPÁTICO

      Neste breve texto, direi apenas da necessidade urgente de voltarmos todos ao diálogo, com carácter francamente comunicacional. Por isso mesmo, o ser humano é dotado da capacidade de utilização da linguagem que bebeu com o leite materno. Mas, não adianta falar, falar, falar, se não formos ouvidos e compreendidos; pois, caso contrário, estaremos a falar para as paredes.

     A comunicação só tem razão de ser, se buscar o consenso, se procurar a harmonia, se porfiar na paz, na concórdia, na interacção construtiva, edificante e democrática. Não me alongarei muito.

   Se o homem comunica através da linguagem – falada ou escrita –, conforme comecei por adiantar no início desta curta reflexão, utilizando o código linguístico inerente ao país que o viu nascer, ou outro ainda, de acordo com os hábitos culturais que melhor se coadunam com determinadas práticas interactivas, nomeadamente no campo dos negócios, das relações políticas nacionais e internacionais, da mediação solidária ou das parcerias científicas de cariz investigatório, para além de outras ainda, fácil se torna perceber que o diálogo que se tem estabelecido no sentido da persecução de todo este conjunto de desideratos, tem vindo a enfermar, aflitivamente, de uma síndroma preocupante, que se traduz numa multiplicidade de estapafúrdios sinais aos quais devemos prestar a máxima atenção. Estes têm a ver com uma clara tendência para uma espécie de narcisismo absoluto primário, por parte das pessoas ou, por outras palavras, para uma cada vez maior umbilical deriva, redutora do são convívio familiar, comunitário, institucional, fazendo perigar mesmo a coesão social e a própria democracia.

    O Dr. Jacques Lacan (1901-1981), nos últimos cinquenta anos da sua vida, viria a trazer um contributo fundamental à análise dos distúrbios de dominação egocêntrica da humanidade, ao definir o inconsciente como algo assente num quadro simbólico semelhante ao da linguagem. Para este cientista, a palavra, enquanto símbolo linguístico, só tem razão de ser a partir do momento em que diz algo ao outro e é aceite socialmente de forma tácita. Sem o outro, a quem se dirige num ping-pong construtivo, não há comunicação nem subjectividade, uma vez que existe uma convenção explícita, assente na simbologia adoptada e que é comum aos falantes dessa mesma linguagem.

   A partir dos vinte e quatro meses, mais ou menos, as necessidades de sobrevivência da criança começarão gradualmente a ser satisfeitas, já não por meio de automatismos instintivos que o egocentrismo absoluto primário garantia através da ligação materna (fase oral e sádico-anal), mas através da representação simbólica em objectos da realidade. Este fenómeno, apenas apanágio do ser humano, conduzirá o desejo da criança ao encontro do desejo do outro, sem choques aparentes, porque no seio de um ambiente familiar ideal: psicologicamente equilibrado, afectivamente harmonioso, emocionalmente participado, a palavra mediará o encontro dos desejos, com carácter de racionalidade ponderada e de viabilidade devidamente ajustada, ao contrário do que se passa no mundo selvagem.   Afastemo-nos deste, enquanto é tempo... 



Nota: net pics

7 comentários:

  1. Olá Manel
    Ótimo post numa bela reflexão comunicativa.
    É o que falta à humanidade: diálogo.
    Abraço meu

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  2. Amigo, gostei de ler! Muito bem escrito, como sempre.
    Falar - uma necessidade primária que deve de ser bem orientada, concebida. Saber pensar, reflectir e só depois, dentro do respeito pelo próximo, por nós mesmos e o mundo, comunicar. O diálogo selvagem, apenas gera desentendimento que nada de valor concebe.
    Cptºs
    Manuela Carneiro

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    1. Manuela
      Agradeço a atenção da visita e do comentário.
      Cumprimentos
      M. Bragança dos Santos

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  3. Querido Zé
    Parece que o autismo está a tomar conta de alguns membros da nossa sociedade.É pena,pois tal como diz o provérbio «A falar,é que a gente se entende»,
    e falar pressupõe sempre um emissor e um receptor.Ou é um diálogo de surdos...unilateral...
    Parabéns por esta chamada de atenção.
    Um bom domingo.
    Beijinhos da
    Mana

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  4. Muito bom esse texto Humberto
    e oportuno para os tempos que vivemos em que a linguagem oral ou escrita deixa a desejar e torna-se quase incompreensível tamanha é a variedade de normas e modernices,
    Obrigada pela partilha
    um abraço à distância

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    1. Um abraço, amiga Lis.
      Agradeço a sintonia e o comentário.

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