quarta-feira, 16 de abril de 2014

FLOR ENJEITADA

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Só tu me trouxeste as mais belas flores
que o deserto sepulta definhadas
num caos agonizante decepadas
na fúria de presságios predadores

Com êxtase adoração e temores
soterraste pétalas calcinadas
que nem o claro brilho das espadas
purificou de teias e horrores

Tu foste o melhor de nós e da vida
presença cuja luz foi repartida
através do teu ser sempre vibrante

porque não deve abolir o amor
a génese dos afectos na cor
da aura que se move fascinante

in "O Rumo e o Sonho" - 2001
Fólio Edições

quinta-feira, 10 de abril de 2014

MIRAGEM

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No sonho da noite transfigurada
irrompes dessa irrealidade
pra inundares de luz a verdade
cativa na palavra acinzentada

Sinto agora a dor apaziguada
por sermos um mar de serenidade
peito onde pulsam vagas sem idade
rumo à ilha por mim inventada

Através das carícias da paisagem
vai desenhando o vento a tua imagem
nas nuvens no sol na mais pura fonte

nos rios nas folhas do arvoredo
nas gotas do orvalho manhã cedo
sobre o mar perdida no horizonte

in "O Rumo e o Sonho" - 2001
Edições Fólio
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quarta-feira, 9 de abril de 2014

DESREALIZAÇÃO EDUCACIONAL

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Hoje, dia 9 de Abril de 2014, quarenta anos depois da Revolução dos Cravos, aquela que nos concederia a Liberdade perdida aquando da instauração da Ditadura Militar, em 28 de Maio de 1926, escutava eu o Jornal Noticioso das 13 horas, na SIC, quando tomei conhecimento de que, há dias, neste nosso “quadrado” rectângular, uma docente tinha sido suspensa, depois de, alegadamente, ter sido esmurrada, em plena sala de aula, por um seu aluno de 15 anos que, viria a sair impune... Trata-se, afinal, de mais um episódio deplorável, de autêntica desrealização educacional. Tentemos, então, enquadrar, ideologicamente, os factos.

É sabido que a sociedade tende a evoluir, quanto mais não seja, a reboque do progresso científico, na busca da melhoria das condições sociais de vida, na procura da emancipação das criaturas, no âmbito de uma mais conforme amplitude das liberdades. No entanto, nada disto tem o condão de influenciar, de forma linear, os indivíduos, até porque todas estas alterações que vão sendo introduzidas na comunidade dos homens, acabam por problematizar a autoridade tradicional, como, de facto, se viria a verificar ao longo das últimas quatro décadas, desta nossa Democracia tipicamente terceiro-mundista.

Uma vez aqui chegado, fácil se torna perceber a reviravolta plasmada na teia das relações familiares, pessoais, sociais, laborais e institucionais, já que, nas últimas décadas, têm vindo a se transmutar estatutos e papéis, competências e atribuições, tradições e hierarquias.

Mas, de acordo com este novo tipo de conceptualização (formal e informal) de que passou a se revestir a simples ideia de tessitura familiar, pessoal, social, laboral e institucional, desde há muito, e, já hoje, por maioria de razão, os educadores, professores e, fundamentalmente, OS PAIS, deveriam possuir na sua intrínseca interioridade (a redundância é propositada), a autenticidade da sua maturidade pessoal, que reverteria em natural e saudável autoridade, da mesma forma que os jovens deveriam possuir em si próprios o domínio dos seus desejos, pelo simples facto de que só é livre quem possui a prerrogativa de saber utilizar essa mesma liberdade com conta, peso e medida.

Acontece que tudo tem o seu início através de uma cuidada e equilibrada aprendizagem; de um aconchegado e lúcido clima familiar; de um perseverante e inteligente investimento no banco dos afectos sensatos e sentidos. Se assim não for, e na ausência de maturidade afectiva e de domínio interior, tudo descamba, se desequilibra, descarrila, atropela, se desmorona, se desvanece...

Por último: a energia recalcada, prisioneira e inconsciente de si mesma, não se expressa abertamente e procura vias travessas para obter satisfações e a inevitável descarga nervosa. Sem que o indivíduo se dê conta, age e reage subliminarmente, protagonizando comportamentos atitudinais desconcertantes: isto é válido, tanto para as pessoas como para as instituições, que não são mais (estas) do que grupos organizados (?!!!) de gente. E eis que desembocamos no exemplo reportado no primeiro parágrafo do escrito de hoje.

NOTA: Através do conceito "desrealização", quisemos aqui significar uma espécie de angústia social que tem levado os indivíduos a uma deriva do sentimento da realidade circundante.
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segunda-feira, 7 de abril de 2014

AUTO-ESTIMA, MOTIVAÇÃO E ATENÇÃO

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Tenham em mente, caros leitores, a multiplicidade de motivações, nem sempre recomendáveis, a que estão sujeitas as crianças escolarizadas, nos nossos dias, partindo fundamentalmente da perniciosa televisão, da nefasta internet ou das redutoras consolas dos denominados jogos de vídeo.

