sexta-feira, 25 de março de 2016

A ESPERANÇA DEVIDA

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       A esperança devida... Sim, claro, a esperança que nos é devida, a nós que integramos a espécie humana e que temos o direito e o dever de tudo fazer, dentro dos limites do razoável, do sensato, e no âmbito da comunidade dos homens de boa vontade, sem atropelo das normas mais elementares da democracia e da liberdade que propicia a coexistência pacífica e a coesão social. É que tem sido esse tipo de esperança, saudável e legítima, que tem potenciado a extensão da outra esperança, a de vida, aumentando o tempo de convívio, entre si, dos seres humanos, sine die e à face do planeta, até idades invejáveis.

            Esta é, sem dúvida, uma realidade em alta, nos dias que correm, e que se tem vindo a verificar, grosso modo, desde o período que se seguiu ao final das hostilidades ocorridas, a nível mundial, entre o ano de 1939 e o ano de 1945 – Segunda Grande Guerra. Por um lado, foram sendo criadas melhores condições de vida para a generalidade dos cidadãos, foram surgindo melhores empregos, melhor remunerados e respeitando a necessidade de lazer dos trabalhadores; melhor apoio à infância e à adolescência; começaram a aparecer novas empresas a explorar de forma mais eficaz as matérias-primas do planeta, novas descobertas ao nível da ciência médico-medicamentosa, entre muitas outras factualidades. Tudo isto, viria a reforçar a consistência da esperança que nos é devida, e, portanto, a nossa esperança de vida.

            Por outro lado, no entanto, e reportando-nos nós ao mesmo período histórico-temporal, quanto maior é o desenvolvimento maiores se nos apresentam as contradições inerentes a esse mesmo progresso, por força da loucura dos homens. No prefácio do nosso romance O Chão dos Sentidos (Santos, 2013: 18), citamos James Lovelock, devido à extraordinária lucidez com que este cientista interpreta a humanidade: não existe, diz ele –, porque “existem apenas seres humanos, movidos por ilusões e por necessidades em conflito, e sujeitos a toda a espécie de enfermidades da vontade e do juízo”. Pois é este o outro lado da moeda que nos coarcta a esperança devida e nos tolhe a esperança de vida.

       Isto acontece, por força de interesses belicistas inconfessáveis a que estão associadas as guerras e tudo o que estas precipitam, a saber a mortandade indiscriminada, as perseguições, as destruições massivas (pessoais e materiais); pelas agressões ao equilíbrio planetário e pelas consequentes calamidades climáticas; pelo fim da regulamentação dos mercados e da correlação entre o ouro e o papel-moeda; pelos acidentes motorizados; pelos ataques terroristas; pelas doenças da modernidade (a diabetes, as cardio-vasculares, os cancros, as respiratórias, as várias psicoses e outras)... Tudo isto mata ou descaracteriza o indivíduo, muito mais do que à primeira vista pode parecer.

      E, porque a esperança que nos é devida deve ser sempre a última a morrer, terminamos, agora, com uma citação própria, colhida do nosso mais recente romance As Cores da Alma (ainda na gaveta: 135): “Ainda assim, em períodos críticos de caos, de guerra ou de desgraças acidentais, e ao contrário das restantes espécies animais, só o homem é capaz de protagonizar gestos de solidariedade, empatia e altruísmo, talvez para compensar certas atitudes extremas, visíveis ou subreptícias, manifestas ou encapotadas, registadas no dia-a-dia dos relacionamentos familiares, sociais, laborais ou institucionais”.

1 comentário:

  1. Pois é, amigo, nesse pós-guerra em que tudo parecia possível, foi mais fácil concretizar alguma dessa esperança...
    Mas concordo com a citação que lhe pertence: “Ainda assim, em períodos críticos de caos, de guerra ou de desgraças acidentais, e ao contrário das restantes espécies animais, só o homem é capaz de protagonizar gestos de solidariedade, empatia e altruísmo..."
    Um beijo.

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