Não é de espantar, portanto, que este terrível pacote - que reveste também potencialidades formativo/informativas, evidentemente -, com uma influência tão esmagadoramente poderosa, consiga desviar, ou melhor, alienar as crianças sem grande dificuldade, tornando-as pouco sociáveis, porque de jogos solitários se trata; dolorosamente inseguras, porque não canalizam nem dimensionam a sua afectividade no sentido de um relacionamento saudável de interacção vivencial com as outras crianças da sua idade; deveras tensas, porque perdem horas a fio especadas em frente às máquinas, numa gestão disruptiva de emoções, logo, descontrolada, pior estruturada, de cariz abstruso e desconchavado.

Ademais, sempre que as crianças não recriam devida e convenientemente as suas emoções; quando não condimentam as suas energias e respectiva aplicação de forma harmónica e socializante, porque se encontram cativas de enredos e esquemas mercantis, ainda que alegadamente lúdicos ou tidos como diversão de efeitos mais que duvidosos, geram-se comportamentos desviantes na sua maneira de ser, na sua natural capacidade de dirigir a atenção para as coisas que realmente interessam, como é o caso das matérias constantes do programa nacional escolar, quando este, na verdade, é propositado, útil e formativo. 

Um destes tipos de desvios prende-se com aquilo que os especialistas designam de "distúrbio hiperactivo de défice de atenção", hoje cada vez mais comum, em maior ou menor grau, nas crianças que todos os dias leccionamos.

Em jeito de fundamentação conceptual, e segundo Barkley (1990), "o distúrbio hiperactivo de défice de atenção é uma perturbação do desenvolvimento caracterizada por graus de desenvolvimento inapropriados de desatenção, sobreactividade e impulsividade, os quais se verificam, frequentemente, na primeira infância; têm uma natureza relativamente crónica; ligam-se a deficiências neurológicas, sensoriais, de linguagem, motoras, mentais ou emocionais severas. Estas dificuldades surgem tipicamente associadas a défices de comportamento orientado por regras e na manutenção de um padrão consistente de realização ao longo do tempo".

Este tipo de desvio, distúrbio ou perturbação, como lhe queiram chamar, como tem sido claro para quem lecciona, fere sempre de "morte" a motivação e, sendo esta a principal responsável pelo exercício do papel fundamental de acicate em todo o processo de aprendizagem das crianças, visto predispor afectivamente os meninos, através da curiosidade, do interesse participativo, do empenhamento, funciona, afinal, quando em alta, mas, pelo contrário, quando afectada, é susceptível de disfuncionalizar toda a ambiência lectiva, na sua vertente mais nobre e essencial - a do enquadramento ensino/aprendizagem.

Este problema, no entanto, não afecta, como adiantámos já, todos os alunos por igual, e, nesta conformidade, verificam-se vários graus de motivação diferenciada, de aluno para aluno. Entretanto, e aqui é que bate o ponto, se o docente e a escola usufruírem de condições de excelência e de turmas a rondar os quinze elementos, no sentido de optimizar o ambiente escolar e a qualidade de leccionação, as competências que se visam atribuir às crianças escolarizadas poderão melhorar, exercendo também toda uma dinâmica positiva de influência na auto-estima dos alunos e, consequentemente, na optimização da sua motivação e/ou vice-versa

sábado, 5 de abril de 2014

SÚPLICA

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Alma minha vida amor
feri teu coração sem querer levei-te à dor
sofro agora a amargura o estertor
de te ver triste caída pensativa flor
no meu peito explode o sangue o clamor
de quem te pede a paz a luz um novo ardor

A paixão tem de Deus todo o fulgor
ao sentirmos na entrega e no calor
de quem devora o tempo e o lugar
que o destino nos juntou
                      só para amar

quarta-feira, 2 de abril de 2014

ESTRELA MULHER

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Juraste ser minha estrela
no firmamento de além
com teu brilho e tua luz
não precisei de ninguém
por que medos te afastaste
e já não olhas para mim
ficas distante quieta
eu pergunto porquê assim

A vida sem ti é fria
sem tua luz sou lamento
os olhos postos no céu
sonho com nuvens e vento
vem cobrir-me com teu véu
juraste ser minha guia

A vida sem ti parou
passo as noites ao relento
buscando cintilações
sofro na dor o tormento
de quem vive de ilusões
para mim nada mudou

Juraste ser minha estrela
não um astro qualquer
perde o medo vem sê bela
basta que sejas mulher

terça-feira, 1 de abril de 2014

EU, TU E NÓS

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Sou barco acostado ao cais
rede estendida na areia
gaivota branca na praia
gemendo contigo ais
enleado nessa teia

És jangada no mar alto
ilha verde já tão perto
luar de prata a brilhar
em vagas de sobressalto
sede de água no deserto

Somos fusão estelar
amplexo de loucura
furacão descontrolado
corações a navegar
Hiroshima de ternura